Opinião

Se a França cair

A revolta francesa nasce sobretudo numa “pequena classe média” branca, que se viu afectada pelas consequências sociais da globalização.

1. É um clássico: os franceses não fazem reformas, apenas revoluções. É também um exagero, que serve apenas para descrever a particular identidade de um país com uma História que olha como gloriosa, que se vê, em momentos de euforia, como sendo ainda o centro do universo. Que alterna cada vez mais com uma profunda “malaise”, sempre pronta a explodir numa fúria incontida que normalmente derruba governos, desfaz reformas, mas raramente despede o ocupante do Palácio do Eliseu. É esta a história da V República, moldada pela personalidade do General De Gaulle e pela sua visão do poder – “La France c’est moi” -, onde a figura do Presidente da República Francesa funciona com o centro da vida política da França em redor do qual se organiza o poder, reservando ao primeiro-ministro o custo e a impopularidade da governação, um lugar secundário que pode ser sacrificado em caso de crise económica e social. Jaques Chirac, apesar do seu estilo caloroso e afável, ainda cumpriu este figurino. Alain Juppé, o seu primeiro-ministro, foi sacrificado quando a reforma das pensões levou milhões de franceses às ruas. Lionel Jospin, primeiro-ministro socialista que governou com Chirac em coabitação, tentou enfrentá-lo sem grande resultado. Quando resolveu desafiá-lo nas presidenciais de 2002, sofreu a tremenda humilhação de não passar à segunda volta, abrindo espaço a um confronto dramático entre o Presidente e o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen. O resultado mostrou ainda uma França firme perante o desafio do nacionalismo e do extremismo. A disciplina republicana funcionou em pleno dando a Chirac uma vitória de 82% dos votos e anulando qualquer ambiguidade perante a ascensão da Frente Nacional.

2. Nicolas Sarkozy quis quebrar o molde, com uma presidência combativa e irreverente e um estilo que se afastava da figura que tinha o dever de encarnar a grandeza da França. Foi um Presidente de um só mandato. Acabou derrotado por um candidato socialista sem brilho e sem carisma, que chegou ao Eliseu com o propósito expresso de ser um “Presidente normal”. Mudou o estilo, mudaram os rituais, não mudou a sorte. François Hollande cumpriu apenas um mandato, com alguns actos simbólicos para agradar à esquerda mas de muito pouca substância. Não conseguiu reequilibrar a aliança franco-alemã, que está na base da integração europeia. Não conseguiu reformar. O seu “ministro-prodígio” haveria de impedir a sua recandidatura, fundar um partido a partir do zero, avançar para o Eliseu prometendo um “centrismo radical”, sem qualquer cedência à extrema-direita de Marine Le Pen ou à extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon, destruindo pelo caminho o Partido Socialista e abanando fortemente a direita de Os Republicanos. Tudo em menos de um ano. Macron foi eleito numa onda de euforia. Prometeu uma revolução em França e uma refundação da Europa. Animou os governos europeístas da União Europeia. Berlim saudou-o como a oportunidade de ter finalmente o parceiro que tanto desejava: reformista, aberto e europeu. A boa e velha Europa, amarfanhada pela ascensão dos populismos e dos nacionalismos, dividida pela crise do euro e sobre o seu destino, rejubilou. Emmanuel Macron, 40 anos, intelectual brilhante, Júpiter de regresso ao Eliseu para restaurar o prestígio da França, acaba de descer à Terra. A esperança durou um ano. Não há a menor razão para regozijo. Quando Paris se incendeia, a Europa sofre um abalo profundo. Um desastre político e social em França seria, porventura, um golpe mortal.

3. O alcance europeu da crise francesa é evidente. Macron é o inimigo jurado dos movimentos e dos governos populistas, de Viktor Orbán a Matteo Salvini. Aliás, o próprio nunca enjeitou esse papel. “Macron deixou de ser meu adversário. Deixou de ser um problema meu. É um problema para os franceses”, disse Salvini. A popularidade do líder da Liga e vice-primeiro-ministro de Roma está em alta. A do Presidente francês em queda. Há um ano, a sua juventude e o seu dinamismo eram saudados por banhos de multidão na Europa. Trump é, ele próprio, a voz dos populistas, incluindo de muitos “coletes amarelos”. Disse ele: “Os contribuintes americanos [ao contrário dos franceses] não têm de pagar para limpar a poluição dos outros.” Antes tinha tweetado que o seu “amigo Macron” já tinha percebido “as razões pelas quais ele se tinha oposto ao Acordo de Paris [sobre o clima].” De Moscovo e de Ancara, suprema ironia, chegam os apelos para que a França “se abstenha de qualquer tipo de recurso excessivo à força”.

4. A revolta francesa não vem, como em 2005, dos banlieues das grandes cidades onde vivem várias gerações de imigrantes, muitos de origem magrebina. Não é a revolta dos excluídos ou dos desempregados, como diz o historiador francês Pierre Ronsavallon ao Le Monde. É a dos assalariados de salários modestos, pequenos empreendedores, artesãos e pequenos comerciantes. E de muitas mulheres. Nasce sobretudo numa “pequena classe média” branca, que se viu afectada pelas consequências sociais da globalização, que não vê a imigração com bom olhos, não por uma razão étnica ou religiosa, mas porque teme que ela a substitua nos empregos da indústria, do comércio ou de proximidade. Coincide, em boa parte, com os movimentos populistas que emergiram por quase toda a Europa. São os que ficam para trás, mesmo que vivam razoavelmente, que têm medo do futuro que já tiveram por certo e que hoje têm por incerto.

Sarkozy prometeu melhorar o nível de vida dos “franceses que trabalham”. Hollande prometeu a penalização dos ricos para uma melhor distribuição da riqueza. O imposto sobre as fortunas que decretou não enchia os cofres do Estado, mas tinha um efeito psicológico. Macron aboliu-o, justamente porque era apenas simbólico e afastava o investimento. Não basta dizer que o Presidente francês é arrogante, distante das pessoas, indiferente à realidade em que vivem. A arrogância pode alimentar momentaneamente a cólera e unificar os protestos. Mas há uma diferença: os manifestantes exigem a sua demissão. No primeiro ano de mandato, Macron fez aprovar todas as reformas que prometeu, depois de as negociar com patrões e com sindicatos. A sua ideia era libertar a economia e a sociedade francesa de espartilhos que cerceavam o crescimento e mantinham o desemprego elevado. A contestação nas ruas foi menor do que a que enfrentaram alguns dos seus antecessores quando quiseram mudar alguma coisa. Mas as percepções passaram a contar cada vez mais. De repente, o que muitos franceses viram foi um Presidente que “governa para os ricos”. As redes sociais desempenham o seu papel: dispensam a comunicação social, os partidos políticos, os sindicatos, o poder local, as organizações sociais. “Hoje é a palavra directa que se impõe como forma democrática; mas é, ao mesmo tempo, uma expressão confusa, que dificilmente se unifica e que é extraordinariamente vulnerável às teorias do complot e às fake news”, diz Rosanvallon. Um vídeo de disseminação veloz no Facebook diz que o Pacto Global para as Migrações, que a França se prepara para subscrever, visa “abolir as fronteiras para os imigrantes e promover a mistura racial em proveito de um supergoverno mundial”. “Macron prepara-se para vender a França à ONU e para aceitar a vinda de 480 milhões de imigrantes para a Europa.” Outros falam de um “governo paralelo” que ninguém vê, ou reivindicam a VI República (uma ideia de Mélenchon), uma democracia directa (como o 5 Estrelas de Di Maio). Outros ainda querem “uma mão de ferro para governar a França”. De novo Rosanvallon: “O termo ‘desigualdade’ não chega para traduzir este enorme passivo social e moral. (…) Esta revolta obriga-nos a olhar para a sociedade com um novo olhar. Precisamos de indicadores de dignidade e de desprezo, de guetização e de afastamento social, de apreensão dos medos e dos fantasmas, para apreender a realidade.” A heterogeneidade é tanto sociológica como ideológica. Há os activistas e os que os seguem. Mas há também “a câmara de eco e uma câmara de escuta”, muito mais ampla – a que permite que 70% dos franceses apoiem, em maior ou menor grau, esta revolta. O que vem a seguir ninguém sabe.

5. Entretanto, a elite europeia parece anestesiada. Em Bruxelas, os eurocratas preocupam-se com uma situação de excepção que leve Paris a não cumprir as regras do Pacto de Estabilidade. Um amigo contou-me que participou há três dias numa conferência em Bruxelas sobre a “autonomia estratégica” da Europa. O que se passa em Paris não constou de nenhuma das intervenções.