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Masta Ace & Marco Polo, Royce Da 5’9’’ e DJ Premier: rap mais “clássico”, no formato não menos clássico da “dupla”, a perspectivar o que nos próximos anos interessa recuperar,Masta Ace & Marco Polo, Royce Da 5’9’’ e DJ Premier: rap mais “clássico”, no formato não menos clássico da “dupla”, a perspectivar o que nos próximos anos interessa recuperar ,
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Rapalavrar: para resgatar a palavra no hip-hop em 2018

Word Up! foi expressão que um dia o hip-hop deu ao mundo, mas que hoje parece ferida, senão de morte, com preocupante profundidade. Mas muro de lamentações já existe: aí estão três discos para fazer a sutura e reposicionar a Palavra no sítio que lhe é devido.

“No princípio, era o Verbo” – talvez se possa ler numa das primeiras linhas de um imaginário evangelho do hip-hop. É já estafada – mas verdadeira – a ideia de que, na sua génese, o hip-hop – como tantos outros géneros, ou, enfim, como tantas coisas na vida – não foi uma coisa só quando, em meados dos anos 70, começou a surgir em torno dos bidões ardentes das esquinas de uma Nova Iorque febril, violenta, sedutora (a de Scorsese, Schrader, Abel Ferrara). Não foi só consciência social, nem só festa e diversão; não foi apenas discurso de emancipação do gueto, nem tão somente um arrazoado de ostentação. O MC tanto era o Master of Cerimonies que, de microfone na mão, ia anunciando, por cima das pesadas batidas descarregadas pelos soundsytems jamaicanos, os convivas que iam chegando às block party no Bronx, como o tipo que lhe pedia o mic e desafiava alguém para a “desgarrada” (vulgo battle e improviso). O rapaz que, nesse mesmo improviso, se dizia o mais bravo macho e dono das mais refulgentes Nike Air Force 1 (as uptowns, como então se chamavam, por serem o calçado que os meninos e meninas do gueto usavam, qual elevador social, para ir à elitista downtown de Nova Iorque) não era o mesmo (ou podia ser!) que exortava aos brothers & sisters para chegarem bem a casa sem puxar da pistola. O tipo que dizia que as mulheres eram só mais um adereço ao lado dos relógios e anéis bem podia ser o melhor amigo de infância de outro que fazia uma canção e um videoclip tão belos, inocentes e despudoradamente românticos como os de Bonita Applebum dos A Tribe Called Quest.

Mas se o hip-hop sempre foi tudo isto – o que só vinca a sua natureza complexa, contraditória, difusa, enfim, rica e estimulante –, há algo que sempre lhe foi absolutamente nuclear. A saber, o uso da Palavra, a habilidade, o engenho, a ginástica para a recortar, desdobrar, e retorcer, trabalhando-lhe os sentidos, a rima, o encaixe, a sonância. Qualquer que fosse o “tema”, o discurso, o universo pessoal, sempre ela, a Palavra, bem no centro do mundo: esticada, inflamada, lustrosa. In your face. Na última década, porém, como tudo aquilo em que a Internet toca, também o hip-hop tem sofrido profunda e acelerada transformação, sobretudo através dos fenómenos de massa do mumble rap e do trap. Trap, tramp, Trump: que santa e inusitada trindade aqui se formou, mais comunicante, na verdade, do que pode parecer à primeira vista, não fosse o modo de comunicação normal do presidente americano um tweet de meia dúzia de paupérrimas… palavras.

Entendamo-nos: não se trata do “fim” do hip-hop, da sua morte (Nas declarou-a em 2006 como outros o fizeram, equivocadamente, infantilmente, noutros géneros), mas importa reflectir, sob pena de um definitivo esbatimento tido por alguns (os próprios artistas e, pior, alguma crítica) como “inovador” – quando não “vanguardista” (!) –, sobre essas mutações com ouvidos de pensar. Para isso, nada melhor do que o fazer na companhia de 3 discos que, editados no presente ano, carregam consigo a tocha do verbo, da linguagem e do linguajar, domínio em que Royce Da 5’9’’, Masta Ace e Joell Ortiz são, como se diz em bom português, “barra”, engenhosos operários das palavras, significantes, métricas e tons, rappers sem concessões que nem a uma rima fora do tempo se permitem.

De pincel na mão e coração ao pé da boca

“You know a lot has changed nowaday. People don't make art no more, people don’t make music as if it was a canvas. They don't even care no more. I remember when makin' music was like takin’ a stroke of the brush and creatin' somethin' that would live on for years, that would last a lifetime! Maybe somethin' out there like a Mona Lisa”. É deste modo – pictórico mas, também, “cardíaco” (strokes), pinceladas do coração, então! – que se inicia Mona Lisa, álbum que junta Apollo Brown, produtor de Detroit (terra da Motown, dos Slum Village e J Dilla, de Eminem e do próprio Royce), a Ortiz, rapper cujo berço (Brooklyn) é também um dos berços do próprio hip-hop. Numa sôfrega era em que a net permite – e bem, pelo menos no plano das ideias – que todos possam “editar” música, literalmente, a qualquer momento e sem intermediação alguma entre si e o público, em que um tipo pode lançar um disco referindo-se a um acontecimento mediático do dia anterior (“This shit is final, this shit it analog / This shit is vinyl, this is not Tidal / This ain’t Spotify, Pandora playlist”, frisa Ace em Corporal Punishment), a dupla faz um ponto de ordem à mesa. Statement sobre como é preciso desacelerar, criar de pincel na mão e coração ao pé da boca, voltar, se quisermos, a sacralizar o processo de criação, enfim, levar o tempo necessário para dar ao mundo um objecto íntimo, vivo, sentido. O inverso, portanto, de uma grande, esmagadora parte (há excepções, já se sabe) dos objectos que os avatares mais recentes do hip-hop – o trap e o mumble rap – têm trazido a lume, canções sem ponta por onde se lhes pegue e que só a amplitude em massa, “viral”, possibilitada pela net explica que possam hoje circular como canções com pés (já não vamos à cabeça…). É a mesma ideia que, aqui há uns meses, sublinhava Sam The Kid (STK) numa entrevista disponível no YouTube: o modo como, actualmente, uma quantidade absurda de “rap podre” (citando) imperava no desgraçado campeonato das estatísticas, música que, continuava o português, seria imediatamente posta de lado há 10, 15 anos atrás.

Num outro plano, esta é também a era em que muitos proclamam – toldados por um facciosismo clubístico que seria só infantil se não fosse também ridículo – o “triunfo do hip-hop”, qual guerra dos tronos: alegadamente, o rock teria morrido e o hip-hop seria o “novo rock”, o “novo punk”. Apetece dizer: “Le Roi est mort, vive le Roi!”, outra forma de afirmar o óbvio, ou seja, que, na música como na arte em geral, nada morre, tudo se transforma e transcende. Alias, a ser alguma coisa nessa estéril linha de pensamento, o hip-hop será, no máximo, a “nova pop”, e apenas no sentido em que, de facto, hoje (amanhã será diferente, é sempre diferente), se constitui no género musical mais ouvido. Isso não faz dele um género melhor (!) ou mais interessante do que os outros, nem prova o fim de uma qualquer guerra dos 100 anos. Aliás, pela nossa parte, se essa hegemonia significar a prevalência nos ouvidos do planeta de figuras sinistras como Cardi B, Lil Pump ou 6ix9ine, então que o rock volte e rápido. Não é preciso ser hostil ao hip-hop para perceber isto; pode-se amá-lo visceralmente e, simultaneamente, ter uma visão desempoeirada das curvas da história da música popular. Se há coisa que o hip-hop mais recente, na sua derivação trap, partilha com o rock, é, de facto, o seu ancestral lema: Sex, Drugs & Rock and Roll. Com a diferença de que, onde o rock prometia energia destruidora, “xutos e pontapés”, catarse gritada aos céus, o trap se ensimesma, de forma aborrecidamente idêntica, num patético e niilista arrazoado de drogas e ansiolíticos (“Havin' substance is lame / Usin' substance is hot”, rima Ortiz em Reflection), rabos bíblicos, revólveres e carros de cilindrada inversa à da capacidade dos intérpretes para fazer canções (fala-se mesmo hoje de uma trap culture, que, além do ataráxico uso de drogas sintécticas e ansiolíticos, inclui tatuagens no rosto, vestuário garrido e heterodoxo, cabelo de tranças coloridas, nomes artísticos com o prefixo “Lil” e videoclips devedores de uma única e pedrada estética, todo um aparato visual a mascarar a pobreza do que se ouve). Tudo isto sem musicalidade alguma que não a de debitar meia dúzias de vocábulos como calha (ou, então, o mais rápida e quase imperceptivelmente possível, numa gratuita demonstração de técnica que só impressiona quem nunca antes ouviu Busta Rhymes) – já nem é a velhinha questão do “ter conteúdo”, tal já nem se coloca quando se assume, à partida, que as palavras utilizadas não têm de fazer sentido ou expressar um pensamento ou emoção próprios, qualquer que ele seja. Se, historicamente, o rap português andou sempre à boleia das transformações que o rap americano foi sofrendo, o trap, sendo transversal ao rap português mais recente, tem, hoje, numa editora ironicamente designada Think (!) Music um dos seus polos mais activos, autêntico viveiro de alguns dos mais confrangedores trappers portugueses (exceptua-se Mike El Nite e, quanto a Profjam, outrora uma das grandes promessas do rap português, revelou-se uma das suas maiores decepções). Com a particularidade de, quando acossados por comentários depreciativos, os trappers alardearem que são “incompreendidos”, porque vanguardistas. Mas entendamo-nos: como qualquer outra derivação, o trap é, na sua essência, uma fórmula sónica, em si mesmo, aliás, assaz interessante (até porque experimentalista), porquanto faz confluir, de um só jorro, uma série de estéticas da música urbana moderna (hip-hop, electrónica, R&B, dubstep, UK garage, grime), tudo dependendo, portanto, daquilo (palavras, emoções, ideias) que lhe é colocado em cima.

Neste contexto, ainda mais impressionante é, porém, o fenómeno do mumble rap, onde a não-articulação de uma simples frase (qual ideia…) ou a reunião de um conjunto de destrambelhadas e drogadamente guturais interjeições é assumida como estética. Se STK dizia, em tempos, “Não percebes o hip-hop”, agora a coisa levou uma volta, e das grandes: não percebes e não perceberás, porque, mesmo que quisesses perceber, ou não conseguirias ou, simplesmente, nada há para perceber. Evidentemente que não se discute a legitimidade deste tipo de criação (obviamente que se trata de música e, justamente por isso, é que deve ser debatida), evidentemente que há e deve haver espaço para todas as propostas; mas esta constatação não pode invalidar que, numa era de um asséptico e chocho relativismo, se façam, no final do dia, as contas, ou seja, que se apreciem os objectos e se forme um pensamento crítico sobre eles. Um instrumental de 3 minutos durante o qual, sob uma melodia e um ritmo absolutamente padronizado, prêt-à-porter, se escuta alguém a predominantemente verbalizar, pelo meio de vagas e escassas alusões a drogas e jóias, “aye”, “uh”, “eah” (ainda se fosse algo próximo do scatting…) é, evidentemente, uma canção, mas uma miserável e indigente canção que, como tal, importa elucidar. 

Este país é para velhos e novos

Um dos erros mais comuns, nesta e noutras discussões semelhantes, assenta na perspectivação das questões em termos geracionais, quer entre artistas (“I asked myself, ‘What'd I do so different? / How did me and the younger me become so distant? / Or are we not’”, Ortiz em Come Back Gome), quer entre públicos: miúdos e graúdos, nova e velha escola, vilões e heróis (o lendário produtor Pete Rock, por exemplo, tem-se envolvido em polémicas, via “redes sociais”, com trappers). Desfaçam-se equívocos moralistas: rappers há da velha senhora que não são mais do que aborrecidos e da nova geração não faltam miúdos virtuosos, estimulantes, rompedores. Motivo pelo qual o facto de trazermos aqui 3 discos de rap dito mais “clássico”, feito por gente mais entradota e no formato não menos clássico de “dupla” (produtor e rapper, algo muito tradicional nos 90s), não deve ser visto como bandeira geracional alguma (muito menos como bafienta nostalgia), antes uma selecção de discos que, respirando o hip-hop em toda a sua plenitude (o que inclui os seus “lados negros da força”, pois claro: a misoginia de uma canção como Flirt em Prhyme 2, por exemplo, embora “The beauty's in the flaws”, lembra também Ortiz em Mona Lisa), pode ajudar a perspectivar o que, nos próximos anos, interessa recuperar, “rapensar” (como dizia Chullage no seu disco de 2004), enfim, “rapalavrar”. A saber, a relevância da Palavra, de um discurso, de uma poética, qualquer que ela seja (tanta diversidade nestes três discos: política e segregação, violência e amor, a fé e a lealdade, o livre arbítrio e o sonho americano). Algo de que os próprios autores destes discos estão conscientes e pelo qual se lamentam, como Royce sintetiza no refrão de Era: “Sometimes I feel like I'm stuck in the wrong fuckin' era / Like I'm a hostage 'cause I'm in the wrong God damn era / ‘You supposed to be the future of the world!’” (sendo o último verso particularmente tristonho no que de rompimento de uma mítica promessa representa). Melancolia (quando não ressabiamento) que encontra igualmente eco na voz de Ace e de Ortiz (Reflection), razão pela qual é comum aos três a citação dos grandes ícones cujo património importa preservar (Fugees, J Dilla, OutKast, etc.). Sendo neste ponto interessante, porém, e porque reveladora de maturidade e modéstia, a abordagem de Ace em Still Love Her (óbvia citação de Common e canção-lição de como o baixo é fundamental no hip-hop), pelo modo como defende a sua dama mas, simultaneamente, reconhece que ela não é… sua: “Was they violatin' or was I hatin'? / She started using different drugs, her eyes dilatin' / She started sippin' syrup, started poppin' E / But I really can't treat her like my property / Being possessive, being so obsessive / I am bound to push away from being so aggressive / But I can't help myself, I don't know how to act / Man, there ain't no runnin' from the fact that I still love her”. No final do dia, Royce redimirá tudo e todos com Gotta Love It, amor e mais amor a fechar o disco: “We under fire, it's time to get rid of the tension between you and I / And unify, even if we ain't cool / Shit, it's 'bout love at this point / What's the use of thugs and drugs at this point? / It's just them killin' us and us killin' us”.

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Prhyme 2

Recuperar a centralidade da palavra não só para os ouvintes, mas, hélas, para a imprensa especializada (onde hoje abundam publicações, outrora sérias, a conceder tempo de antena privilegiado a figuras confrangedoras, noticiando mexericos e quejandos da pior espécie na busca do mais obsceno clickbait) e para as editoras major – um selo histórico como a Motown faz hoje conviver no seu catálogo as reedições de Marvins Gayes e Dianas Ross com os novos álbuns de algumas das mais pobres figuras do rap americano (Migos, Lil Yachty, Nicki Minaj). Novamente, se trazemos três discos de um rap tido como mais clássico é também porque, como a História ensina, por vezes, para contrabalançar as águas, temos que ir a uma ponta mais extrema para depois podermos voltar ao lugar da virtude – ou, de outro prisma, fazermos um back to basics para nos recentrarmos no essencial. Por tudo isto é que, na actual intoxicação generalizada com que o trap e o mumble rap têm poluído o ar, estes três discos se revelam, afinal, profundamente frescos, luminosos, entusiasmantes.

We'd like to welcome you to another round of hip-hop in its purest form”, diz o histórico Premier (metade dos não menos históricos Gangstarr) nessa impressionante faixa de abertura Black History, na qual Royce historiografa (como, de modo não menos denso, o faz Ace em Kings) a cultura afro-americana, o hip-hop, a sua própria biografia, pelo meio evocando, nem de propósito, a musa de Da Vinci (assim se estabelecendo a primeira das muitas ligações simbólicas e afectivas entre os três discos, caso da participação de Royce na Timberlan’d Up de Mona Lisa). Royce começa em registo proto-spoken word, melodia sem batida, modo de sublinhar, justamente, a fundamentalidade da palavra, tal qual STK explicou, aquando do lançamento de Sendo Assim (single que marcou o seu regresso às rimas a solo mais de 10 anos depois), como pretendeu que o instrumental fosse propositadamente circular, repetitivo, para que fosse o texto a sobressair em pleno. Embora, importa sublinhá-lo, o que encontramos nestes três álbuns são alguns dos mais extraordinários beats que 2018 nos deu, não estivéssemos a falar de produtores da estaleca de Premier (talvez o maior produtor de sempre na história do hip-hop), Apollo Brown (perfeccionista artesão de quem se diz recusar-se a trabalhar com rappers senão no mesmo espaço físico, e que em boa hora foi recrutado pela selecta Mello Music Group) e Marco Polo (Count Em Up é só um dos melhores beats que já ouvimos, ponto), o único branco e o único canadiano deste naipe. Ases que, tendo nas magníficas orquestrações de boom bap de pendor jazzy e soulful a sua matriz estética, aí não se barricam, como o provam os instrumentais de Era, Streets At Night, My Calling (Prhyme 2), Mona Lisa (Mona Lisa) ou God Bodies (A Breukelen Story - “Breukelen” como a designação original então imposta pelos colonos holandeses para a antes degradada, hoje gentrificada, Brooklyn).

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Polo

No último destes álbuns referidos, é a decisão de Polo de, terminado o secundário, abandonar a sua Toronto natal e rumar a Nova Iorque (qual viajante veneziano) que vai sendo “raccontada” ao longo de 19 grandes malhas, por vezes de modo demasiado caricatural, é certo (os skits), mas em todo o caso fechando o disco cheio de ternura: “Son, I have to say when you wanted to go to New York I was worried, I didn’t understand your passion, but I knew that I wanted and I needed to support you. But now, after seeing this awesome vídeo with you and this guy Ace… You make a great team, his voice fits your music beautifully, it's like magic! I'm so proud of you, I knew you were gonna do this! Okay, call me later. Love you”. Quem diria que, no mundo do hip-hop comummente visto como viril e másculo, um tipo acabaria um disco com as palavras ao telefone da mãe, origem de tudo, a dizer que o ama? Word Up.