Croatas, os filhos da guerra

O que faz desta selecção croata um grupo tão resistente, tão capaz de deixar tudo em campo, é uma união que também se forja na história recente. Alguns jogadores perderam familiares, outros nasceram como refugiados.

Jogador croata após a meia-final com a Inglaterra
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Jogador croata após a meia-final com a Inglaterra LUSA/ABEDIN TAHERKENAREH
Jogadores croatas festejam o apuramento para a final do Mundial 2018
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Jogadores croatas festejam o apuramento para a final do Mundial 2018 Reuters/CARL RECINE

Foram três autênticas batalhas para chegar à final de Moscovo. Nenhuma selecção lutou tanto e por tanto tempo como a Croácia neste Mundial. Foram três prolongamentos, dois resolvidos nas grandes penalidades, o que soma mais uma partida em cima das pernas em relação ao adversário de domingo. Poderia ter sido de outra forma para uma geração de jogadores que nasceu das cinzas da guerra civil que desmembrou a Jugoslávia e chocou o globo, no início dos anos de 1990?

“A guerra fez-me forte. Tinha seis anos e foi realmente difícil”, contou o criativo médio Luka Modric pouco depois de chegar a Inglaterra em 2008, para representar o Tottenham de Londres – está actualmente no Real Madrid. “Lembro-me bem mas não é algo que queira arrastar comigo para sempre. Também não quero esquecer.”

Nascido na pequena Modrici – que também significa o plural de Modric em croata –, teve de abandonar esta vila no centro da Croácia em Dezembro de 1991, quando o conflito lhe entrou de rompante pela porta. A infância despreocupada deu lugar ao terror.

O avô, de quem herdou o nome próprio, tentava salvar o gado nas colinas que rodeavam Modrici quando foi sequestrado, com outros seis anciãos, por nacionalistas sérvios. Foram todos fuzilados. Ao mesmo tempo, o pai foi compulsivamente alistado no recém-formado exército croata, enquanto a localidade era cercada por minas. A vida tornou-se insustentável aqui.

Partiu com a família para a cidade costeira de Zadar, instalando-se no hotel Kolovare, transformado em abrigo para refugiados. Foi no estacionamento deste edifício, ao som dos morteiros, que Luka começou a dar os primeiros toques na bola. “Partiu mais janelas do hotel do que as ondas de choque das bombas”, revelou mais tarde um dos antigos recepcionistas.

Aqui permaneceu até ao final da guerra da independência croata, em 1995, integrando depois as camadas jovens do NK Zadar. Ainda lhe custa abordar o assunto. “Foi um período extremamente doloroso, não só para mim, mas para a minha família, amigos e toda a Croácia. Fez de mim o que sou hoje e sinto-me preparado para qualquer coisa que tenha de enfrentar.” Dentro e fora dos relvados.

Um dos grandes heróis nacionais, ao ajudar a eliminar a Dinamarca (oitavos-de-final); a Rússia e o seu público ("quartos") e a poderosa e ambiciosa Inglaterra ("meias"), Modric não esteve só. Toda a equipa se sacrificou nestas partidas e esta união é uma das notas que o seleccionador Zlatko Dalic não se cansa de reforçar. “O [individualismo] foi o nosso problema nos últimos dez anos. Tínhamos grandes individualidades, mas nenhuma unidade”, sublinhou quinta-feira, em Moscovo.

A unir ainda mais estreitamente estes jogadores estão os traumas do passado recente que viveram directamente ou através do sofrimento dos seus familiares mais próximos.

Fuga para a Suíça

Foi o caso de Ivan Rakitic, companheiro de selecção de Modric, rival em Espanha – onde alinha no Barcelona – e outro dos grandes nomes croatas neste Mundial.

“Os meus pais saíram da Croácia quando a guerra começou, em 1991. Fomos para a Suíça [onde nasceu] para não mais voltar”, revelou o talentoso médio num testemunho escrito na primeira pessoa na plataforma The Players’ Tribune, no mês de Junho. “A Croácia que eu e o meu irmão conhecemos foi a que vimos na televisão e nas fotos que os nossos pais nos mostravam.”

Era-lhes difícil entender o que se estava a passar nos Balcãs a que a família chamava “casa”. Os pais evitavam falar sobre o conflito, mas não conseguiam suster as lágrimas quando contactavam outros familiares e amigos que ficaram para trás. “Lembro-me que tinha quatro ou cinco anos quando vi uma reportagem na televisão sobre a guerra, com vídeos e fotos. Deitei-me naquela noite a pensar: ‘Isto é impossível. Como pode ter acontecido?’”

Ainda alinhou nas selecções jovens suíças, mas acabou por optar pela pátria dos antepassados. Nunca se arrependeu e admite como o futebol foi e é fundamental para solidificar as bases nacionalistas do país. “Mesmo antes da Croácia declarar oficialmente a independência [Outubro de 1991], a nossa selecção já tinha disputado uma partida. Acho que isso mostra tudo o que o futebol representa para nós.”

Conta que o pai também jogou como médio defensivo na Bósnia quando era mais jovem, mas a desagregação jugoslava terminou com qualquer veleidade que tivesse neste desporto. Acabou por aceitar um emprego na construção civil na Suíça para sustentar a família.

Companheiro de Modric no Real Madrid, o também centro-campista Mateo Kovacic tem apenas 24 anos, mas a sua vida foi igualmente transformada pela guerra. Nasceu na Áustria, onde os pais, croatas-bósnios, se refugiaram.

A aldeia de Corluka

Vedran Corluka não se lembra muito dos dramáticos acontecimentos que destruíram a sua aldeia natal de Modran, perto de Derventa, na Bósnia. Tinha seis anos quando os pais pegaram nele e fugiram para Zagreb, capital da Croácia. Dos seus bolsos saíram doações para reconstruir a igreja da pequena localidade, tendo contribuído nas obras com os seus próprios braços.

“A minha fé é muito importante para mim e, apesar da família ter cidadania croata e viver em Zagreb – o pai é engenheiro, a mãe juíza – a nossa aldeia é importante para nós”, explicou o defesa central, que joga actualmente no Lokomotiv de Moscovo, ao site Croatian World Network, ainda em 2013.

“Tive uma vida difícil em criança. Vi e ouvi algumas coisas más, mas isso fez-me mais forte. Foi importante para lidar com a minha vida e a minha profissão.”

“Mortas à porta de casa”

Aos cinco anos, Mario Mandzukic – o carrasco da Inglaterra nas meias-finais, autor do golo decisivo no prolongamento – vivia no sítio errado na pior altura. A cidade fronteiriça croata de Slavonski Brod estava na linha da frente do conflito. O horror não demorou a chegar e os pais não tiveram outra opção se não fugir antes que fosse tarde de mais.

Muito reservado em relação à sua vida privada, o avançado que irá ter Cristiano Ronaldo como companheiro na Juventus nunca fala sobre o assunto.

O pai decidiu ir para a Alemanha, encontrando refúgio em Ditzingen, perto de Estugarda. Contou como foi, anos mais tarde, ao site desportivo germânico Spox.com: “Não tínhamos muito dinheiro, mas não podíamos viver constantemente com medo. Para mim tratava-se apenas de levar a minha família para um lugar seguro e não podíamos esperar mais. As pessoas estavam a ser mortas à porta de nossa casa.”

Na Alemanha, o futuro internacional croata pôde desenvolver o seu talento para o futebol, acabando por integrar as camadas de base do TSF Ditzingen. Clube onde o pai, também futebolista, integrou a equipa sénior por um curto período. Durou pouco a aventura alemã, já que em 1996, com o fim das hostilidades na Croácia, as autoridades deixam de lhes prolongar o visto de permanência, obrigando-os a regressar a casa.

Tal como os sírios

Dejan Lovren nunca esqueceu as sirenes a antecipar os bombardeamentos na antes pacífica e multicultural cidade bósnia de Kraljeva Sutjeska. Tinha apenas três anos e estas são as suas primeiras memórias de vida. “Quando as ouvia ficava com muito medo a pensar nas bombas. Lembro-me da minha mãe me levar para a cave. Não sei quanto tempo ficávamos lá sentados”, contou o defesa central, em Fevereiro de 2017, ao canal televisivo do Liverpool (LFCTV), emblema que representa desde 2014.

“Depois, lembro-me da minha mãe, do meu tio e da sua esposa se meterem comigo num carro e de conduzirmos até à Alemanha, 17 horas. Deixaram tudo e levaram apenas um saco. Foi difícil e não imaginaria esta situação ocorrer comigo hoje. Fugir com os meus filhos e temer realmente pela minha vida.”

Para trás ficava uma infância que tinha tudo para ser idílica. “Kraljeva Sutjeska era uma cidade familiar, com 12 mil habitantes. Era bastante pacífica, sem stresses, nada. Tínhamos tudo e nunca houve problemas. Tudo corria bem com os vizinhos. Com os muçulmanos, com os sérvios, todos falavam bem uns com os outros e gostavam da vida que tinham. E então, aconteceu!”

A salvação foi partirem para a Alemanha onde já trabalhava o avô, no estado da Baviera. Primeiro ficaram instalados num abrigo para refugiados, antes de terem autorização para permanecer em solo germânico. Lovren ficou eternamente grato ao povo alemão pela generosidade. Permaneceu lá até aos dez anos, antes da família decidir regressar aos Balcãs.

Hoje, sente-se solidário com os refugiados sírios que procuram igualmente fugir da guerra e encontram resistências nacionalistas pelo caminho. “Entendo que as pessoas se queiram proteger, mas têm de pensar que esta gente não tem lar. Não é por culpa delas: estão a lutar pelas suas vidas e para salvarem os seus filhos. Vivi tudo isso e sei o que estão a passar.”

“Dêem-lhes uma oportunidade!”