“Marcelo apontou-nos uma bandeira, agora é preciso agitá-la de forma musculada”

Felisbela Lopes, investigadora na área dos media, defende que a classe política tem de olhar para a questão com atenção e que deve iniciar um debate, no qual deve estar assegurado o “pluralismo” para combater “o perigo de manipulação”.

Foto
Paulo Pimenta

O Presidente da República questionou nesta terça-feira se o Estado não tem o dever de intervir face à crise da comunicação social. Para Marcelo Rebelo de Sousa, há uma "situação de emergência" que já constitui um problema democrático e de regime. 

Felisbela Lopes, investigadora da Universidade do Minho na área dos media, diz que a classe política pode ajudar os meios de comunicação social — através dos impostos e da educação, por exemplo.

Que leitura faz do desafio lançado por Marcelo Rebelo de Sousa?
Concordo com este desafio da Presidência da República. É um desafio que, aliás, se impõe há já algum tempo. Em 2015, escrevi um livro que se chama Jornalista, Profissão Ameaçada. Foi feito com 100 jornalistas de perfil muito diferenciado. Perguntei-lhes, na altura, quais eram os maiores constrangimentos que sentiam e 42% responderam que eram os constrangimentos económicos.

E que se traduziam em quê? 
Em salários cada vez mais precários e díspares; em falta de recursos humanos; em fazer mais com menos; em redacções cada vez mais decapitadas; em falta de recursos tecnológicos; em fazer duas ou três peças num dia e ser impensável fazer um trabalho durante dois ou três dias. O jornalista não tem tempo, por exemplo, para confrontar diversas fontes. Isto tem uma tradução gravíssima na qualidade do jornalismo, na vitalidade da democracia e no dinamismo do espaço público por onde todos circulamos.

Como resolver o problema?
Se é isto que está em jogo, obviamente que a classe política tem de olhar para a questão com atenção. Não pode passar ao lado deste debate, que tem de ser feito com alguma urgência. Temos uma crise enorme de tiragens, uma desbaratada reutilização de conteúdos digitais e a informação televisiva a deslizar para o entretimento em busca de audiências.

Mas quais os perigos de se chamar a classe política para resolver o problema?
Uma manipulação dos jornalistas pela classe política. O que significa que, para que tal não aconteça, a classe política não pode fazer este debate sozinha. Tem de ser protagonizado por quem estrutura o campo do jornalismo, e isso é um grupo mais vasto do que os jornalistas. Os grupos empresariais, que dão solidez aos projectos, também têm de ser ouvidos. Assim como a academia, as entidades reguladoras e associativas. Ouvir o Sindicato dos Jornalistas, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, há alguns interlocutores que devem fazer parte deste debate. Com grupos que assegurem este pluralismo já se esbate o perigo de manipulação. E esbate-se também quando a acção for uma acção generalizada para o campo do jornalismo. Não apenas para jornais, rádios, televisões ou projectos digitais em particular. Tem de incluir todos de igual forma.

Mas que medidas concretas poderiam ajudar a resolver a crise?
Era preciso pensar bem nas tiragens. Por exemplo: as escolas compram jornais? E as instituições públicas? Podiam assinar os jornais ou o acesso ao online. Também deve haver uma preocupação com a regulamentação dos conteúdos digitais replicados gratuitamente. E assumir, no plano político, benefícios fiscais de forma alargada. As empresas jornalísticas estão numa crise profunda. Devemos olhar para o campo fiscal, as empresas não precisam de migalhas, mas de uma reforma profunda a nível fiscal. Por fim, é preciso fazer um debate sobre importância da informação. Não vejo os jovens a valorizarem a informação jornalística.

Mais uma vez, a escola devia ter um papel?
Devia. É preciso falar da importância da informação jornalística. Não estamos, por exemplo, verdadeiramente importados com as fake news. E este alerta do Presidente não se vai traduzir em nada se não houver acções concretas. É urgente este debate. Os políticos têm de iniciá-lo, mas não o podem fazer sozinhos. Tem de ser participado e dirigido a todos os órgãos. A todos. Há ainda um grupo que também merece uma atenção particular: os media regionais. Com as dificuldades por que passam, alguns estão a converter os projectos em projectos ao serviço das autarquias, o que é perigoso, converte jornais numa espécie de newsletters das autarquias e passa para os cidadãos a ideia de que o jornalismo é propaganda. Conclusão: Marcelo apontou-nos uma bandeira, agora é preciso agitá-la de forma musculada.