Em Portugal “não há listagens” de obras de arte a devolver às antigas colónias

O investigador António Pinto Ribeiro acredita que a criação destas listagens deve ser uma "tarefa prioritária" dos próximos governos.

António Pinto Ribeiro
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António Pinto Ribeiro Fábio Augusto/ARQUIVO

O investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra António Pinto Ribeiro afirmou esta quinta-feira, em Paris, que em Portugal há um "problema gravíssimo" de não haver listagens das obras de arte que podem ser reclamadas pelas antigas colónias.

"Em Portugal, temos um problema gravíssimo: não há listagens [de peças de arte vindas das antigas colónias] nem em relação aos museus, nem aos arquivos. Muitos destes objectos estão nas reservas, nem sequer estão expostos. Podem ser 10 mil, 50 mil ou 80 mil. Os próprios directores dos museus não sabem", afirmou o ex-curador da Fundação Gulbenkian, em declarações à agência Lusa, defendendo que esta deverá ser "uma tarefa prioritária" dos próximos governos.

O investigador, ex-curador da Culturgest, esteve na quinta-feira na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, onde falou sobre a problemática da descolonização dos museus, coincidindo com o dia em que foram parcialmente conhecidas as conclusões do relatório, pedido pelo Presidente de França, Emmanuel Macron, sobre a restituição de colecções de arte africana existentes em França.

O relatório, pedido à historiadora de arte francesa Bénédicte Savoy, do Collège de France, e ao economista senegalês Felwine Sarr, autor do livro "Afrotopia", defende a devolução generalizada tanto das obras trazidas, como as provenientes de missões científicas ou doações das administrações coloniais, adiantou o jornal Le Figaro. Para António Pinto Ribeiro, a devolução das peças é urgente, mas deve ser feita de forma ordenada.

Oposição ao Museu das Descobertas português

"As peças devem ser reclamadas pelos Estados, não pessoas particulares. Há que ver os critérios da legitimidade de como as obras chegaram à Europa. É preciso analisar se uma determinada peça faz parte do património essencial de um país ou de uma tribo. E há ainda a questão dos arquivos coloniais. Devem ser dados os originais ou cópias digitalizadas?", questionou o investigador português.

Pinto Ribeiro explicou por que considera que "ou os museus são pós-colonialistas ou não existem", mostrando o que entende serem bons e maus exemplos, das práticas de como os museus em todo o mundo lidam com o seu passado colonial.

O museu etnológico francês Quai Branly, conhecido pela sua grande colecção de peças provenientes de África, Ásia e Américas, foi considerado pelo português como "anestesiante" e representante da relação da França com "um certo colonialismo".

Já o novo Museu Africano, que abrirá portas em Bruxelas no dia 9 de Dezembro, foi apontado como um "bom exemplo", pois "contará a sua história como museu colonial". Este museu belga foi anteriormente conhecido como o Museu Real do Congo e a nova exposição vai contextualizar os seus objectos.

Questionado sobre a intenção do presidente da Câmara de Lisboa de pretender criar um Museu das Descobertas, António Pinto Ribeiro considerou esta pretensão de Fernando Medina como "um lapso". "Eu sou um dos grandes opositores a esse museu, que nasceu de um lapso e que não se vai fazer. Não há dinheiro, não há peças e, o mais importante para mim, é preciso demonstrar que houve, efectivamente, objectos das Descobertas. É preciso saber o que resta do outro lado", disse o académico.

Esta conferência na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris faz parte do ciclo "Atlas des mots et des images des dé-colonisations", coordenado por Maria Benedita Basto e Teresa Castro.