Francisco Frazão: “Não queria nada que o Teatro do Bairro Alto fosse um clube de jovens artistas”

Foi o escolhido para dar uma nova vida ao Teatro do Bairro Alto, sala que acolheu durante décadas o Teatro da Cornucópia, e herda parte da missão do Teatro Maria Matos. O TBA arranca em 2019 com a condição sui generis de ser novo em Lisboa mas recolher a memória de outros dois projectos.

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Nuno Ferreira Santos

Por enquanto, é um espaço contraditório: esvaziado de equipamento e de gente, mas cheio de um passado riquíssimo da história das artes portuguesas, casa que foi do Teatro da Cornucópia durante 41 anos, e do muito futuro que existe, por agora, na cabeça de Francisco Frazão e da sua equipa de programadoras. Vencedor do concurso lançado pela EGEAC para a direcção artística do Teatro do Bairro Alto (TBA), o ex-programador de teatro da Culturgest, que iniciou o seu trajecto n’A Capital, dos Artistas Unidos, prepara uma abertura faseada (começada esta sexta-feira com a presença online, prosseguirá antes do Verão com vários espectáculos site specific espalhados por Lisboa e culminará com a abertura das portas em Outubro de 2019) de uma sala no centro da cidade dedicada às margens artísticas. Entretanto, arrancam as obras.

Que obras terão lugar no TBA e como responderão às necessidades que prevê para a sala?

A ideia não é mexer muito no espaço. Está num estado de conservação razoável e o importante é preservar as suas qualidades: a amplidão, as dimensões e a versatilidade da sala principal e de ensaios. Nessa óptica de preservação, as intervenções serão quase cirúrgicas. Uma das mais significativas tem que ver com a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida. Outra será a abertura de uma entrada nas traseiras que permitirá a circulação de cenários, equipa, artistas e, eventualmente, espectadores – imaginando que temos um espectáculo na sala de ensaios. Na sala principal são sobretudo questões de arquitectura cénica e de equipamento, porque não ficou equipamento nenhum, ficou apenas a bancada, que vamos conservar e utilizar porque tem a inclinação perfeita em termos de visibilidade; e embora seja pesada é muito flexível, pode ser dividida em duas, três, quatro.

A bancada permite que lotação?

Estamos a ver ainda, mas 150 ou 160 pessoas, depende também das carreiras. As grandes alterações têm que ver com facilitar e acelerar os tempos de montagem porque vamos ter uma programação, em termos de ritmo, muito diferente daquela que fazia a Cornucópia.

A equipa que o acompanha é toda procedente do Teatro Maria Matos?

Neste momento existe um núcleo duro composto pelas direcções – executiva, técnica, produção e comunicação –, todas vindas do Maria Matos. A equipa de programação é um pouco diferente.

Quer especificar?

Temos a Ana Bigotte Vieira, que passou pela Culturgest em diversas funções e com um percurso académico ligado aos estudos de performance e a estudos da cidade, com a área do discurso. Na música, a Diana Combo, que é música, não era programadora, mas que conhece muito bem o meio da música experimental – que era o que nos interessava. Viveu em Berlim e Barcelona, tem alguns contactos internacionais, e tem-se movido um pouco entre o Maria Matos e Serralves. E a Laura Lopes, que fazia assistência de programação no Maria Matos, fica a fazer comigo as artes performativas. Tem também muita experiência na gestão de redes europeias – entrámos já numa candidatura que fechou agora em Dezembro.

E é uma rede que vos interessava em particular?

Sim. É uma das redes de menor dimensão, mas que nos interessa porque tem que ver com diversidade e sub-representação, uma das áreas em que queremos intervir.

A orientação, não apenas em relação à música, é a de que o TBA seja uma sala com esse fito de abertura à experimentação?

Completamente. Estava já bastante desenhado pelos próprios termos do lançamento do concurso, mas o foco é mesmo ser um teatro concentrado em três vectores: na experimentação, no emergente e no internacional. Esta especialização é um contributo importante que o TBA pode dar à cidade. Não que noutros teatros não se faça trabalho experimental, mas aqui podemos dar um contexto, em que as peças e as obras são vistas umas em relação com as outras e sempre neste âmbito. E o emergente não é pensado como uma fase do percurso do artista. Interessa-nos a ideia do emergente mais como adjectivo do que como substantivo, enquanto aquilo que está a vir à superfície, que ainda não é reconhecível, que talvez ainda não saibamos descrever muito bem mas que nos inquieta.

É uma forma inteligente de utilizar a palavra em proveito próprio.

Não queria nada que fosse uma espécie de clube dos jovens artistas. A ideia não é inserirmo-nos numa cronologia em que os artistas vão subindo da Rua das Gaivotas até ao TBA para depois chegar à midtown com a Culturgest. Esta sala não é um teatro à italiana, permite muitas variantes de relação entre público e palco, e queremos poder oferecer isso aos artistas da cidade em qualquer altura do seu percurso.

Sendo um dos vectores a criação internacional, que equilíbrio com a presença de artistas portugueses prescreve?

Será uma programação dividida entre a criação nacional e a apresentação internacional: 50-50. Não quer dizer que em cada trimestre seja assim, mas em cada temporada, sim, a tendência será essa.

Para o novo perfil do TBA, houve algum modelo que tenha servido de inspiração?

Para escrever a candidatura fomos buscar inspiração a experiências de vária natureza, do Project Arts Centre em Dublin e do Vooruit em Ghent ao HAU em Berlim ou ao Kaaitheater em Bruxelas. São teatros muito diferentes mas que têm procurado inventar maneiras novas de apresentar este tipo de produção menos mainstream. Um exemplo concreto é o board do Project Arts Centre, que funciona como uma espécie de consciência do teatro. Queremos também criar um conselho consultivo que abra o funcionamento do teatro à cidade e que acompanhe o trabalho do TBA em todas as suas vertentes, acolhendo várias sensibilidades – nomeadamente pessoas que estiveram ligadas a este espaço enquanto Cornucópia, pessoas próximas do Maria Matos, ligadas às questões da sub-representação e da inclusividade, espectadores, artistas, produtores…

É uma preocupação para si, ao dirigir esta sala, que não se perca a ligação com o Teatro da Cornucópia, companhia que historicamente a ocupou?

Obviamente. A Cornucópia trabalhou neste teatro durante 40 anos. Acho que nem temos de fazer nada de muito significativo para que essa memória se manifeste. Está em tudo. Na própria sala, quando começarem os espectáculos de novo, será inevitável uma conversa ou um curto-circuito temporal com criações e peças antigas da Cornucópia. Não é uma sala neutra.

Pergunto para lá dessa inevitabilidade.

Estamos na situação sui generis que é ser um projecto novo na cidade, mas que recolhe a memória de dois outros projectos. Ou seja, estamos no espaço da Cornucópia, e parte da equipa e da missão vêm do Maria Matos. Não é preciso tecer grandes teorias, o espaço e a equipa são algo muito concreto. E é importante cuidar desses laços. Não os apagar, mas também não nos reivindicarmos dessa herança, porque não somos herdeiros da Cornucópia nem do Maria Matos. Ninguém está à espera de que o TBA seja uma continuação da Cornucópia, não há qualquer possibilidade de isso acontecer. Mas é um projecto com o qual podemos aprender. Tal como podemos aprender com o projecto do Mark Deputter no Maria Matos ou com o projecto do Miguel Lobo Antunes na Culturgest. Há várias coisas que acabaram nos últimos anos e que nos permitem não começar do zero. São duas vantagens: poder fazer algo novo e não começar do zero.

Mas faz sentido dialogar com o legado do Cornucópia através de algum texto que tenha sido apresentado aqui?

Não para já, mas vai ter de acontecer. Quando escrevi a candidatura ocorreu-me que em 2022, quando o meu mandato terminar, poderia ser um momento interessante porque se cumprem 30 anos sobre a criação de A Missão, do Heiner Müller, a única peça que a Cornucópia fez duas vezes – em 83 e em 92. Mas, por enquanto, fazer uma terceira produção é mesmo só uma ideia lançada numa garrafa. Não queríamos começar com uma apropriação da herança da Cornucópia. Ninguém nos convidou nem nos autorizou para isso.

Conta herdar do Teatro Maria Matos uma programação por núcleos temáticos, no que toca, por exemplo, em relação às questões suscitadas pela sub-representação?

Sempre tive muita afinidade com o tipo de espectáculos que se apresentavam no Maria Matos, mas não é a nossa intenção aplicar aqui ciclos temáticos. A ideia da autonomia das obras é algo que me interessa particularmente. Gostava muito que as peças fossem o contexto umas das outras e que não houvesse um ‘guarda-chuva’ que as explicasse ou que lhes desse uma chave interpretativa. O que não quer dizer que haja uma abdicação de uma vertente política da programação. A sub-representação tem que ver com a presença de artistas de origens não dominantes ou que não são as mais presentes nos nossos palcos, que não são só homens brancos, como eu. Essa sub-representação não é só uma questão de agenda social, é uma questão estética. Se não temos outras vozes, não podemos reivindicar-nos do facto de sermos um teatro experimental.

O que pode avançar da programação da primeira temporada?

Posso adiantar duas co-produções internacionais que têm também uma vontade de apresentar o TBA a um circuito internacional: um espectáculo do Federico León que nos chegou através do FITEI, e que vai ficar perfeito nesta sala, porque vai usá-la em toda a sua extensão, chamado Eu Escrevo, Tu Desenhas; e a nova peça do Tim Crouch [Total Immediate Collective Imminent Terrestrial Salvation], em que o público terá livros consigo e da leitura desses livros é que vai surgir o espectáculo. Vamos ter também uma peça da Raquel Castro ainda no primeiro ano, na música a Diana está em conversações com os Calhau! e teremos umas conferências/performances de um especialista em teatros vazios chamado Augusto Corrieri.

Qual entende ser o papel do TBA na rede de teatros de Lisboa?

O mais importante parece-me ser termos disponibilidade para o diálogo. Não nos fecharemos a colaborações, mas também não vamos fazer uma programação que seja uma manta de retalhos de várias joint ventures possíveis. Obviamente queremos ter uma relação com o Alkantara e conversar com os outros festivais da cidade e com os outros teatros, assim como com os espaços independentes aqui à volta – as Gaivotas, o Alkantara, o Cão Solteiro, a ZDB, o Teatro da Politécnica. Queremos ser bons vizinhos e ter parcerias quando for caso disso ou delimitar áreas de intervenção quando for necessário. A partir de 2014, quando mudaram as direcções do Nacional e do São Luiz, o ritmo de apresentações acelerou bastante e era pouco claro o que cada um fazia e que era diferente dos outros. As coisas agora estão a atingir um novo equilíbrio e está a tornar-se claro qual pode ser o nosso lugar. Para nós é muito evidente que falta, sobretudo, produção experimental e internacional de pequena e média escala. Sobretudo na área da dança e da música.

Em relação à sua programação na Culturgest, é de uma esperar uma linha de continuidade?

Sim, não me consigo reinventar do pé para a mão. Há relações com artistas que gostava de continuar, como o Tim Crouch, mas também a Lola Arias, a Nicola Gunn e a Lucy McCormick são pessoas que gostava de voltar a ter em Lisboa. E portugueses como o Cão Solteiro, a Mónica Calle ou o Teatro Praga.

Lembra-se da primeira peça a que assistiu nesta sala?

A primeira chamava-se Salada, com textos de palhaços. Em 1990. Só alguns anos depois [1993], já adolescente, vim ver um espectáculo que me marcou muito – Sete Portas, do Botho Strauss. Tive o poster pendurado na parede do quarto durante imensos anos, com uma imagem de sete portas em semicírculo. Aliás, a minha candidatura para a direcção do teatro chama-se precisamente Sete Portas, a partir da ideia de aberturas e fechos que implica todo este processo.