Crítica

Atenção à melodia

O contrabaixista de Salvador Sobral e Júlio Resende apresenta um disco de estreia com jazz melódico.

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André Rosinha será sobretudo conhecido por ser o contrabaixista que acompanha Salvador Sobral e Júlio Resende, com quem tem tocado e gravado. Contudo, para este seu disco de estreia, a sua apresentação ao mundo como líder e compositor, afasta-se dos holofotes, abdica do eventual bónus de popularidade que estes músicos lhe dariam e junta simplesmente um grupo de músicos que considera que melhor servem a interpretação da sua música.

Naturalmente, o currículo de Rosinha não se fica por aí. Além de tocar com Sobral e Resende, o contrabaixista oriundo de Sintra tem colaborado em diversas formações nacionais, como Reunion Big Band, Ricardo Pinto Quinteto, Isabel Rato e Samuel Lercher Trio. Contrabaixista com som melódico e tempo preciso, não hesita em participar em projectos ligados à vanguarda aventureira, como o grupo Malson (quarteto com Albert Cirera, Federico Pascucci e Vasco Furtado) ou o quinteto luso-italiano What About Sam? (com Federico Pascucci, Luís Vicente, Roberto Negro e Vasco Furtado).

Para este seu Pórtico de estreia, Rosinha reuniu um quinteto, juntando um grupo de músicos com quem tem tocado noutros contextos. No acordeão está João Barradas, acordeonista virtuoso que se afirmou com os discos Directions e Home (ambos de 2017); no vibrafone está Eduardo Cardinho, jovem talento português, que editou o seu disco de estreia Black Hole em 2016; nos saxofone está Albert Cirera, catalão que já integra a cena jazz portuguesa, músico versátil com capacidade de adaptação a diferentes universos, do jazz mainstream à improvisação abstracta; e na bateria está o Bruno Pedroso, músico veterano, figura central no panorama nacional.

O quinteto interpreta as composições de Rosinha, músicas sóbrias onde a qualidade da melodia se evidencia de forma particular. Os temas são trabalhados pela multiplicidade de vozes e os instrumentos melódicos e harmónicos são combinados de maneira a retirar o melhor em favor do colectivo. Não há sobreposição, ninguém se acotovela, as vozes alinham-se e dialogam. Saxofone, acordeão e vibrafone alternam discursos, cruzam ideias; contrabaixo e bateria fornecem a solidez rítmica. E o contrabaixo também encontra espaço para solar, exibindo técnica e elegância.

Individualmente, além do contrabaixo de Rosinha, destacam-se o acordeão de Barradas (que além do acordeão tradicional, toca também acordeão Midi), o vibrafone de Cardinho e os saxofones (tenor e soprano) de Cirera, que acrescentam novas cores, em solos assinaláveis. Como bónus, após o final do último tema do disco surge uma faixa escondida, não anunciada no alinhamento: uma revisão do standard Goodbye num solo de contrabaixo, que funciona não apenas como despedida, mas também como assinatura.