Reportagem

Casa onde morreram cinco pessoas em Sabrosa “não tinha condições mínimas”

Autoridades estão a investigar possível intoxicação por monóxido de carbono como causa da morte de três adultos e duas crianças numa aldeia em Sabrosa. Comandante dos bombeiros considera “inacreditável” a falta de condições da casa onde foram encontrados.

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Paulo Pimenta
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As obras na pequena casa na freguesia de Fermentões, em Sabrosa, Vila Real, iam-se fazendo aos fins-de-semana quando a família de quatro voltava à aldeia. Contam os vizinhos que eles tinham selado o telhado havia poucas semanas e esperavam em breve que fosse feita a ligação à energia eléctrica. Enquanto isso, usavam um gerador a gasolina que guardariam dentro de casa. Entre os vizinhos não há dúvida de que foi isso que os matou — ao pai, mãe, duas filhas e um tio, irmão do primeiro. A Polícia Judiciária está a investigar.

Terão perdido a vida algumas horas antes de serem encontrados, já passava das quatro da tarde deste domingo. O irmão mais novo dos dois homens terá estranhado a ausência da família e foi bater-lhes à porta. O alerta chegou aos serviços de emergência às 16h39.

A tese de que se tratou de intoxicação por monóxido de carbono será a principal em cima da mesa. O comandante dos bombeiros de Sabrosa, José Barros, aponta para isso. Apesar de também haver uma salamandra na pequena casa, “não havia indícios de ter sido usada recentemente”. O mesmo não pode dizer quanto ao gerador.

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Vítimas eram pessoas "muito humildes"

Durante a semana o casal — ela com 44 anos, ele dez anos mais velho — cuidava de uma quinta no Douro, onde vivia com as filhas. Estas, de nove e 14 anos, vinham à escola a Sabrosa. Todos ficavam nesta casa ao fim-de-semana.

Estava com eles este domingo o tio, irmão do pai, de 48 anos. Ia fazendo umas obras no concelho e cultivava uns campos, contam os vizinhos. Vivia com o pai, idoso, numa casa a dois passos da que foi palco da tragédia.

A casa da família “não tinha condições mínimas”, diz o comandante dos bombeiros. “É inacreditável. Não tenho palavras para descrever. As divisões são minúsculas, cheias de remendos, de material de construção. Não achava possível alguém viver daquela forma”, afirma José Barros.

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“Eram muito humildes”, concorda Francisco Pereira. “Iam aumentando esta casa como podiam. Ainda há partes em tijolo. Tinham posto o telhado havia pouco”, diz o homem, que mora em Vila Real e aproveita a reforma para fazer as obras na sua casa, ali próxima.

Os materiais de construção ladeiam a casa. Junto ao portão, está o pequeno tractor carregado de baldes de areia que o homem trazia do Douro para alimentar a betoneira colocada à porta de casa. Esta também se ligava ao gerador. Álvaro Guedes viu isso e avisara o vizinho de que “era perigoso” tê-lo dentro de casa. A porta estava sempre aberta, que não se preocupasse, ter-lhe-á dito.

“É um desgosto numa aldeia assim, ir-se uma família toda. Eles eram bons vizinhos. Andavam na vida deles”, diz Álvaro Guedes. A possibilidade de se ter tratado de uma intoxicação alimentar por ingestão de cogumelos venenosos, que também foi levantada pelo comandante dos bombeiros, não o convence: “Eram pessoas da terra, que conheciam bem os cogumelos.”

Mais de cem mortes em seis anos

A PJ recolheu indícios no local e foi-se embora já passava das 20h30. Aos familiares foi disponibilizado apoio psicológico por parte de uma equipa do INEM, da Câmara Municipal de Sabrosa e da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, refere o autarca de Sabrosa, Domingos Carvas.

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Caso se confirme que os óbitos foram provocados por inalação de monóxido de carbono (um gás incolor e inodoro que facilmente pode causar intoxicações fatais), esta estará longe de ser uma tragédia incomum. Quando a temperatura baixa, é habitual a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) emitir avisos à população a lembrar os cuidados a ter, incluindo especial atenção às braseiras e lareiras.

Entre 2005 e 2011, mais de cem pessoas morreram a intoxicação por monóxido de carbono. Dados do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), citados pela Lusa, mostram que 55 aconteceram na região Norte, 12 na zona Centro e 44 no Sul. Dos casos registados no Norte, 39 aconteceram na sequência de acidentes domésticos com lareiras, braseiras e esquentadores.