Daniel Rocha
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Jordan Peterson e o populismo científico

Jordan Peterson é o exemplo maior dessa indústria editorial que transforma cientistas medíocres em estrelas de rock, movendo milhões com livros que são regras de algibeira com títulos absolutos.

A tradição anglo-saxónica de divulgação científica tem tido um papel fundamental no desmantelamento de crenças pseudocientíficas sobre os fenómenos naturais. Neste tempo de factos alternativos, onde o relativismo radical promove a confusão entre a legitimidade de uma opinião e a sua validade, aqueles que dedicam a sua vida à disseminação da ciência, contra resistências corporativas e sociais, merecem o nosso elevado respeito e gratidão.

Acontece que a divulgação de ciência não foi inoculada e deixou-se infectar pelo populismo que se vem propagando nas várias áreas da vida cívica e política. Deixando para trás a filosofia natural clássica, e agarrando-se a leituras vazias de dados estatísticos, parte significativa desta indústria que manufactura cientistas-celebridades resume-se a uma plataforma de dados sem destreza histórica nem filosófica para reflectir sobre o seu significado social. E o problema surge, precisamente, quando um conhecimento de natureza descritiva (ciência) passa a ser usado de forma prescritiva (ética). Ainda que haja inúmeras instâncias em que o conhecimento científico derrube o artificialismo que é a diferença entre o “is” e o “ought” de David Hume, confundir cegamente a naturalidade de um fenómeno (como é) com a sua moralidade (como deve ser) é um erro grosseiro.

Jordan Peterson é o exemplo maior dessa indústria editorial que transforma cientistas medíocres em estrelas de rock, movendo milhões com livros que são regras de algibeira com títulos absolutos, e palestras que enchem pavilhões onde são discutidos dados anedóticos e/ou platitudes confirmatórias de reaccionarismo que, por fim, vê a sua justificação num verniz de aparente intelectualidade.

Peterson construiu a sua fama em cima de banalidades indiscutíveis, alegando uma defesa fervorosa pela racionalidade, mas não sendo capaz de identificar os seus próprios ângulos mortos e as cambalhotas desajeitadas que dá para defender a existência do sobrenatural.

Em relação ao tema que o elevou à ribalta, o género e as identidades trans, Peterson remete-nos para o mantra dos dados científicos sobre as diferenças de género, mas opta por não discutir a diversidade biológica sexual proposta por Joan Roughgarden, ou os limites da neurociência discutidos por cientistas ideologicamente insuspeitos como Paul Bloom, nem tão pouco esses limites aplicados à neurociência do género explorados por Cordelia Fine. Peterson não explora verdadeiramente a complexidade que é o sexo e o género porque isso implicaria um posicionamento cheio de nuances. Implicaria perceber que dizer-se que “o género é socialmente construído” não é o mesmo que negar a contributo da biologia, mas sim a defender-se que as características associadas a cada género (comportamentais, atitudinais, temperamentais, etc), e principalmente a sua exclusividade, são reforçadas socialmente a partir do que é culturalmente consensual sobre o que deve ser um homem e o que deve ser uma mulher.

É por isso que uma exploração cientificamente robusta sobre a complexidade que é o género só é possível com a articulação entre os dados da bioestatística e da psicologia evolutiva, mas também da filosofia, da história e da antropologia cultural.

Mas se há coisa que temos aprendido é que a complexidade é inimiga da popularidade.