Um pai, um país

Apesar de uma certa retórica, inclusive visual, que se instala, trata-se de uma proposta de cinema indubitavelmente simpática.

Djon África, uma aproximação à diáspora cabo-verdeana
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Djon África é uma aproximação à diáspora cabo-verdiana (tema frequente no cinema português dos últimos anos) que se segue, com relativas liberdade e desenvoltura, algumas premissas herdeiras da melhor tradição do cinema documental de raiz antropológica ou etnográfica (um pouco de Rouch) e das agoras chamadas “ficções do real”, quer dizer, elaborações profundamente ancoradas em personagens e situações reais mas com uma “dobra” ficcional que acaba por funcionar, acima de tudo, como elemento estruturante. Impossível saber, portanto, quão “real” é a história de Miguel Moreira, dito “Djon África”, jovem de origem cabo-verdiana nado e criado nos arrabaldes de Lisboa (e já “protagonista” de um anterior filme da dupla de cineastas), que Filipa Reis e João Miller Guerra seguem na sua primeira visita ao arquipélago africano, em busca do pai que nunca conheceu. Impossível ou, apenas, irrelevante: o fundo dramatúrgico é apenas uma forma de pôr as coisas a mexer, e de ficar com algo que exala autenticidade por todos os poros, o contacto de um rapaz com a terra dos seus antepassados, num misto de reconhecimento e estranheza sempre um tanto difusos.

O próprio filme se encarregará de desvalorizar a importância do fundo narrativo, e do encontro com aquele pai mais ou menos “mítico”, tornando evidente que, do ponto de vista simbólico, não há diferença nenhuma entre essa figura paterna e o país, Cabo Verde. O que conta, portanto, é a viagem. E assim, apesar de ser um filme “escrito” (num argumento em que trabalhou Pedro Pinho, realizador de Fábrica de Nada), descobrimos que Djon África vibra mais plenamente quando tudo parece espontâneo, quando os encontros parecem evoluir livremente a partir de um improviso autêntico, quando os diálogos parecem dar-se sem preocupação de “substância”, quando ficamos ali, entre o sol e a boémia nocturna (sempre com muito grogue, mesmo ao sol), perante um jovem desenraizado que encontra, de forma às vezes embrulhada numa névoa onírica, a materialização palpável de uma possibilidade de “raiz”. Mesmos com os seus limites e desequilíbrios (que têm a ver com o tom menor em que se coloca deliberadamente, mas também com uma certa retórica, inclusive visual, que por vezes se instala), trata-se de uma proposta de cinema indubitavelmente simpática.

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