Ultimato da Autoeuropa foi decisivo para fim da greve, ministros contradizem-se

O acordo entre trabalhadores e Governo foi anunciado esta manhã. Fontes do Governo confirmaram ao PÚBLICO que houve contactos durante toda a noite entre as diferentes partes envolvidas neste conflito.

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A ministra Ana Paula Vitorino e António Mariano, presidente do sindicato, após a assinatura do acordo aprovado esta sexta-feira ANTóNIO PEDRO SANTOS/LUSA

As últimas horas foram intensas e a solução para o Porto de Setúbal chegou apenas depois de a Volkswagen ter feito um ultimato: ou havia um acordo que permitisse retomar o escoamento da produção da Autoeuropa, ou os alemães deixariam de fornecer motores à fábrica de Palmela, que assim entraria em paragem forçada por tempo indeterminado. O acordo chegou ao início da manhã desta sexta-feira e a ministra que tutela os portos nacionais, Ana Paula Vitorino, garante que foi obtido “sem pressão”. Mas a realidade mostra que só se chegou a um acordo depois de a Volkswagen ter dado 24 horas para se encontrar uma solução.

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As últimas horas foram intensas e a solução para o Porto de Setúbal chegou apenas depois de a Volkswagen ter feito um ultimato: ou havia um acordo que permitisse retomar o escoamento da produção da Autoeuropa, ou os alemães deixariam de fornecer motores à fábrica de Palmela, que assim entraria em paragem forçada por tempo indeterminado. O acordo chegou ao início da manhã desta sexta-feira e a ministra que tutela os portos nacionais, Ana Paula Vitorino, garante que foi obtido “sem pressão”. Mas a realidade mostra que só se chegou a um acordo depois de a Volkswagen ter dado 24 horas para se encontrar uma solução.

Há outro detalhe em que as declarações da ministra do Mar são postas em causa: fontes do Governo confirmaram ao PÚBLICO que houve contactos durante toda a noite entre as diferentes partes envolvidas neste conflito, em busca de uma solução que, para a Volkswagen, já tardava. O grupo alemão criou um gabinete de crise em Palmela e fez saber ao Governo que estava disposto a tudo: parar a produção, encontrar-se com António Costa em Bruxelas, enviar mediadores para onde fosse necessário. Acabou por prevalecer a iniciativa dos trabalhadores que, face ao cenário, cederam na questão do fim da greve às horas extraordinárias – e que estava em marcha por razões que continuam por resolver.

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Ana Paula Vitorino, ministra do Mar, confirmou a contratação sem termo de 56 trabalhadores precários ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Comentando o desfecho, a ministra disse que “é um dia extremamente importante para o Porto de Setúbal e naturalmente para a economia portuguesa”. E negou que tenha estado em cima da mesa a requisição civil dos trabalhadores, como foi noticiado nesta manhã pelo semanário Jornal Económico. No entanto, em evidente contradição, o ministro da Economia, mais ou menos na mesma altura, foi questionado sobre se o executivo ponderou a requisição civil, tendo admitido que sim. “Nós temos de ponderar todas as possibilidades de manter os portos a funcionar ao serviço da economia”, disse o ministro Siza Vieira. E acrescentou que o executivo estava “a encarar com alguma preocupação essa situação do porto de Setúbal”.

“É muito importante que os nossos portos possam funcionar em condições. Temos uma economia que está a crescer graças às exportações e pelos portos nacionais passam não apenas um grande fluxo das mercadorias que exportamos, mas também das matérias-primas de que precisamos. O bom funcionamento dos nossos portos é uma prioridade da economia nacional”, sublinhou o governante.

Os estivadores de Setúbal aprovaram, por unanimidade, o regresso ao trabalho em horas extraordinárias já na próxima segunda-feira em Setúbal. Estavam em greve desde 5 de Novembro, em solidariedade com os colegas de Leixões e Caniçal (Madeira), que se queixam de discriminação. O Governo deu, nas últimas horas, garantias aos representantes sindicais de que vai mediar uma solução para esse diferendo, que continua por resolver, conforme vincou o presidente do sindicato.

A Operestiva, empresa de trabalho portuário, por seu lado, felicitou o sindicato “por finalmente ter acedido às condições propostas e assim permitir um acordo que normalize as operações no porto de Setúbal”. “Lamentamos que só agora tenha sido possível chegar a um acordo, com todos os prejuízos económicos para trabalhadores, operadores e utilizadores do porto que o radicalizar de posições inevitavelmente trouxe”, lê-se num comunicado emitido por esta entidade, que conclui: “Nas próximas semanas tudo faremos para normalizar a operação, regularizando a carga atrasada e na esperança de que seja possível recuperar as linhas entretanto perdidas.”

Os termos da proposta levada a votação indicavam que a greve deverá, no entanto, manter-se no Porto de Leixões. Tal não afecta, porém, o escoamento dos carros da Autoeuropa. Isto significa que o acordo fechado desde 30 de Novembro, para a contratação de 56 trabalhadores eventuais, pode avançar, uma vez que estas contratações estavam dependentes do fim da greve às horas extraordinárias. Neste novo cenário ficará resolvida a situação que afligia a administração da Autoeuropa, o Governo português e a casa-mãe da Volkswagen, na Alemanha, que estava a ponderar desviar para Espanha os motores destinados a Portugal.

“Tudo é para ser resolvido tão depressa quanto possível e tão devagar quão necessário”, comentou esta manhã a ministra. Para a marca alemã, a situação estava a tornar-se insustentável e a demorar de mais a ter uma solução. Em Palmela, segundo disse uma fonte ao PÚBLICO, as últimas horas foram de “grande ansiedade e até de algum caos”. Impedida de escoar a produção, a fábrica portuguesa estava a recorrer à base aérea do Montijo para guardar os carros que não estavam a ser transportados para o destino. Nesta altura serão cerca de 21 mil unidades. 

A capacidade da base não estava esgotada, mas a paciência alemã em Wolfsburgo estava no limite. A casa-mãe entendia que não fazia sentido continuar a fornecer motores a Palmela – quando outras unidades têm de parar por falta de motores –, se Portugal não conseguia garantir o escoamento da produção. Neste contexto, temia-se uma paragem forçada por tempo indeterminado.

A Autoeuropa tinha anunciado uma paragem entre 22 de Dezembro e 3 de Janeiro, devido à falta de motores, um problema que tem afectado diversas unidades da Volkswagen em toda a Europa – e que se deve às mudanças na procura, com uma maior predominância nas motorizações a gasolina em detrimento dos carros a diesel. Trabalhadores e gestão chegaram a acordo de que seria melhor juntar essa paragem forçada à época festiva, retomando a laboração no início de 2019, dando assim tempo aos fornecedores de componentes para que entreguem os componentes necessários à fabricação de novos motores. Com Mariana Adam