Opinião

Rússia e Portugal: uma cooperação em prol do desenvolvimento construtivo

Com a nossa experiência e resistindo à conjuntura política do momento, vamos continuar a promover uma agenda bilateral voltada para o futuro.

Na véspera da visita a Portugal, queria partilhar com os leitores do PÚBLICO — um dos jornais mais populares do vosso país — as minhas reflexões sobre as relações entre os nossos Estados e a situação na Europa em geral.

Lisboa é um nosso bom parceiro internacional. O alicerce dos laços russo-portugueses é formado pelo Tratado de Amizade e Cooperação de 22 de Julho de 1994. Graças aos esforços conjuntos foi possível alcançar resultados palpáveis. Tem--se promovido o diálogo político, inclusive ao nível mais alto. A 20 de Junho realizaram--se em Moscovo as conversações entre os presidentes Vladimir Putin e Marcelo Rebelo de Sousa. Contactos ao nível dos ministérios dos Negócios Estrangeiros têm tido um carácter regular. A concretização na prática do memorando interministerial sobre a realização de consultas, assinado no quadro da minha reunião com o colega português, Augusto Santos Silva, contribuirá para o ainda maior estreitamento deste diálogo.

O comércio bilateral mostra uma dinâmica positiva que no final deste ano pode ultrapassar 1,5 mil milhões de dólares. A Comissão Intergovernamental Mista sobre a Cooperação Económica e Técnica faz uma contribuição proveitosa neste sentido. No decorrer da 7.ª sessão da comissão, que terá lugar em Lisboa daqui a duas semanas, será prestada uma atenção especial à área de altas tecnologias, bem como à realização do Acordo Intergovernamental sobre a Cooperação Económica e Técnica, assinado no ano passado.

Na Web Summit que há pouco terminou em Lisboa, a Rússia foi representada por mais de 200 empresas e start-ups. À margem desta conferência foi organizado o primeiro fórum empresarial russo-português Novas Oportunidades e Desafios na Esfera de Inovações. Estou convencido de que encontros deste género devem ser realizados regularmente.

Tem-se aprofundado o intercâmbio cultural e humanitário, contactos entre pessoas. Desde Dezembro de 2017 até Fevereiro de 2018 esteve instalada nos Museus do Kremlin de Moscovo a exposição inédita Senhores do Oceano. Tesouros do Império Português dos Séculos XVI-XVIII, considerada a mais representativa a ser organizada fora do território do vosso país. Em Outubro de 2018 realizou-se, com sucesso, a Semana da Cultura Russa em Portugal.

Saudamos o interesse dos portugueses no ensino da língua russa. Pode ser estudada nas universidades de Lisboa, Porto e Aveiro. Continua a ser demandada a actividade dos centros dos estudos russos nas universidades de Coimbra e Minho. A língua de Camões, por sua vez, está a ser ensinada nas universidades e escolas de Linguística da Rússia, inclusive a minha alma mater — Universidade Estatal das Relações Internacionais de Moscovo.

Hoje há cada vez mais turistas russos a descobrir Portugal, a conhecer o seu património histórico-cultural rico e peculiar. E é o amor pelo futebol que contribui para o aumento da simpatia entre os dois povos. Neste Verão, numerosos adeptos portugueses visitaram o nosso país no quadro do campeonato mundial FIFA 2018. Eles tiveram a oportunidade de ver com os seus próprios olhos a vida quotidiana da Rússia e dos seus cidadãos. Creio que perceberam quão a situação real se diferencia do que se pode ler, às vezes, em certos meios de comunicação preconcebidos.

Infelizmente, a situação mórbida no nosso continente comum representa ainda um obstáculo significativo para o fortalecimento ulterior da cooperação russo-portuguesa. A crise na Ucrânia — tendo sido o resultado de jogos geopolíticos dos EUA e dos seus adeptos ideológicos em alguns países, tal como da cegueira da burocracia da União Europeia — derrubou a atmosfera de confiança, na construção da qual estiveram empenhados, durante muitos anos, líderes responsáveis da Rússia e dos Estados-chave da Europa.

Foi com extrema preocupação que Moscovo tomou nota do facto de Bruxelas não só ter renunciado aos seus princípios e valores, fechando os olhos perante o golpe armado em Kiev que resultou no derrube do Presidente democraticamente eleito, mas também ter seguido as instruções de Washington, aderindo às sanções anti-russas. O que temos hoje? A arquitectura do diálogo Rússia-UE está prejudicada significativamente, os produtores europeus estão a ter perdas de muitos mil milhões, o regime de Kiev está em guerra contra o próprio povo, um novo conflito surgiu na Europa.

Ao mesmo tempo, os EUA não estão a ter nenhumas perdas. Ainda mais, têm aproveitado esta situação para incentivar a actividade militar perigosa perto das fronteiras russas, intensificando a corrida armamentista na nossa vizinhança, onde, como todos nós esperávamos, não há espaço para uma nova Guerra Fria. A segurança das nações europeias torna-se refém da política subversiva conduzida do outro lado do Atlântico.

A tensão entre a Rússia e o Ocidente nos últimos anos, que custa caro à estabilidade internacional, não é a nossa escolha. Como sempre, manifestamo-nos a favor da construção na região euro-atlântica e na eurásia do espaço comum da paz, da segurança igual e indivisível e da ampla cooperação económica, em que seriam considerados os interesses de todos os Estados, quer participantes de vários processos de integração, quer não, sem qualquer excepção.

Devido a isto, não pode deixar de agradar o facto de ter aumentado na Europa o número de pessoas que se dão conta de que o rumo de confrontação contra o nosso país não tem perspectivas. Há quem aspire a realizar uma política pragmática e não queira sacrificar o bem-estar dos seus cidadãos e o futuro pacífico do lar europeu em prol dos interesses e ambições cobiçosas dos actores extra-regionais. Esperamos que a sabedoria e, simplesmente, o bom senso prevaleçam e as nossas relações com a União Europeia e os seus Estados-membros sejam restabelecidas na base da boa vizinhança genuína, da honestidade, previsibilidade e franqueza.

A Rússia e Portugal estão a aproximar--se de um limiar importante: no próximo ano celebraremos o 240.º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas. Temos de preparar e realizar um conjunto de iniciativas para comemorar esta data notável. No idioma russo há um provérbio que literalmente pode ser traduzido como “A água não flui sob a pedra deitada”. Pelo que eu sei, em português corresponde “À raposa dormente não lhe cai galinha no ventre”.

Baseando-nos na nossa experiência e resistindo à conjuntura política do momento, espero eu, vamos continuar a promover uma agenda bilateral voltada para o futuro, a empenhar-nos na amplificação e diversificação de laços, na criação de premissas favoráveis para a realização de iniciativas promissoras e mutuamente benéficas em várias áreas para o bem dos nossos povos.