Nunca Portugal levou a uma feira do livro tantas traduções apoiadas

São 47 as obras de autores de língua portuguesa preparadas expressamente para a Feira de Guadalajara por editoras latino-americanas, com o apoio da Dglab e do Instituto Camões. Em 2013, quando Portugal foi o país convidado na Feira de Bogotá, tinham sido 35.

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CORTESIA PORTUGAL PAÍS CONVIDADO DE HONRA FIL GUADALAJARA 2018

Em 2013, quando foi o país convidado da Feira Internacional do Livro de Bogotá (FILBo), Portugal dispôs de um pavilhão com três mil metros quadrados que incluía uma livraria com 20 mil exemplares à venda, em português e em castelhano, num total de 3200 títulos (2400 em língua portuguesa). 

Desta vez, o pavilhão de Portugal na Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara, onde é país-tema, tem 1200 metros quadrados e uma livraria igualmente mais acanhada, onde estão à venda menos livros, 13 mil, também nas duas línguas (dez mil deles em espanhol, num total de 600 títulos diferentes). É gerida pelo Fondo de Cultura Económica e tem como parceiro para toda a logística de envio a Livraria Ferin, que já o havia assumido em Bogotá também. 

Quando a livraria está cheia de gente, gera-se confusão na fila para o pagamento, dada a falta de espaço para se circular. O pavilhão português tem outras zonas que parecem subaproveitadas, embora sirvam de local de passagem. De resto, e segundo a Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas? (DGLAB), foi por questões de segurança que a livraria teve de ser mais pequena. “Como o espaço cedido a Portugal é um espaço que é preciso atravessar para ir para os outros pavilhões, fomos obrigados a deixar uma margem grande para as pessoas poderem estar a conversar e apertou-se um pouco a livraria”, explica José Manuel Cortês, subdirector da DGLAB. 

“Em dias de ponta aqui, podem chegar a passar, em média, por hora, cerca de 20 mil pessoas. Se se condiciona a passagem pode haver problemas de segurança”, continua Cortês, sublinhando que a livraria do pavilhão português é “aquilo que foi possível dentro da conjuntura e das regras que a FIL estabelece". "E sem querer criar polémicas", acrescenta, "é muito melhor, por exemplo, do que o espaço de livraria que Madrid teve no ano passado”, quando foi a cidade convidada da feira. O responsável da DGLAB prefere apontar para as vendas: “No sábado e no domingo, o pavilhão esteve permanentemente cheio e fizeram-se muitas vendas. Segunda, terça e quarta-feira, como a feira só abre às 16h para o público, há uma quebra." 

Todas as manhãs, o Fondo de Cultura Económica, que também tem um stand próprio na feira, reforça com alguns exemplares títulos que se foram esgotando. Dos autores consagrados que estão presentes na feira existem mais exemplares, como seria de esperar. O esforço da DGLAB foi conseguir que o Fondo apostasse na diversidade e tivesse expostos livros de poesia, de literatura infantil, e de culinária, guias de viagem e de vinhos, ensaios históricos, e não só os best-sellers. “Há aqui todas as áreas em português e em espanhol. É evidente, que em espanhol, sobretudo em certas áreas, há menos exemplares porque também há menos títulos. Um dos nossos problemas é que os títulos que são traduzidos são fundamentalmente os literários: poesia, literatura para a infância e a juventude de autores ou de ilustradores portugueses... É um jogo que tem de se fazer, mas é natural e inevitável que as montanhas de livros que aqui estejam sejam de Pessoa, Saramago, Eça, Lobo Antunes."  

Um programa especial

Mas se diminuiu o número de livros à venda na livraria em relação a Bogotá, aumentou o número de edições latino-americanas de autores de língua portuguesa que beneficiaram de apoios à tradução e estão agora a ser lançadas na FIL. São 47, a que se juntam outras como as publicadas pelas editoras Vaso Roto ou Puro Pássaro, que não se candidataram a nenhum apoio e ainda assim estão a lançar novos livros em Guadalajara, de Valter Hugo Mãe, João Luís Barreto Guimarães e Maria do Rosário Pedreira, por exemplo.

Além do seu programa habitual de Apoio à Tradução, a DGLAB lançou um apoio extra para a feira, o programa especial de apoio à Tradução e Edição “Portugal-Guadalajara 2018”. Por sugestão da própria FIL, o programa abriu-se a editoras de todo o espaço latino-americano, e não apenas às mexicanas. Em Bogotá, o apoio só estava disponível para a Colômbia e permitiu a tradução de 35 obras, um volume sem precedentes. Desde então as editoras colombianas têm vindo a publicar livros portugueses. Muitas candidataram-se também agora.

O programa especial para esta feira apoiou 47 obras, publicadas por 26 editoras repartidas por Argentina, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Venezuela. 

O montante total do apoio ascendeu a 113.869 euros (52.019 mil euros da DGLAB para tradução e ilustração, mais 61.850 euros do Instituto Camões para apoio à edição). Ambas as entidades estavam preparadas para dar mais apoio, pois o contingente inicial de candidaturas validadas chegava às 61. Entretanto houve desistências de editoras que, por variadas razões, não conseguiram reunir as condições para concretizar a edição. 

São obras diversas, de José Eduardo Agualusa, João Tordo, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Sophia, Eugénio de Andrade, Ricardo Araújo Pereira, Afonso Cruz, Lídia Jorge, Eduardo Lourenço, Adília Lopes, Pepetela, Gonçalo M. Tavares, Tiago Rebelo, Paulina Chiziane, José Luís Peixoto, Ruy Belo, Ana Teresa Pereira, Nuno Júdice, Gastão Cruz. António Jorge Gonçalves, Manuel Alegre, entre outros

Também o programa habitual de Apoio à Tradução da DGLAB para editoras estrangeiras contemplou este ano editoras latino-americanas e espanholas, cujas traduções estão na FIL. São oito obras, de autores como Francisco de Holanda, Susana Moreira Marques, Mia Couto, Fernando Pessoa, Rui Cóias, e ainda duas antologias publicadas pela editora mexicana Eternos Malabares: Poetas Mulheres – Vozes de Portugal e do México Poesia de agora – Poetas de Portugal e do México. E ainda recebeu apoio a revista literária Luvina, da Universidade de Guadalajara. O habitual apoio à ilustração e à BD portuguesas contemplou quatro livros para editoras da Argentina, do México e de Espanha. 

Muitos destes livros foram impressos pelas editoras à última hora, especialmente para esta que é a maior feira do livro do espaço hispânico, onde estão à venda. Só mais tarde serão distribuídos pelas livrarias mexicanas. 

O PÚBLICO viajou a convite do comissariado para a participação portuguesa na FIL Guadalajara 2018