Crónica de jogo

O Sporting de Keizer está a crescer depressa e bem

Triunfo convincente dos “leões” em Baku sobre o Qarabag garante apuramento para os 16 avos-de-final da Liga Europa.

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LUSA/YURI KOCHETKOV

Os treinadores mais pragmáticos dirão sempre que a vitória é o mais importante e só depois poderão pensar na “nota artística”, como diria alguém do passado recente do Sporting. Marcel Keizer quer as duas coisas pela mesma ordem, primeiro ganhar, depois jogar bem. Em três semanas de trabalho, o holandês tem cumprido o primeiro objectivo e está a mostrar que o quer fazer a cumprir o segundo. No seu segundo jogo, o Sporting de Keizer ganhou bem e a golear, com um 1-6 em Baku que garantiu a passagem aos 16 avos-de-final da Liga Europa.

Claro que é ainda cedo para fazer previsões e o Qarabag não será propriamente o adversário certo para fazer uma avaliação definitiva – ser a melhor equipa do Azerbaijão vale o que vale –, mas, há cerca de dois meses, o Sporting levou quase uma hora para marcar um golo no jogo da primeira volta, em Alvalade. No Estádio Olímpico de Baku, levou quatro minutos a marcar o primeiro e fez mais cinco nos restantes 86, construindo aquela que foi a maior goleada da época – o que também não era muito difícil de alcançar.

Há uma diferença filosófica fundamental entre o Sporting de Keizer e as versões anteriores do Sporting nesta época. Há uma preocupação de circulação de bola em progressão e com pressa de chegar à frente e, para que isso aconteça com sucesso, é preciso ter gente que saiba o que fazer com a bola nos pés nas primeiras zonas de construção. Em vez de haver um destruidor como Petrovic, ou um transportador como Battaglia, começa agora a morar no meio-campo “leonino” um facilitador chamado Wendel, ignorado, primeiro por Jorge Jesus e, depois, por Peseiro, mas que está a ser a primeira opção de Keizer desde o primeiro momento.

Limitado pelas muitas ausências, entre castigos, lesões e não inscritos, Keizer lançou um “onze” quase igual ao do jogo da Taça de Portugal, apenas mexendo na dupla de centrais, com a entrada de André Pinto para o lugar de Mathieu, e, desde os primeiros minutos, os “leões” mostraram vontade de decidir cedo. Logo aos 4', um excelente jogada de envolvimento pelo flanco direito levou a bola até Bas Dost na grande área. O holandês foi derrubado por Rzezniczak e o árbitro assinalou penálti. Da marca dos 11 metros, Dost não falhou, naquele que foi o golo mais madrugador do Sporting em toda a época.

Tal como acontecera no jogo da Taça, pouco depois de marcar, o Sporting sofreu o empate, com o Qarabag a aproveitar uma falha defensiva aos 14’. A bola viajou do flanco direito para o esquerdo, com Guerrier a parar de peito para o remate certeiro de Zoubir. Os jogadores “leoninos” pediram fora-de-jogo, mas pediram mal porque Jefferson esqueceu-se de subir e ficou parado a colocar os dois homens do Qarabag em posição legal. Mas o erro defensivo foi rapidamente compensado aos 20’, quando Bruno Fernandes arrancou um remate de fora da área após um contra-ataque rápido. A bola bateu no chão, mas Haldorsson, o guarda-redes islandês, teve culpas.

Esta foi a altura em que os “leões” tomaram definitivamente conta do jogo perante um adversário que não mostrava a mesma competência defensiva do jogo da primeira volta. Mas o Sporting também estava mais rápido do que nesse encontro e, aos 33’, fez o 1-3. A jogada começou em Wendel e passou por Nani, que fintou meia equipa do Qarabag em sucessivos dribles até sentir que estava no sítio certo para marcar.

Ainda houve um susto provocado pela equipa da casa aos 38', um remate de Michel que Bruno Fernandes foi buscar em cima da linha de golo, mas o Sporting não se preocupou com a contenção. Foi em busca da “nota artística” e conseguiu-a na segunda parte. Aos 65’, de novo com Wendel na jogada, Diaby roubou a bola a Guerrier e fez o 1-4; aos 75’ Wendel isolou Bruno Fernandes para o 1-5; e aos 81’ Jovane Cabral fez o cruzamento perfeito para a concretização fácil de Diaby, fechando um jogo em que o Sporting marcou mais do que nos quatro anteriores.

Não será sempre assim e o Rio Ave, na próxima segunda-feira em Vila do Conde, será por certo um adversário mais difícil que este Qarabag, mas o Sporting parece estar a crescer depressa e bem, e a mostrar coisas que ainda não tinha mostrado, nem nos tempos finais de Jesus, nem na curta gestão de Peseiro (e não é justo incluir aqui o interino Tiago Fernandes). Isto já é do novo treinador. A Keizer o que é de Keizer, portanto.