Amizade não justifica tudo, alega procurador do caso e-Toupeira

Funcionários judiciais são suspeitos de terem acedido ilicitamente a dados de processos em segredo como o caso dos emails, o dos vouchers, o das viagens de governantes pagas pela Galp e ainda o dos bilhetes oferecidos a Mário Centeno. Arguidos sabem se vão a julgamento no dia 13.

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Paulo Gonçalves (à direita), ex-assessor jurídico da SAD do Benfica, é suspeito de ser o destinatário da informação judicial acedida ilicitamente JOSE COELHO/LUSA

A amizade não justifica tudo, alegou o procurador do caso e-Toupeira, Valter Alves, durante o debate instrutório do caso, que está a decorrer no Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa.

Dois funcionários judiciais são acusados de ter espiado vários processos em que o Benfica tinha de alguma forma interesse, parte dos quais se encontravam em segredo de justiça, a troco de bilhetes para os jogos, material de merchandising, como camisolas do clube, e ainda do acesso privilegiado a este microcosmos desportivo.

Estão acusados de corrupção passiva e de vários outros crimes, incluindo falsidade informática e violação do dever de sigilo, num processo em que figuram, como corruptores activos, a própria SAD e o seu ex-assessor jurídico Paulo Gonçalves.

A decisão sobre se os arguidos vão ou não a julgamento será conhecida a 13 de Dezembro, às 14h30.

O caso dos emails, o dos vouchers, o das viagens pagas pela Galp a governantes e o dos bilhetes oferecidos ao ministro das Finanças Mário Centeno foram alguns dos processos a que o oficial de justiça e perito informático José Augusto Silva, de Fafe, acedeu de forma ilegítima, supostamente para passar informação a Paulo Gonçalves.

O representante do Ministério Público disse que toda esta teia de troca de favores não pode apenas ficar a dever se à amizade, como os arguidos quiseram fazer crer. "Parece que os amigos servem para justificar tudo", observou Valter Alves. "Não é crime ter amigos, mas é crime a prática de factos como os que estão descritos nesta acusação".

Por isso, o Ministério Público pediu a ida a julgamento de todos os arguidos e por todos os crimes que lhes imputa. E que, no caso dos oficiais de justiça e do jurista, somam mais de sete dezenas de delitos. Já à SAD foram imputadas três dezenas de crimes.

Para o advogado de José Augusto Silva, Paulo Gomes, é simples: este caso assemelha-se muito ao de Mário Centeno, que foi rapidamente arquivado. "O que é que tem de diferente? Os governantes podem receber ofertas de bilhetes mas um funcionário judicial não?", questionou.