Privados não sentiram efeitos do corte de vagas no público

Principais mexidas nas universidades de Lisboa e Porto foram em cursos que não existem nos privados, o que travou potenciais transferências.

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Presidente do grupo CESPU diz que debate sobre corte nas vagas não foi esclarecedor PAULO RICCA / PUBLICO

O corte de 5% do número de vagas nas instituições de ensino superior públicas de Lisboa e do Porto não teve impacto na procura das universidades privadas sediadas nas principais cidades do país, defendem os dirigentes destas. As mexidas na rede estatal foram feitas sobretudo em áreas em que não há oferta no sector privado, o que impediu eventuais transferências.

À volta da medida - que retirou retirou 1100 vagas em nove instituições públicas neste ano lectivo - criou-se “uma discussão, que não foi muito esclarecedora”, avalia António Almeida Dias, presidente Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU), que tem instituições de ensino superior em Vila Nova de Famalicão e Gandra, no concelho de Paredes. Mas a redução de lugares para novos alunos nas universidades de Lisboa e Porto "claramente não teve impacto nos nossos ingressos”, sublinha.

Nos alunos nacionais, esta instituição teve um crescimento em linha com as restantes universidades privadas, de cerca de 4% - entre os estrangeiros cresceu acima de 20%.

"Não fizemos esse estudo e não o consigo provar empiricamente", comenta, por seu turno, o administrador da Universidade Lusófona Manuel José Damásio, mas a percepção que este responsável tem é que a medida também "não teve impacto" naquela instituição. 

Os cursos em que houve maiores cortes dos números de vagas nas instituições de Lisboa e do Porto, em resposta à imposição do Governo, não são aqueles em que as instituições privadas têm as suas ofertas mais fortes pelo que "não houve transferência de procura", assegura Damásio. "Os cortes no público são em cursos que nós não temos", confirma Miguel Varela, do Instituto Superior de Gestão. 

Apesar de o curso do ensino superior público em que mais vagas foram cortadas no arranque deste ano lectivo ter sido o de Direito, na Universidade de Lisboa - teve menos 140 lugares, mas é, ainda assim, o curso de todo o país com mais vagas, totalizando 445 - a maioria das alterações verificaram-se nos cursos de engenharia (sobretudo a Mecânica) e Línguas e Literaturas, no qual a oferta no ensino superior privado é escassa ou inexistente.

Nos cursos em que poderia sentir-se, na Economia e Gestão, Direito e algumas áreas da Saúde, que são o grosso da oferta dos privados, as universidades públicas fizeram poucas mexidas no número de vagas.

O administrador da Universidade Lusófona Manuel José Damásio diz-se também adepto da medida. "Deve continuar. O país não pode continuar a ter este desequilíbrio na oferta", defende.

O corte de vagas nas instituições de ensino superior das duas principais cidades do país mereceu críticas sobretudo entre os responsáveis das instituições de Lisboa e do Porto. 

A Universidade de Lisboa reagiu em comunicado ao primeiro anúncio da medida, em Fevereiro, defendendo que a solução “frustraria as expectativas de muitos candidatos ao ensino superior que assim veriam aumentadas as médias de ingresso nestas instituições”, levando muitos alunos “a ter de optar por uma instituição privada, desistir do seu ingresso no ensino superior, ou onerar os orçamentos familiares com deslocação para fora das suas áreas de residência”.

A medida não teve os efeitos desejados no sector público. O Governo anunciou-a como uma forma de levar mais estudantes para as instituições de ensino do interior do país, mas metade das vagas cortadas em Lisboa e no Porto mantiveram-se noutras instituições do litoral, sobretudo nas universidades do Minho, Aveiro e Coimbra.

A medida impediu, contudo, uma razia na procura das instituições do interior neste ano lectivo, face à quebra do número de candidatos verificada. As instituições do interior e das ilhas tiveram uma quebra do número de colocados de 2,3% no final da 1.ª e 2.ª fases do concurso nacional. No conjunto das duas fases, a totalidade da rede pública de ensino superior perdeu 2,6% dos novos alunos, face a 2017. Ou seja, as instituições do interior perderam menos do que a generalidade do sistema de ensino superior.