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Modric, o Bola de Ouro para quem o tamanho nunca foi problema

O médio croata fecha 2018 em grande, confirmando, com conquista de mais um troféu, o melhor ano da sua carreira.

É um nome que encerra alguma controvérsia para os portugueses e para os fãs do futebol de Cristiano Ronaldo espalhados pelo mundo: Luka Modric recebeu a Bola de Ouro, destronando o avançado português, e juntou a distinção de melhor jogador do mundo da revista France Football à da FIFA e também da Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). É o ponto alto de uma carreira que começou em 1996, em Zadar.

Foi um ano recheado de títulos e prémios individuais para o médio croata, a quem muitos chamam o Johan Cruyff dos Balcãs. E o palmarés pode não ficar por aqui, já que, ao serviço do Real Madrid, tem fortes possibilidades de ainda conquistar o Mundial de Clubes, no final do mês. Luka Modric fica também na história do futebol por ser o jogador que interrompe um longo ciclo de alternância entre Ronaldo e Lionel Messi na conquista da Bola de Ouro. 

O trajecto de Modric foi como subir umas escadas até ao que muitos consideram ser o mais alto dos degraus: o Real Madrid, o clube com mais conquistas na Europa do futebol. Elemento-chave no modelo de jogo dos “merengues”, é determinante na estabilização do meio-campo e na criação de oportunidades, exibindo um sentido posicional comparado ao de muito poucos futebolistas. Inteligente com e sem bola, o pequeno croata, de 1,72m e 64 quilos, tem impressionado muita gente.

Toques de génio entre o terror

Natural de uma pequena vila situada a norte de Zadar, a sul da Croácia, Luka Modric rumou cedo – em 2002, com apenas 16 anos – ao centro e capital do país, Zagreb, onde está sediado um dos clubes mais fortes, o Dínamo. Para trás, deixou um passado tremendamente difícil, feito de insegurança e incerteza.

Tal como vários futebolistas croatas, Modric viveu momentos de infância complicados. Durante a guerra civil na Croácia, que resultou no fim da antiga Jugoslávia, o jogador chegou a ver o avô ser sequestrado, bem como familiares e amigos da pequena localidade de Modrici, em Zaton Obrovacki. Tudo isto aos seis anos de idade.

No meio de um clima de terror, Modric e a família viram-se obrigados a permanecer num hotel no centro de Zadar que rapidamente se tornou num abrigo para refugiados. Um dos recepcionistas chegou a admitir, entre risos, que Modric “partiu mais janelas do hotel do que as ondas de choque das bombas”. Foi aí que começaram os primeiros toques na bola, a forma de distracção que o agora melhor jogador do mundo encontrou para se abstrair do terror.

Bem mais tarde, em Zagreb, cumprido o último ano como júnior ao serviço do Dínamo, em 2003, Modric foi emprestado por uma época ao Zrinjski Mostar, da Bósnia e Herzegovina. A equipa não chegou ao pódio do campeonato (foi campeã no ano seguinte), mas Modric foi nomeado o jogador do ano da competição, tendo sido a segunda temporada com mais golos na carreira do croata (oito, só fez mais em 2007-08 no Dínamo Zagreb, 17).

No ano seguinte, voltou à Croácia, mas para ficar. Em novo empréstimo, Modric foi cedido ao Inter Zaprešic, a noroeste de Zagreb, onde realizou 18 partidas. A equipa chegou ao segundo lugar do campeonato croata, que dava um acesso à fase de qualificação para a Taça UEFA e Modric acabou distinguido como o jogador revelação do país.

A chegada à Premier League

Com tudo isto, era altura de voltar ao Dínamo, emblema no qual permaneceu até 2008 e pelo qual venceu três campeonatos, duas taças e uma supertaça croata. Nesse último ano na capital, marcou presença no Campeonato da Europa depois de, em 2006, ter participado no Mundial da Alemanha, a primeira grande competição em que representou a selecção.

Seguiu-se Inglaterra e a transferência mais cara do futebol croata até então. O Tottenham contratou Modric ao Dínamo Zagreb por 21 milhões de euros, num negócio que acabaria por causar polémica, devido ao envolvimento do dirigente Zdravko Mamic

Em Londres não houve títulos, mas houve futebol ao mais alto nível, sempre com mais de 30 jogos disputados. O treinador do Tottenham na altura da chegada de Modric, Harry Redknapp, não escondeu a felicidade por ter orientado uma geração de jogadores que permitiu à equipa ser competitiva dentro e fora de casa. “Eram tempos fantásticos”, revelou o técnico inglês ao site Goal.com. Até porque no plantel se destacavam ainda o veloz Aaron Lennon, o médio ofensivo Rafael van der Vaart e um outro jovem em ascensão: Gareth Bale. 

“Ele [Modric] foi um jogador fantástico para mim. Comigo no ‘spurs’ jogava à esquerda, até que eu o desviei para dentro, como um médio centro, e ele nunca mais olhou para trás. Ao contrário do que alguns disseram, ele não era um médio leve”, explicou Redknapp. O Tottenham, com Modric e companhia, alcançou o quarto lugar no campeonato inglês em 2010, no mesmo ano em que superou o play-off de acesso à Liga dos Campeões, competição que já não disputava há 50 anos. A campanha tornou-se ainda mais inesquecível com a chegada aos quartos-de-final. 

Para quem espera intensidade de um jogador que joga a meio-campo, Luka Modric sempre teve a resposta na ponta de língua. Quando era mais jovem, sempre deixou claro que “alguém que consiga jogar no campeonato da Bósnia consegue jogar em todo o lado”. Essa mesma observação tornou-se ainda mais pertinente quando Arsène Wegner, aos comandos do Arsenal, criticou a posição e estatura de Modric. “Todas essas críticas levam-te a mostrar às pessoas que elas estão erradas. Talvez eu pareça leve e pequeno, mas eu sou uma pessoa muito forte mental e fisicamente. E nunca tive problemas com o meu tamanho”, disse o jogador.

Real Madrid: de besta a bestial

À procura de novos desafios, Modric não hesitou quando lhe chegou às mãos uma proposta dos espanhóis do Real Madrid, apesar de terem existido negociações com o Chelsea. Foi um negócio de 30 milhões de euros mais 11,5 por objectivos, que ficou fechado em Agosto de 2012. 

A estreia do croata deu logo direito a troféu, quando entrou no relvado do Santiago Bernabéu para a segunda mão da Supertaça de Espanha, frente ao Barcelona. Apesar de tudo, a integração de Modric no Real, então orientado por José Mourinho, foi lenta, claramente prejudicada pelo facto de ter falhado a pré-época dos “merengues”. Essa demora na afirmação chegou até a levar os leitores do jornal espanhol Marca a elegê-lo como a pior contratação do ano do Real Madrid.

Na época seguinte chegava Carlo Ancelotti, o treinador que o médio croata considera o seu favorito até ao momento no clube espanhol. Com o italiano, veio a conquista da ambicionada décima Liga dos Campeões, antes de uma lesão grave, num jogo de apuramento para o Euro 2016, entre Croácia e Itália, ter contribuído para uma temporada negra, sem títulos para o clube espanhol.

Após a recuperação e com a chegada de Zidane ao comando técnico dos “blancos", confirmou-se mais uma série de títulos internacionais: mais três Champions, três Supertaças Europeias e dois Mundiais de clubes. No panorama interno, um campeonato, uma taça e outra Supertaça espanhola.

Este rol de troféus contribuiu para que Luka Modric tivesse integrado por quatro vezes o “onze” ideal da FIFA, mas o definitivo passo em frente ocorreu neste ano, graças a mais uma afirmação de força europeia do Real Madrid e, acima de tudo, graças à surpreendente campanha da Croácia no Mundial da Rússia. A presença na final da competição já lhe valeu o prémio The Best, desbravando terreno para a Bola de Ouro que agora se confirmou.