A “vida privada” do touro bravo antes dos “20 minutos de fama”

Como são criados os touros bravos até chegarem a uma praça de touros? Que raça é esta e o que pensam os seus criadores? O PÚBLICO esteve numa das maiores e mais prestigiadas ganadarias à procura de respostas.

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Nuno Ferreira Monteiro

Chamam-lhe o “templo do touro bravo”. Na Herdade da Galeana, uma ganadaria portuguesa cria touros de lide desde 1944. Ou seja, uma raça única para ser toureada a pé ou a cavalo nas praças de Portugal, Espanha e França. Mas do que falamos quando falamos de touros bravos? De todo um mundo, com um léxico muito próprio, de um apurado trabalho diário e algo que vai muito além do momento em que o animal sobe à praça para os seus “20 minutos de fama”. Para trás ficam quatro anos de trabalho a que chamam a “vida privada”, ou “vida no campo” do animal, cujo desconhecimento, dizem os aficionados, são uma das razões para os “animalistas” criticarem e quererem acabar com as touradas.

Os cerca de mil hectares da Ganadaria Murteira Grave, no distrito de Évora, concelho de Mourão, pegam com terras da Estremadura espanhola. Pelos pastos “pintados” de verde no imenso montado de azinho da Galeana espalham-se cerca de 700 bovinos. A maioria são touros bravos, ou touros de lide. Bestas impressionantes que podem chegar a pesar mais de 550 quilos.

João Santos, um engenheiro zootécnico de 45 anos, que há 13 trabalha com estes animais na ganadaria alentejana, guia os jornalistas pelo meio dos touros. Literalmente pelo meio deles, conduzindo uma carrinha de trabalho agrícola que serpenteia entre os animais. João fala com entusiasmo dos touros, do trabalho na herdade, como tudo é feito ainda antes dos animais nascerem até aos quatro anos em que estão prontos para serem lidados em praça.

Explica os significados dos movimentos dos touros, quem são os líderes, a diferença entre eles, ao mesmo tempo que acalma os visitantes, algo nervosos pela proximidade àquelas selvagens bestas. “São impressionantes, não são? Mas não receiem, eles estão habituados a ver a carrinha entre eles, pois é esta carrinha que, quando é necessário, lhes vem dar de comer ou os vem tratar. Não que não tenha já havido alguns azares, mas não vai acontecer”, garante.

Todos bravos, todos diferentes

Primeiro mostra o cercado onde está o lote de vacas que pariram em Agosto, ainda na companhia das suas crias e dos semental (machos reprodutores). Na ganadaria existem cerca de 200 vacas mãe, que por ano parem cerca de 160 animais, habitualmente metade fêmeas e outra metade machos. Os machos na herdade rondam os 170. Os restantes bovinos existentes estão todos ligados às outras actividades de criação. Dos animais nascidos no ano, cerca de 40 a 50 terão como destino a lide em praça. Os outros ficaram ao serviço da ganadaria ou são abatidos e a sua carne vendida.

A segunda paragem é junto aos machos de um ano, que deverão ser lidados em 2022 e, por fim, chega-se aos touros que irão para as praças no próximo ano taurino, que vai de Fevereiro a Outubro de 2019. Também estes espalhados por espaços diferentes, porque, sendo todos touros bravos, têm características diferentes, quer pela sua bravia, quer pela chamada “cara do touro”, ou seja a grossura, o comprimento e orientação dos cornos. Um touro com os cornos ligeiramente levantados (tocado) ou com os cornos dirigidos para cima (veleto) tem mais “valor” que um animal com os cornos direccionados para o solo (caído ou capacho).

É a apreciação destas características que vai decidir se o toiro vai para uma praça de primeira (as melhores como o Campo Pequeno, em Lisboa, ou em Espanha), de segunda, terceira ou para festas taurinas populares mais pequenas.

“As pessoas que não gostam de toiradas, os antitoiradas, dizem que maltratamos os animais porque desconhecem esta realidade da sua criação. Não há em Portugal animal mais bem tratado que este. Enquanto um animal de talho vive um, dois anos confinado num pequeno espaço, alimentado a farinha até ir para o matadouro, este vive em liberdade toda a sua vida num ecossistema puro, convivendo com outras espécies numa reserva ecológica que é preservada para a sua criação”, diz João Santos.

Mas o processo de criação de touros bravos começa ainda antes de o animal nascer, numa das mais importantes faenas camperas (tarefas executadas nas ganadarias) realizadas, a Tenta. Uma operação em que as fêmeas com cerca de 2 anos de idade são testadas e lidadas de muleta por um matador de touros ou novilheiro, em que são avaliados os seus movimentos e bravura. Desta forma, o ganadeiro procurará identificar se as reses possuem as características comportamentais que procura para a sua ganadaria. As vacas aprovadas mantêm-se na ganadaria, onde viverão o resto da sua vida (cerca de 20 anos). Depois é escolhido o semental e daí nascerá o futuro touro.

E se um dia acabarem as touradas, o que acontecerá a estes animais que são criados exclusivamente para serem lidados? “Esse dia nunca vai chegar, mas se acontecer a raça acaba porque só serve para ser lidado. Passaria a ser um animal de jardim zoológico”, afirma João Santos.

A “paixão” de Grave, o ganadeiro

Joaquim Sá Grave é, desde 2002, ganadeiro e proprietário da Geleana continuando um trabalho que começou pelo seu avô, cresceu com o seu pai e que é hoje uma das mais prestigiadas ganadarias ibéricas. “Uma paixão”, assegura este veterinário especialista em criação animal. Fala da herdade e dos touros bravos, das suas tradições ancestrais, da sua criação com uma visível alegria e abastado conhecimento.

Fala também de forma aberta sobre o negócio da criação de touros, embora diga que é feito “mais com o coração e por tradição, que com a razão”, explicando que uma herdade como a sua poderia ser muito mais rentável se tivesse outro tipo de exploração. Criar um animal como este custa, explica Grave, cerca de 2500 euros. Já a sua venda para praça - ou melhor “o aluguer da bravura ao empresário que organiza o espectáculo” - vale em média 2000 euros e mais 500 pela carne para consumo depois de abatido. Embora este valor possa subir bastante se for vendido para França ou uma grande praça espanhola. O prestígio da ganadaria também contribui para o preço. “Portugal é onde se paga menos. Isto é mais uma questão de coração”, repete João Grave, sorrindo e levando a mão ao peito junto ao coração.

Até que a conversa chega à polémica entre os defensores das touradas e os que são contra e querem o seu fim, que para Grave “são uns ignorantes que se calhar nunca viram um toiro bravo, nem sabem o que é”. Confrontado com as críticas de que os amantes das toiradas são “uns bárbaros” que “têm prazer sádico em torturar os animais”, o ganadeiro de 66 anos tem a resposta pronta sem nunca perder a serenidade: “Quando nos chamam torturadores estão a ofender todas as pessoas que foram e são torturadas pelo mundo. Não há animais mais bem tratados que estes e são criados especialmente para serem lidados.”

“Os sábios do asfalto”

Quanto ao sofrimento do animal em praça, Grave avança com um argumento que diz “estar profundamente fundamentado em vários estudos científicos sobre o toiro bravo” que é repetido vezes sem conta pelos defensores das touradas. O de que o animal tem um hipotálamo (parte do cérebro que sintetiza as neuro-hormonas encarregues, nomeadamente, da regulação das funções de stress ou de defesa), “20% superior ao de todos os outros bovinos, e que, por isso, tem uma capacidade superior de segregação de beta-endorfinas”, uma hormona e anestesiante natural encarregada de bloquear os receptores da dor. “Um animal quando é agredido, nomeadamente quando é espetado, foge. O toiro bravo não, volta a investir. A essência única deste animal é lutar, é um animal de combate”.

“Os sábios do asfalto falam lá do seu sétimo andar da cidade onde vive enjaulado o seu cão sem saber do que falam. Já perguntaram ao seu cãozinho se quer ir à rua fazer as necessidades à hora que o dono pode e não quando necessita, amarrado por uma trela, se gosta? Já perguntaram ao seu cãozinho se gosta de ser capado por egoísmo do dono? Não é isto torturar os animais? Os meus cães vivem ar livre e têm todo o nosso afecto. E não são capados”, afirma.

Quanto ao envolvimento político na polémica, critica as palavras da ministra da Cultura, Graça Fonseca, que, “na primeira vez em que pegou no microfone, manifestou vontade de acabar com uma actividade cultural que está profundamente enraizada na sociedade portuguesa”. E ironiza: “Por outro lado, até foi bom para as touradas [a ministra] ter dito o que disse, porque os defensores das touradas voltaram a ter voz, porque só falavam os que eram contra. Por outro lado, fez com que saíssem do armário uma série de aficionados que andavam calados há muito tempo.”

Questionado sobre se as touradas algum dia vão acabar em Portugal, independentemente de ser por decreto ou por “morte natural” ao longo do tempo, responde de pronto: “Nunca. As touradas estão na história e nas raízes dos portugueses. Estão no seu coração e cada vez há mais pessoas, muitos jovens, a gostarem deles.”