Pneumonia mata mais em Portugal, doentes chegam tarde aos hospitais

De acordo com o relatório Health at a Glace 2018, da OCDE, em 2015 morreram 57,7 pessoas por 100 mil habitantes. Membro do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias diz que doentes com estados avançados de pneumonia chegam tarde aos hospitais

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Rui Gaudencio

Portugal registou a taxa de mortalidade por pneumonia mais elevada em 2015, entre os países da União Europeia: 57,7 pessoas mortes por cem mil habitantes, de acordo com o relatório Health at a Glance 2018, divulgado ontem pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Em Portugal, os casos de pneumonia chegam tarde aos hospitais e isso ajuda a explicar a mortalidade elevada, refere o médico pneumologista António Carvalheira Santos.

De acordo com o relatório elaborado pela OCDE, a pneumonia foi responsável pela morte de 140 mil pessoas na União Europeia em 2015, tendo um peso de 30% na mortalidade por doenças respiratórias. “Portugal, Eslováquia e Reino Unido têm as taxas mais altas de mortalidade por pneumonia, enquanto a Finlândia, a Grécia e a Áustria têm as mais baixas. Os principais factores de risco para a existência de pneumonia são a idade, o consumo de tabaco e álcool, ter DPOC [doença pulmonar obstrutiva crónica] ou estar infectado com o VIH”, afirma o relatório.

Segundo os dados, em 2015 Portugal registou 57,7 pessoas em cada cem mil habitantes. O valor mais alto de todos os países analisados. A média da União Europeia foi de 28,1 mortes por cem mil habitantes.

Carvalheira Santos, membro do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR), não se mostra surpreendido com os resultados. “Desde 2012 que falamos deste problema. Nos últimos dois anos também a Sociedade Portuguesa de Pneumologia tem alertado para a questão.”

O médico está a trabalhar no próximo relatório do Observatório — com dados nacionais referentes a 2016 — e o cenário não aparenta ser melhor. “A taxa de mortalidade em internamento é superior a 20%. Da mortalidade global, 90% são idosos (pessoas com 65 ou mais anos)”, diz o especialista, salientando o impacto da pneumonia na faixa etária entre os 40 e os 65 anos. “Nesta faixa etária registaram-se cerca de cinco mil internamentos, com uma taxa de mortalidade de 9% numa doença que devia ser tratável.”

O que faz que Portugal se destaque pela negativa? “Não temos mais frio do que outros países, não fumamos mais — temos uma taxa de tabagismo inferior à média da OCDE —, portanto só pode ser uma coisa que foi avaliada num estudo feito pela Universidade do Minho em parceria com o Observatório: o atraso na ida ao tratamento”, aponta Carvalheira Santos.

“Os idosos muitas vezes não têm sintomas respiratórios muito marcados. A pneumonia provoca-lhes alterações mais gerais como perda de apetite ou alterações do estado de consciência. Quando vão ao médico, já é tarde”, diz, acrescentando que a taxa de mortalidade por pneumonia nos meses de Verão foi superior à dos meses de Inverno, o que associa à desvalorização dos sintomas.

Na opinião deste especialista existe ainda uma outra questão importante: o acesso aos cuidados de saúde. De acordo com dados do Portal do SNS deste mês, ainda há 703 mil utentes sem médico de família. E o acesso a uma consulta da especialidade de pneumologia tem de ser pedida pelos centros de saúde e nem sempre a resposta é rápida. “Marca uma consulta para quando?”, questiona Carvalheira Santos. “O estudo da Universidade do Minho dizia que a principal causa de mortalidade era a mortalidade precoce. Isso significa que quando chegou [ao hospital] o estado da doença era avançado.”

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Prevenir com a vacinação

Diz o Health at a Glance 2018 que “muitas das doenças respiratórias podem ser prevenidas com a redução de factores de risco, nomeadamente consumo de tabaco e aumento da vacinação para a gripe e para a pneumonia. Sobretudo entre os mais idosos e outros grupos vulneráveis”.

A aposta na vacinação contra a pneumonia é também uma das batalhas do ONDR. A vacina que previne a pneumonia pela bactéria Pneumococo (a pneumonia mais comum entre os adultos) viu a comparticipação dada pelo Estado revista no início deste ano, passando de 15% para 37%. Assim, a dose custa aos utentes 37 euros. Só as crianças e os adultos com doenças de alto risco, como VIH, cancro do pulmão e algumas doenças pulmonares obstrutivas, têm acesso gratuito à vacina através do Programa Nacional de Vacinação (PNV).

“Estando identificado onde existe o problema, que é nos 65 e mais anos, a saúde, se fosse preventiva, fazia uma campanha importante para que todos os idosos e grupos de risco fossem vacinados. Na minha opinião, a vacina deve fazer parte do PNV para todos os idosos”, disse.

Segundo o relatório da OCDE, as doenças respiratórias são a terceira causa de morte na Europa. Em 2015 foram responsáveis pela morte de mais de 440 mil pessoas, um acréscimo de 15% em relação ao ano anterior.