Marcus Wendel, um craque que chegou tarde ao futebol

De pouco utilizado com Jesus e Peseiro a titular indiscutível com Keizer, o brasileiro, que "pode fazer qualquer lugar no meio-campo", está a ser um dos jogadores em destaque nesta nova vida do Sporting.

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LUSA/YURI KOCHETKOV

Não deixou de ser surpreendente quando, em Janeiro de 2018, o Sporting anunciou a contratação de Marcus Wendel, um jovem médio brasileiro que só tinha feito uma época como sénior do Fluminense. Dizia-se que o PSG, um dos clubes com os bolsos mais fundos do futebol mundial, estava interessado e que o FC Porto podia recebê-lo por empréstimo dos parisienses. Falava-se em dez milhões, mas os “leões” acabaram por fechar com o “tricolor” carioca por 7,5 milhões (mais 1,2 milhões em comissões). Passaram onze meses de quase anonimato, primeiro com Jorge Jesus, depois com José Peseiro, e só agora é que Wendel está a ser importante no Sporting, “culpa” de Marcel Keizer, que apostou nele desde a primeira hora.

Para se ter uma ideia da importância que Wendel assumiu desde que o holandês assumiu o comando técnico do Sporting, é só olhar para os minutos que jogava antes e os que joga agora. Com Jesus, o brasileiro participou em quatro jogos consecutivos do campeonato, os dois primeiros em Março como suplente utilizado aos 89’ e aos 90’, o terceiro em Abril como titular (substituído aos 67’) e o quarto como suplente utilizado aos 46’, para um total de 114 minutos de jogos, não tendo saído do banco em cinco jogos. Com Peseiro, apenas jogou 85 minutos entre dois jogos da Taça da Liga e até marcou um golo na derrota em Alvalade com o Estoril que seria também o último jogo do ribatejano com os “leões”, e também não seria opção durante a gestão do interino Tiago Fernandes.

Com Keizer, já jogou mais em dez dias do que em todos os meses anteriores. Foi titular nos três jogos para um total de 256 minutos, e não é coincidência que o Sporting tenha ganho esses três jogos, com um total de 13 golos marcados e três sofridos. Foram jogos de dificuldade crescente, começando com o Lusitano de Vildemoinhos para a Taça (1-4), seguindo-se o Qarabag para a Liga Europa (1-6), com o Rio Ave para o campeonato (1-3) a fechar este miniciclo de três deslocações consecutivas, com Wendel a assumir protagonismo e a formar parecerias de alto rendimento com os seus companheiros de sector, Bruno Fernandes e Gudelj, também eles a subir de forma.

Se o técnico holandês pouco diz sobre a sua aposta no brasileiro (e, na verdade, sobre qualquer coisa), palavra a Abel Braga, que o lançou na primeira equipa do Fluminense e que não está surpreendido com a afirmação de Wendel nos “leões”. “O que ele está a conseguir não é surpresa nenhuma. Parabéns a quem conseguiu e puxou ele para o lado e mostrou para ele caminhos mais rápidos. Fico feliz que ele encontrou a titularidade, com boas actuações. É um jogador diferente, pode fazer qualquer lugar na ‘meia’. Ele tem uma transição espectacular, é um garoto do bem e merece estar vivendo esse momento positivo”, diz ao PÚBLICO o veterano técnico que já passou há mais de duas décadas pelo futebol português (Rio Ave, Famalicão, Belenenses e Vitória de Setúbal) e que tem um currículo invejável no futebol brasileiro (Fluminense, Vasco, Flamengo, Botafogo, entre outros).

Ao contrário de quase todos os futebolistas, que são recrutados cedo para os escalões de formação dos clubes, Marcus Wendel Valle da Silva andou por escolinhas de futebol até aos 17 anos. Natural de um bairro pobre de Duque de Caxias, um subúrbio do Rio de Janeiro, Wendel enfrentou um início de vida complicado. “Teve uma infância difícil. Foi criado com muitas dificuldades”, recorda ao PÚBLICO Cláudio Moisés dos Santos, tio e procurador do jovem médio.

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O futebol seria a porta de saída da pobreza e, por isso, tentou a sorte em Portugal e aceitou viver durante seis meses em 2014 na zona de Setúbal, período durante o qual foi sendo apresentado a vários clubes portugueses, um deles o Benfica, que o teve a treinar com os juvenis durante 15 dias. O jovem acabaria por não se fixar em Portugal e voltou para o Brasil, onde acabaria por se vincular a um clube perto de casa, o Esporte Clube Tigres do Brasil. Os “grandes” do futebol carioca começaram a reparar nele, o Flamengo chegou a estar interessado, mas acabou no Fluminense.

Dois anos na formação do “tricolor” chegaram para que Wendel chegasse à primeira equipa, onde seria aposta consistente de Abel Braga. O técnico recorda que foi num “clássico” do futebol carioca que o médio ganhou definitivamente um lugar na equipa. “Ele entrou na equipa numa altura que não era fácil. Num ‘clássico’ em que a equipa perdia por 2-0 para o Botafogo, eu troquei um jogador de meia por ele, virámos para 3-2 e a partir dali ele nunca mais perdeu a titularidade”, conta Abel Braga.

Wendel acabaria por ser uma das grandes figuras do Fluminense e uma revelação no futebol brasileiro. Falou-se muito do interesse do PSG e, por associação, do FC Porto, mas o CSKA Moscovo também terá sido um dos interessados (um interesse retomado no último Verão), mas seria Bruno de Carvalho a chegar-se à frente, garantindo um pagamento a pronto de 7,5 milhões, uma proposta que, segundo a imprensa brasileira, não seria a maior, mas considerada suficiente por um Fluminense em dificuldades financeiras.

A transferência foi anunciada no início de Janeiro de 2018, mas Wendel só se estreou a meio de Março, jogando o tempo de compensação num jogo frente ao Rio Ave. Jesus não olhava para ele como uma opção para o imediato, dizia que não estava pronto. “Uma coisa é jogar no Fluminense, outra coisa é jogar no Sporting”, dizia o técnico. A mesma coisa aconteceu com Peseiro, que também o relegou para um papel residual, apesar de lhe reconhecer “potencial tremendo”.

Ao longo dos meses, e com o ataque à Academia de Alcochete pelo meio, muito se falou da possibilidade de Wendel deixar Alvalade, fosse para regressar ao Brasil ou para tentar a sorte noutro campeonato europeu, e muito se especulou sobre a sua insatisfação e inadaptação. Mas bastaram umas semanas com Keizer para o W37 (como assina na sua muito activa conta no Twitter) se tornar indispensável.