Stephanie Keith/Reuters
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Porque “os animais não são prendas”, há associações que param as adopções no Natal

Havia quem lhes fosse buscar um cão ou um gato quase na véspera de Natal. "Só faltava pedirem um lacinho", ironiza uma das associações portuguesas e abrigos que não permitem adopções no período festivo, para prevenirem abandonos e devoluções em Janeiro. "Um animal nunca pode ser uma prenda espontânea", avisam.

A duas semanas do Natal, a União Zoófila fecha a porta a adopções. Não por falta de interessados, mas porque “nenhum animal pode ser encarado como uma prenda de Natal”. Mesmo que cada um dos mais de 500 cães e 200 gatos que ali esperam por uma nova casa “sejam uma das melhores prendas que alguém pode escolher”.

E “escolher” é a palavra-chave, frisa Lurdes Pimenta, tesoureira da associação responsável por um abrigo em Lisboa. Ter um animal de companhia “não pode ser um peso imposto” que é escondido debaixo do pinheirinho. “É uma vida e é uma responsabilidade para a vida”, avisa.

Esta é só uma das várias associações portuguesas que, apesar das instalações sobrelotadas, negam os pedidos de adopções nas semanas que antecedem o Natal — e dizem impor “regras exigentes” durante o resto do ano. O Cantinho dos Animais Abandonados de Viseu é outra delas, há mais de 20 anos. "Entre 18 de Dezembro e 1 de Janeiro não há adopções", garante Ana Vaz, presidente da associação sediada num município sem Centro de Recolha Oficial Animal.

Culpa da “falta da experiência”, nos primeiros Dezembros deram animais quase até à véspera de Natal. “E muitos eram devolvidos pouco tempo depois”, lamenta. Queixavam-se: “Ai, nem queira saber o horror de noite de Natal que tive.” Porque o cão ficou doente depois de toda a família lhe ter dado os restos da comida. Porque chorou toda a noite (“E como é que larga tanto pêlo?”). Porque o cachorro se assustou com a confusão dos dias e noites agitados, com as crianças a quererem brincar ou com o barulho do o fogo-de-artifício — curiosidade: também para prevenir a fuga de cães, o fogo da passagem de ano na Avenida Paulista, no Brasil, só terá efeitos visuais.

Para prevenirem "decisões pouco reflectidas", o Cantinho também diz não organizar campanhas de adopção. “As pessoas deixam-se influenciar por momentos de emoção e depois corria mal.” Algum tempo depois, mais uma vez, alguém lhes trazia de volta o cão. Ou, pior, abandonavam-no na rua. 

Por ano, os centros de recolha oficiais (CRO), que não existem em 131 dos municípios portugueses, recolhem mais de 30 mil animais. Destes, apenas 35% são depois adoptados, contabiliza a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. E se a relação entre adopções no Natal e devoluções nos primeiros meses do ano é pouco expressiva na maior parte das associações com quem o P3 falou — “principalmente por causa de todas as medidas ainda mais criteriosas” que começaram a tomar —, é no Verão e nas férias grandes que se continuam a registar mais abandonos.

No entanto, os animais continuam a ser uma das prendas mais desejadas no sapatinho pelos mais pequenos. Em Portugal, mais de metade dos lares têm um animal de companhia, segundo diz um estudo da GFK divulgado em 2017. Com eles gastámos 12% do orçamento familiar, acrescenta a DECO: 1007 euros se formos fiéis a um cão, 865 se for um gato a roubar-nos o coração. Estas são contas que têm de ser feitas — pelo adoptante, "não pelo Pai Natal", alertam as associações.

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Em 2017, o Cantinho, em Viseu, recebeu 1200 cães e gatos. Este ano deram 532 animais. Ao seu cuidado ficaram ainda 600. O limite máximo confortável do abrigo, calcula Ana Vaz, deveria estar no 300. Ponto positivo: só dois foram devolvidos este ano. “Temos uma política de adopção rigorosa”, diz. Não dão animais a desempregados, estudantes ou estrangeiros sem prova de residência, por exemplo. E todos os animais saem com o chip que tem os dados do novo tutor.

Apesar das regras serem “explícitas”, incluindo a proibição de adopções nesta altura, ainda são alvo “de muitas insistências [para as contornar]”. À Associação Zoófila Portuguesa (AZP) também chegam “muitos pedidos de adopção na véspera, a 24 de Dezembro”. Dizem-lhes que procuram “um animal para oferecerem amanhã”. Quase sempre um “cachorrinho”. Ou um “gatinho, mas ainda bebé”. “Esquecem-se que depois em Janeiro não há trocas”, diz Bianca Santos, uma das responsáveis da associação cujos abrigos são apenas as casas de várias famílias de acolhimento temporário (FAT). Já famílias para sempre, garante, “não se encontram com adopções por impulso” ou “surpresas” inebriadas pelo espírito natalício.

E, por isso, apesar de não suspenderem as adopções no Natal e de registarem mesmo “um aumento de pedidos de adopção nesta altura”, os mesmos não se traduzem, normalmente, num aumento de adopções. O mesmo dizem as responsáveis pela Patinhas Sem Lar, em Espinho, e pela Cão Viver, na Maia, que pelo sexto ano organizou por esta altura uma "cãominhada", para angariar fundos. "Não fechámos, mas somos tanto ou mais criteriosos neste período". Até porque "há quem já esteja a pensar em ter um animal há muito tempo e aproveite esta época de solidariedade para o fazer".

Já a Asaast, associação dos amigos dos animais de Santo Tirso, não permite “que os animais sejam devolvidos porque são um presente que correu mal”. Também eles negam adopções neste período, há quatro anos. Antes, havia quem esperasse quase até à Consoada para escolher um dos 500 animais. “Vir adoptar na véspera? Só falta mesmo pedir se temos o lacinho para pôr no cãozinho”, responde uma das responsáveis pela associação. Sabe que há quem tente, e consiga, por outros meios: “Vão às lojas ou escolhem a raça que querem e compram a um criador”. Já ali, “antes de o levar, a pessoa tem de estar com o animal, para ver se têm afinidade, se ele se encaixa na família": "Não permitimos a entrega a outra pessoa que não ao tutor.”

Para ser adoptante na União Zoófila, por exemplo, o candidato tem de passear o cão, normalmente de idade adulta ou sénior, “cinco a seis vezes”. Antes, promovem o apadrinhamento para “se habituarem um ao outro”. O processo demora cerca de um mês a estar concluído. O saldo é positivo: em média, por ano, menos de 5% dos animais são depois devolvidos. “E todos eles nos marcam. Um bebé que cresce numa família e depois com dois anos volta ao canil fica muito traumatizado. Nós sentimos sempre que falhámos. E que é o animal que sofre”, confessa Lurdes Pimenta. “O sofrimento dos cães compadece os humanos. Porque eles raspam as unhas, eles choram, eles tremem. Mas os gatos sofrem bastante mais, depois de abandonados. É muito difícil motivá-los a comerem, por exemplo.”

Esta associação conta com 250 voluntários. Até ao final de Novembro, entregaram 160 cães. Para quem está a pensar dar um animal este Natal, propõem antes que levem a um abrigo a pessoa que querem presentear e que ela mesma escolha “a futura companhia”. Ou, se não quiserem estragar a surpresa, aconselham a “oferecer a cama e os brinquedos, para o animal ter tudo o que precisa quando chegar”. Não pedem desculpa pelas barreiras: “A partir do momento em que entram nós passamos a ser responsáveis por eles.” E cada adopção bem-sucedida, “bem, é como receber a prenda perfeita no Natal”.