Mourinho deixou de estar confortável no Teatro dos Sonhos

Em três anos no United, o técnico português não ganhou o suficiente, nem sempre gastou bem, chocou de frente com a administração e entrou em conflito com alguns jogadores.

Foto
Reuters/JASON CAIRNDUFF

“Ao analisar o jogo de hoje, as pessoas podem olhar para as estatísticas. É essa a forma como as pessoas que não compreendem o futebol analisam o futebol. Eu não olho para as estatísticas. Analiso o jogo pelo que sinto e pelo que vejo”, dizia José Mourinho há pouco mais de um mês após uma derrota do Manchester United, por 3-1, com o Manchester City. Nem tudo se resume a números no futebol, mas os treinadores vivem ou morrem pela estatística, e Mourinho “morreu” no United por causa dos números. Porque, em menos de três anos no Teatro dos Sonhos, não ganhou o suficiente e perdeu demasiado. E não gastou bem. E chocou de frente com a administração. E entrou em conflito com os jogadores. E voltou a ter Guardiola no seu caminho. Nada de novo, portanto.

Chegou, assim, ao fim a longa estadia de Mourinho no hotel Lowry, no centro de Manchester, onde ficou alojado durante 895 dias, a 600 libras por noite para uma despesa, sem contar com extras, a rondar as 537 mil libras, segundo as contas do jornal britânico Guardian. Foi, aliás, à porta do hotel que os jornalistas conseguiram apanhar o treinador português, aparentemente bem-disposto, depois de uma última refeição e de uma despedida emocional, com lágrimas e abraços, com alguns elementos do staff do Lowry, de acordo com um relato do jornal Daily Mirror.

Foto

Com a família a viver em Londres, era no Lowry que se sentia confortável, num “apartamento dentro de um hotel, com tudo o que precisava”, justificava Mourinho sobre a sua opção de não ter procurado casa para viver. Se o técnico português esperava ter carreira longa em Old Trafford para justificar um investimento no ramo imobiliário, só o próprio poderá responder, mas estava vinculado ao United até 2020, com mais uma época de opção, uma extensão contratual assinada em Janeiro deste ano. Na comunicação da renovação de contrato, há várias frases a reter, de Ed Woodward, CEO do United – “Traz energia e propósito a tudo o que faz” –, e de Mourinho – “Deliciado pela confiança de que eu sou o treinador certo para este grande clube” e “adoro os meus jogadores e é um prazer saber que vamos estar juntos pelo menos nos próximos três anos”.

O médio prazo estaria pelo menos nos horizontes, tanto de Mourinho, como do United (tinha contrato até 2020), mas, nos últimos meses, essa perspectiva de futuro foi-se transformando em desconforto para toda a gente. E os títulos conquistados nas duas épocas anteriores (Taça da Liga, Supertaça inglesa e Liga Europa, mais um segundo lugar na época passada) parecem uma ninharia numa altura em que, na Premier League, o United já está a 19 pontos do líder Liverpool, com quem os “red devils” perderam de forma clara, um 3-1 muito lisonjeiro para a equipa de Mourinho – no jogo em Anfield, e com Alex Ferguson na bancada, o Liverpool rematou 36 vezes, o United seis.

É difícil estabelecer uma relação de causa e efeito na hora de analisar aquilo que correu mal durante o tempo de Mourinho no Teatro dos Sonhos. O português tem passado a mensagem da falta de solidariedade da parte da gestão do United na hora de investir no reforço da equipa, mas a verdade é que o técnico português gastou, desde que chegou a Old Trafford, 466 milhões de euros em dez jogadores (e ainda teve Zlatan a custo zero), um valor incomparável quando se pensa no que gastou para reforçar o FC Porto (21,9 milhões) e Inter Milão (155,8 milhões), equipas com as quais foi campeão europeu.

No mesmo período, Pep Guardiola gastou 600 milhões em 22 jogadores para o Manchester City, metade são titulares indiscutíveis ou muito utilizados. Das 11 contratações de Mourinho só Zlatan e Matic se podem considerar sucessos inquestionáveis. Paul Pogba, o mais caro de todos (105 milhões) e destinado a ser a “estrela” do United de Mourinho, tem uma utilização inconsistente e nada de acordo com o preço de recompra (o francês saíra por quase nada uns anos antes para a Juventus), para além dos noticiados problemas de relacionamento com o técnico português, algo que, segundo muita imprensa britânica, não era caso único no balneário do United.

PÚBLICO -
Aumentar

Aquele que se apresentou no futebol inglês como o “Special One” e rapidamente provou que era especial foi agora despedido mais uma vez, algo que já acontecera em duplicado depois de ter conquistado títulos de campeão inglês no Chelsea, e a que deve acrescentar-se mais uma saída a mal do Real Madrid, com o qual tinha mais três anos de contrato. Em Old Trafford, foram 144 jogos, com 84 vitórias, 32 empates e 28 derrotas, e muitas exibições em que a qualidade do futebol era sofrível, para não dizer medíocre, bem longe do que mostra, por exemplo, o City de Guardiola, o Liverpool de Klopp, o Arsenal de Emery ou o Tottenham de Pochettino.

“O José é um daqueles tipos numa prancha de surf que se aguenta em cima da onda mais do que toda a gente”, escrevia Ferguson na autobiografia sobre o seu (na altura) rival português que seria, mais tarde, o seu terceiro sucessor depois de Moyes e Van Gaal. Desde que se apresentou ao futebol a grande altura no FC Porto, Mourinho projectou sempre a aura de vencedor, com um total de 25 títulos numa carreira que já dura há quase duas décadas. Esse currículo ímpar no futebol português e difícil de igualar no futebol mundial já não garantiu a Mourinho a continuidade no United, mas garantir-lhe-á certamente um lugar no topo do futebol mundial, seja um novo desafio na Alemanha ou em França, ou um regresso a campeonatos onde já foi feliz (Espanha, Itália). Ou um bem pago exílio dourado, durante uns tempos, em terras mais distantes.

Sugerir correcção
Ler 3 comentários