Opinião

Porto, jornalismo e democracia

Na cidade e fora dela, a tentação autoritária da governação de Rui Moreira torna-se a cada passo mais evidente.

Das últimas eleições autárquicas, há um ano, resultou uma mudança política profunda na governação do Porto. Apesar da subida eleitoral do PS, a maior entre todas as forças concorrentes, a candidatura de Rui Moreira ganhou e, beneficiando com a desagregação eleitoral da direita, conseguiu a maioria absoluta na câmara.

Ao longo do anterior mandato, em coligação com o PS, Rui Moreira construiu uma imagem de edil aberto ao diálogo e magnânimo nas atitudes. Para isso, invocou a sua índole de burguês do Porto, cidade para quem a Liberdade é valor que não se negoceia. Mas, como agora é cada vez mais evidente, essa atitude era profundamente influenciada pela presença do PS na coligação, obrigando à negociação sobre as medidas a tomar e moderando pulsões aristocráticas tão alheias à natureza da Invicta.

Já antes me referi a esta deriva como “compressão da vida democrática”. Verifiquei, infelizmente sem surpresa, que esta preocupação é partilhada por muitos outros. Na cidade e fora dela, a tentação autoritária (e, por isso, provinciana) da governação de Rui Moreira torna-se a cada passo mais evidente.

O episódio mais recente – entre demasiados que têm acontecido – refere-se à utilização dos meios da câmara para atacar a liberdade de imprensa e tentar condicionar a ação dos jornalistas.

Vamos aos factos. Como é habitual, o município divulgou o Plano de Atividades e Orçamento para o ano de 2019 com alguns dias de antecedência. Obteve, assim, cobertura mediática, destacando a mensagem que pretendia transmitir.

Talvez por isso, a maioria municipal encarou com arrogância displicente o debate na reunião da câmara. Essa atitude começou logo na elaboração da ordem do dia, em que este assunto, porventura o mais relevante em cada ano autárquico, foi relegado para o último lugar de uma agenda com 19 pontos.

Depois, na reunião, a apresentação das propostas de Plano e Orçamento não foi feita pelo presidente e nem sequer por nenhum dos vereadores. A responsabilidade foi entregue a um diretor municipal que, naturalmente, não enfatizou as opções políticas que lhe estavam subjacentes. Não é essa a sua função.

Finalmente, face aos comentários e críticas dos vereadores da oposição, a maioria municipal respondeu sem defender o Plano e Orçamento que apresentou. Os vereadores que intervieram limitaram-se, isso sim, a fazer considerações políticas vagas e “oposição à oposição”, atacando os seus representantes, num registo infelizmente demasiado habitual na vida partidária nacional.

Esta é a reunião em que participei e é a reunião que é relatada por todos os jornalistas presentes. Rui Moreira, no entanto, dando mais um passo numa estratégia que tem vindo a desenvolver de forma obsessiva, concentrou-se em desferir um violento ataque à agência Lusa e à sua jornalista, a quem acusam de censura. Tudo, pasme-se, porque a posição da maioria não recebe referências “elogiosas”.

No site da câmara e nos circuitos das redes sociais do seu movimento/partido, Rui Moreira inaugura uma nova visão sobre o jornalismo, que teria como função elogiar o poder.

Confundindo a maioria absoluta que alcançaram legitimamente nas eleições com o poder absoluto incompatível com uma sociedade democrática, Rui Moreira e os seus conselheiros de comunicação tentam constranger jornalistas e condicionar a voz da imprensa. Não querem que sejam ouvidos aqueles que questionam, que interrogam, que incomodam. Copiando os modelos populistas que vão grassando pelo Mundo, o que sonham é construir a sua versão da verdade e garantir que só ela é difundida. Desacreditar a imprensa é um passo para tornar essa estratégia mais eficaz. Assim, restarão apenas os meios da câmara e do seu partido/movimento, que os conselheiros de comunicação do presidente controlam com mão de ferro.

O jornalismo é indispensável à democracia. Nestes tempos conturbados, o dever de um político responsável é apoiar o jornalismo e a sua independência. Mesmo que isso possa ser incómodo e mesmo que as notícias nos possam parecer injustas. Um político democrático não pode, em nome do seu ego, ser censor da imprensa que lhe desagrada e verdugo dos jornalistas que não o elogiam.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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