A Liga das Nações passou no exame com distinção

Balanço feito por jogadores e seleccionadores é claramente positivo. Média de espectadores na Liga A muito próxima das registadas nos últimos Mundial e Europeu.

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LUSA/ENNIO LEANZA

A extraordinária reviravolta operada pela Suíça diante da Bélgica; a recuperação frente à Croácia que permitiu a Inglaterra passar, num período de sete minutos, da descida de divisão para a vitória no grupo; ou o golo de Van Dijk que, aos 90+1', abateu a Alemanha e catapultou a Holanda para o play-off. Três exemplos recentes de jogos surpreendentes no futebol europeu e de incerteza no resultado até ao apito final. Três argumentos que ajudam a ultrapassar as reservas que existiam em torno do real interesse da Liga das Nações e que terão contribuído para que a primeira edição do torneio tenha ficado bem mais próxima do sucesso do que do fracasso. Os números de espectadores, de resto, também estão aí para reforçar esta leitura.

"A diferença entre a atmosfera no estádio às quintas-feiras à noite e o que acontece agora é enorme. O jogo com a Espanha foi fantástico. Creio que, se continuarem a desenvolver este conceito, estaremos na presença de algo interessante. Eu fui muito crítico relativamente a este formato, mas poderá resultar, na verdade". A opinião é de Gary Neville e o antigo lateral da selecção de Inglaterra não estará sozinho no lote daqueles que se deixaram convencer pela competição mais recente do calendário da UEFA.

Na base deste lançamento esteve a necessidade de substituir o conjunto de jogos particulares que preenchiam parte da agenda das selecções e que geravam reduzido interesse, quer da parte do público, quer das cadeias de televisão. A criação de hierarquias na prova (quatro divisões) pode ter gerado alguma confusão inicial entre os adeptos, mas foi sempre vista como uma solução para tornar mais competitivos encontros que não raramente resultavam em goleadas sem história. E o próprio facto de se abrirem mais portas de acesso ao Campeonato da Europa ajudou a estimular os participantes.

"Recebíamos muitas queixas dos grandes países do futebol quando tinha de enfrentar selecções mais modestas, e queixas dessas mesmas selecções porque nunca conseguiam ganhar", diagnosticou o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin. "Agora, todos os jogos são interessantes". Bem, nem todos. Mas a maioria ganhou, efectivamente, uma nova aura, a começar pelo escalão mais baixo da pirâmide, que assistiu à emergência de selecções como Gibraltar e o Kosovo, cujo Governo premiou com 500 mil euros o triunfo no Grupo 3 da Liga D.

À medida que o torneio foi avançando, surgiram também várias respostas a uma declaração corrosiva do actual treinador do Liverpool, Jürgen Klopp, que classificou a Liga das Nações como "a competição mais descabida do mundo do futebol". Tim Sparv, médio da selecção da Finlândia, respondeu assim: "Eu e os mais 3000 adeptos finlandeses que ontem estiveram na Estónia discordamos". O irlandês James McLean, extremo do Stoke City, foi mais longe. "Não quero saber o que ele diz, sinceramente. Estou aqui para representar a Irlanda e isso significa tudo para mim".

O sentimento não é muito diferente entre os seleccionadores, independentemente do objectivo pelo qual competem. "Para as selecções, esta competição é muito importante. É muito diferente jogar particulares ou jogos oficiais. Para avaliar jogadores, é diferente num jogo que vale pontos", salvaguardou Fernando Santos, antes de levar Portugal à vitória no Grupo 3 da Liga A. "Este foi um jogo completo, ao mais alto nível", regozijou-se também Ronald Koeman, depois do triunfo da Holanda sobre a França, por 2-0. Mas no estado de espírito contrário também é possível perceber quão relevante era passar uma boa imagem e cumprir as expectativas dos adeptos: "Para nós, este resultado é obviamente muito doloroso, mas temos de o aceitar", lamentou Joachim Löw, treinador de uma Alemanha que surpreendeu tudo e todos com a descida à Liga B.

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Desilusão também terão sentido os adeptos de Espanha, que depois de um arranque fulgurante (com uma goleada imposta à Croácia e um triunfo em Inglaterra) se viram ultrapassados pelos britânicos no topo do Grupo 4. E foi em Wembley, de resto, que se registaram as maiores assistências da competição (81.392 e 78.221 espectadores). Para um torneio que ainda dá os primeiros passos e que tantas dúvidas suscitou, a presença de público nos estádios também foi encorajadora, com a Liga A (aquela que concentra os jogos de maior cartaz em recintos com maior capacidade) a registar uma média de 44.194 adeptos. Um resultado acima dos 39.269 da última Taça das Confederações e muito perto dos 47.371 do Mundial 2018 e dos 47.790 do Euro 2016.  

Numa competição que selecções como a Geórgia, a Bielorrússia e a Macedónia também aproveitaram para marcar pontos, as equipas mais modestas viram nesta estreia uma oportunidade de crescimento. "O que é que a Liga das Nações nos deu? Acima de tudo, melhorou a nossa autoconfiança e o ambiente junto dos adeptos e da sociedade", resumiu Levan Kobiashvili, presidente da federação georgiana. O homólogo da Ucrânia, Andriy Pavelko, subscreve o argumento, olhando já para o futuro próximo: "A UEFA encontrou a motivação certa para as equipas que, através da Liga das Nações, têm uma hipótese e um incentivo para chegar ao Euro 2020".

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