Opinião

Um deputado perigoso e um primeiro-ministro encurralado?

Já vimos o desastre que certas ideologias bem-intencionadas trouxeram ao mundo no século XX. Abram os olhos antes que seja tarde.

A hipótese de ver um touro bravo à solta no Parlamento enquanto os deputados saltam das cadeiras como os forcados saltam na arena pode fazer rir, mas o que se está a passar é preocupante e não tem graça nenhuma. Miguel Sousa Tavares terá surpreendido muita gente quando disse que o deputado do PAN “sozinho aterroriza todo o Parlamento” e que “assusta mais os restantes deputados que um touro bravo” enquanto vai impondo a sua agenda animalista. Mas entretanto foi António Costa quem, em carta aberta a Manuel Alegre, nos surpreendeu, pois em 2010 ia às touradas aplaudir de pé e abraçar os forcados e agora responde que fica chocado por haver touradas transmitidas pela RTP.

Não sendo conhecido qualquer epifania ou conversão ao veganismo por parte de António Costa, é curioso que nesta sua entrada na arena da discussão do IVA das touradas tente “pegar” Manuel Alegre “de cernelha” com considerações filosóficas sobre liberdade e não responda ao ponto onde Manuel Alegre tocou na ferida: “o calculismo dos que pensam que, em certas circunstâncias, o voto dele [do deputado do PAN] pode ser útil para a maioria. Uma espécie de um novo deputado 'limiano', salvo o devido respeito.” Isto é, António Costa, que todos consideram político habilidoso e calculista, veio, num artigo escrito, portanto, pensado e amadurecido, expor-se ao ridículo de atacar as touradas que aplaudia e abraçava em 2010 para piscar o olho ao deputado ou futuro(s) deputado(s) do PAN que podem ser úteis para conseguir uma futura maioria. Isto é preocupante, porque ainda nem toda a gente viu bem com quem António Costa anda (politicamente) a namorar.

O PAN até parece um simpático partido ecologista que diz defender as pessoas, os animais e a natureza, que afixa outdoors sobre o plástico nos oceanos e a fruta nas escolas, que fez campanha a defender os animais de rua e por isso teve os votos de milhares de pessoas desiludidas com a política do costume. Mas vejam tudo o que o PAN tentou proibir no Parlamento, leiam o que André Silva publica na imprensa e sobretudo a sua página oficial do Facebook e os comentários dos seus seguidores. “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.”

É surpreendente ver que alguém que pretende proibir a caça utiliza o Facebook para percorrer a espuma dos dias, “atirar” aos assuntos da atualidade que lhe interessam e deixar depois os seus seguidores, sem qualquer esforço visível de moderação, atacar o assunto de forma enraivecida, dedicando ao resto da humanidade omnívora um ódio de estimação incompreensível em quem defende a compaixão com os animais.

André Silva e a sua equipa não são apenas vegetarianos que se recusam a comer carne, porque esses sempre existiram e foram uma parte da população respeitada na sua diferença e capaz de conviver pacificamente com os apreciadores de carne, peixe, ovos ou lacticínios. Estes novos vegans querem impor o seu veganismo ao resto da população e proibir todas as atividades com animais. Eles não se contentam com impor regras de bem-estar animal, embora possam aceitar taticamente como um degrau a caminho da extinção da pecuária como desejam. Primeiro foram os circos, depois a proibição de vender animais de companhia nas lojas, agora são as touradas (não conseguiram proibir mas levam com o IVA, para aprender, e “fica a ideia”), foram as carroças, foi a “crueldade envolvida na produção industrial de leite” e por aí irão passando pelas galinhas até à matança do porco e ao resto da bicharada doméstica. Esta semana, algures nos Estados Unidos, já proibiram as corridas de galgos.

Eu não sou aficionado e, ao contrário de António Costa, não encontrarão nenhuma foto minha nas touradas. Não sou caçador nem criador de galgos, mas já os vi correr, sei o carinho e cuidado com que são criados e não vejo como sofram por correr. Mas vejo que o plano deste veganismo passa por defender tanto os animais que os conduzirá primeiro à libertação e depois às esterilização e extinção, porque os animais domésticos só existem porque têm uma função. Se as touradas acabassem, a raça brava seria extinta, não haveria mais touros bravos a correr livremente nas planícies alentejanas e ribatejanas. Sem pecuária, sem animais domésticos de produção, haveria um desequilíbrio do ecossistema homem-animal estabelecido nos últimos 10.000 anos desde o início da agricultura e da... civilização. Isso é tão absurdo que não vai acontecer, mas entretanto anda alguém à solta no Parlamento a tentar proibir e nas redes sociais a incitar ao ódio contra os agricultores que cuidam de animais e isso pode fazer mal a muita gente que trabalha para alimentar o país. Está na hora de lhes dizermos também “mexeu com um, mexeu com todos”. Já vimos o desastre que certas ideologias bem-intencionadas trouxeram ao mundo no século XX. Abram os olhos antes que seja tarde.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico