O que é ser populista?

Usar técnicas e formas populistas não faz um populista. É preciso mais. Mas a ideologia não conta.

Fenómenos populistas como Donald Trump não chegaram à política portuguesa
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Fenómenos populistas como Donald Trump não chegaram à política portuguesa Reuters/LUISA GONZALEZ

Para um político ser considerado populista tem de reunir uma série de características expressas nos conteúdos das suas propostas, mas também na forma como são apresentadas. Nesta caracterização, “a ideologia não é marcante, pode ser de esquerda ou de direita”, explica Susana Salgado, investigadora do ICSTE, precisando que “o populismo é vazio e é preenchido no momento, de acordo com as necessidades, podendo mudar”.

Santana Pereira, investigador de ICS, explica que o “populismo na forma” se concretiza por “uma excessiva simplificação do discurso, uma grande agressividade na polarização da sociedade e o aperfeiçoamento de mecanismos de comunicação”. E afirma: “Não vejo estas três características nos líderes portugueses, não aos níveis trampianos ou bolsonarianos.”

Já quanto ao conteúdo, Santana Pereira sublinha, que ele se baseia “na dicotomia entre elite má e povo”. E Susana Salgado, acrescenta: “Uma característica essencial no populismo é a dicotomia entre o nós e o eles. Na extrema-direita, eles são os imigrantes, e na extrema-esquerda, são os banqueiros, as elites privilegiadas”.

Recorrendo aos critérios estabelecidos por Paul Taggart, Paula do Espírito Santo, investigadora do ISCSP, aduz outras características. “O populismo é hostil à representação política, os líderes apesar de serem eleitos são avessos à representação democrática, não acolhem a oposição”, garante.

A “dependência da cultura da nação" e “a identificação com o espírito da mãe pátria, com o conceito supremo de nação, que não explicam”, é outra característica que funciona como “o fio condutor da sua acção, apresentando-se como salvadores da pátria”, acrescenta a investigadora do ISCSP. Uma terceira característica é “a falta de valores centrais”, já que nos populistas, “os valores são expressos de forma vaga”. Mas, refere, os populistas são também “vagos e limitados em termos políticos, são pouco acessíveis a grupos de apoio, auto centram-se, não assumem que têm colaboração de equipas”.

Outro traço central é que o populismo é “a resposta em situações extremas de crise, os populistas surgem para ordenar a nação e expurgá-la de grupos que dizem que fazem mal à nação”, explica Paula do Espírito Santo, acrescentando uma última característica: “Tende a ser altamente camaleónico. Tem a ver com cada líder não há um modelo só. São líderes que se adaptam às circunstâncias. As suas ideias podem até mudar em função das circunstâncias”.

Além disso os líderes populistas são quase sempre carismáticos, diz Paula do Espírito Santo, dando os “exemplos de [Marine] Le Pen, [Silvio] Berlusconi e [Hugo] Chávez”. Susana Salgado afirma mesmo: “Os populistas com carisma e resposta política de coerência e consistência, não são loucos, são políticos que têm a capacidade de ler o que são as ansiedades do eleitorado e dar resposta”. Mas adverte que “os populistas não são todos carismáticos da mesma maneira, uns são mais que outros, embora tenham sempre uma imagem forte.”

Da capacidade dos líderes populistas depende a “contaminação do debate político pelo populismo, tanto na forma como nos temas”, salienta Susana Salgado, frisando que “mesmos partidos que não o são, têm muitas vezes estratégias que podem ser consideradas populistas ou recorrem a temas”. A investigadora do ICS dá como exemplo o caso das últimas eleições polacas, ganhas por um partido populista. “Na campanha, os outros estavam de repente a debater os temas dos partidos populistas e a utilizar as suas estratégias, porque não queriam perder terreno no resultado eleitoral. Acaba sempre por haver contaminação. Depende do peso dos partidos.”

Importância da mediação

Paula do Espírito Santo salienta ainda o papel da comunicação social na construção de um projecto populista. “Um líder só é populista se os media lhe derem espaço, a sua construção faz-se pelos media”, defende, argumentando: “É a desconstrução do discurso do líder, que perpetua a sua mensagem mesmo que de forma negativa e crítica. O que somos hoje em democracia muito devemos aos media, mas acabam por dar visibilidade e transformam o fenómeno do populismo em bola de neve. Mas é um mal necessário, faz parte da democracia.” E exemplifica: “Trump usa os media que estão contra si. Ele é o centro e conduz a orquestra. Acaba por ser dominante.”

Susana Salgado sublinha que, “em Portugal, o PNR é excluído dos media, há o travão dos jornalistas que dizem o que são os temas que não querem cobrir”. Uma situação que não acontece em muitos países. A investigadora do ICS refere que “isto é dinâmico e em evolução”, prevendo que nas europeias de Maio de 2019 “vai haver escape populista noutros países e cá pode surgir com mais espaço, mas depois nas legislativas baixará”. Isto acontece, porque, “os temas europeus tendem mais a isso e os eleitores estão mais livres para votar, muitos populistas têm sido eleitos para o Parlamento Europeu com agenda anti-Europa”, explica. Mas não acredita que haja tempo para vingar um projecto partidário populista já para o próximo ciclo eleitoral.

Outro elemento central no que é hoje o populismo é o papel das redes sociais. “Em particular os populistas usam-nas, porque é uma forma de comunicar directamente sem passar pela mediação dos jornalistas, a mensagem não é editada, não usam as redes sociais para interagir, mas como forma de comunicação padrão”, diz Susana Salgado. Explicando que este meio permite a “comunicação directa e rapidez”, o que “pode acabar por inibir e influenciar o discurso político” e dar-lhe “características novas”.

As novas redes sociais são agora determinantes, defende Susana Salgado. “Há diferenças na forma de comunicar das novas gerações. As redes sociais potenciam o populismo, que sempre houve, mas era mediado pelos jornalistas. Agora a opinião e a informação passa directamente e pode potenciar o populismo e ter impacto no discurso político, porque se pode dizer as maiores barbaridades sem travão, de forma inconsequente e sem responsabilização, porque a comunicação não é mediada pelos jornalistas”.