Caso de Tancos tem um novo arguido, “Fechaduras”

Especialista em abrir portas alheias, o homem garante não ter participado no assalto a Tancos, apesar de ter sido convidado. Ficou em liberdade.

Foto
Miguel Manso

O caso do roubo das armas de Tancos tem um novo arguido: o homem que alertou antecipadamente as autoridades para a possibilidade de vir a ser furtado material militar num quartel português.

Conhecido como “Fechaduras”, por ter dedicado parte da sua vida a abrir portas e portões alheios, este homem foi quem meses antes do furto das armas, que ocorreu em Junho de 2017, contou a uma magistrada do Porto ter sido contactado por alguém para participar num assalto a instalações militares. Tê-lo-á feito no âmbito de outro inquérito, quando estava a ser inquirido.

O ex-fuzileiro que está preso preventivamente por suspeitas de ter sido ele a organizar a operação tinha-lhe ainda perguntado qual seria o material adequado para abrir as portas que estivessem fechadas em Tancos, para chegarem às armas dos paióis. “Fechaduras” aconselhou-o a ir comprar esse material a Espanha.

Como se sabe agora, apesar de a magistrada em causa ter alertado a Polícia Judiciária e a Polícia Judiciária Militar para o caso foram vários os juízes de instrução que desvalorizaram o assunto e o furto acabou mesmo por acontecer. Pelo menos um militar de Tancos terá recebido dinheiro pelas informações que prestou aos assaltantes.

Mas ou essas informações não se revelaram exactas, ou os autores do furto não estiveram tempo suficiente dentro dos paióis para escolherem o material que pretendiam levar. Como negociante de armas que era, o que o ex-fuzileiro pretendia era material que pudesse vender para assaltos a bancos, ourivesarias e estabelecimentos comerciais congéneres, como pistolas e metralhadoras – e não granadas ou outro material de guerra, para o qual não tinha clientela.

Arguido está em liberdade

Ouvido no Departamento Central de Investigação e Acção Penal pelos procuradores que têm o caso de Tancos em mãos no início de Novembro, “Fechaduras” foi constituído arguido mas ficou em liberdade: assegura que acabou por não participar no assalto, apesar de ter sido convidado para tal.

O inquérito ao desaparecimento e o inquérito à encenação do reaparecimento do material militar foram apensados e são agora uma só investigação, na qual figuram, além de “Fechaduras”, outros nove arguidos, entre eles o ex-fuzileiro. Todos os restantes suspeitos são militares ligados à encenação. Um deles é o ex-porta-voz da Polícia Judiciária Militar Vasco Brazão, que já voltou a ser alvo de buscas pela segunda vez e é considerado pelas autoridades um dos cérebros da história do achamento das armas na Chamusca. Quanto aos restantes cúmplices do traficante de armas, continuam à solta.

Depois de se demitir na sequência do escândalo de Tancos, em Outubro passado, o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes ofereceu-se para ser ouvido no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, mas isso não sucedeu ainda.

Durante a sessão de perguntas que assinalou o terceiro ano do PS à frente do Governo, António Costa revelou, em resposta a uma questão que lhe foi colocada, que logo a seguir à constatação do furto houve uma reunião da Unidade de Coordenação Anti-Terrorista, na qual estão representadas as diferentes polícias e os serviços secretos, tendo-se concluído logo aí que “o furto nada tinha que ver com qualquer ligação a criminalidade organizada, muito menos a actividade de terrorismo”. Porém, na realidade a investigação em curso continua a ter como indiciados os crimes de associação criminosa, terrorismo e tráfico de armas.