Um arquivo digital para guardar a memória de Cardoso Pires

A Câmara de Lisboa assinala os 20 anos da morte do escritor com um programa de homenagem que deixará frutos perenes, como o lançamento, pela Hemeroteca, de um dossier digital dedicado ao autor de O Delfim ou a disponibilização on-line da revista Almanaque.

Retrato de José Cardoso Pires por Eduardo Gageiro
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Retrato de José Cardoso Pires por Eduardo Gageiro DR
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Ato-retrato de Cardoso Pires no Sempre Fixe

“José Cardoso Pires foi um romancista genial. Só por causa de O Delfim teria merecido o Nobel, ele que nunca apareceu nos prognósticos anuais”, escreveu Torcato Sepúlveda no PÚBLICO de 27 de Outubro de 1998. O escritor morrera na véspera, deixando uma das prosas mais visceralmente vivas da literatura portuguesa do século XX, e o jornal dedicava-lhe as primeiras nove páginas dessa edição, que agora integram, com outros 1500 documentos, o Dossier Digital José Cardoso Pires, desenvolvido pela Hemeroteca, e que será lançado este sábado no âmbito do programa de homenagem que a Câmara de Lisboa promove para assinalar os 20 anos da morte do autor. 

Nesse mesmo número do PÚBLICO – cujo Magazine dominical acolheu, entre 1993 e 1996, muitas das últimas crónicas escritas pelo autor –, o jornalista Rui Ferreira e Sousa enumerava: “Ficam os seus livros, a sua escrita lenta e rigorosa. Ficam os amigos e os leitores, os seus pintores, os seus cineastas, e os locais da cidade que o apaixonavam, as ruas, os bares." Um inventário que pode bem servir de resumo à diversificada programação deste tributo que a autarquia agora presta ao extraordinário cronista de Lisboa, Livro de Bordo.

A homenagem abre esta quinta-feira, às 18h, com a inauguração, na Biblioteca Palácio Galveias (BPL), de uma exposição de fotografias de Eduardo Gageiro, cujos retratos de Cardoso Pires atravessam mais de quatro décadas. No dia seguinte tem lugar a primeira de cinco visitas guiadas pelo bairro de Alvalade, para onde o escritor se mudou com a família em 1963 e onde viveu um período importante da sua vida. E no sábado à tarde é apresentado, também na BPL, o Dossier Digital José Cardoso Pires, um projecto da Hemeroteca de Lisboa que promete tornar-se rapidamente uma fonte incontornável para quaisquer futuros estudiosos da obra do autor de Balada da Praia dos Cães.

Na sessão de lançamento deste Dossier Digital intervirão o seu coordenador, João Carlos Oliveira, o escritor Bruno Vieira do Amaral, que redigiu expressamente para o efeito uma extensa apresentação do autor, e Ana Cardoso Pires, filha do romancista, cujas pesquisas nos arquivos pessoais do pai permitiram internacionalizar a recolha de recortes de imprensa, somando-lhe um grande número de artigos publicados em jornais e revistas de variadíssimos países.

Para facilitar a pesquisa, este arquivo digital está organizado em diversos separadores. Se abrirmos o que diz respeito à obra, tanto podemos pesquisar o que saiu na imprensa sobre cada um dos 21 livros do autor como aceder a um inventário dos estudos académicos que a obra de Cardoso Pires suscitou. Só os recortes de imprensa relativos a O Delfim são quase centena e meia, muitos vindos de fora, do Brasil ou de países europeus, incluindo a Finlândia, onde a o romance parece ter tido um sucesso assinalável.

No separador “o homem” incluem-se testemunhos, a já referida biografia escrita por Bruno Vieira do Amaral, uma extensa galeria de fotografias de imprensa, e ainda um curioso auto-retrato do escritor, publicado nas vésperas do 25 de Abril de 1974 no jornal Sempre Fixe. Uma ficha preenchida à mão pelo próprio autor oferece-nos minuciosas informações sobre o cidadão José Augusto Neves Cardoso Pires, da sua altura (1,66 metros) ao imposto complementar que pagara nesse ano: 19.725$00 (um pouco menos de cem euros).

Outro separador guia-nos pela floresta de mais de meia centena de jornais e revistas em que colaborou ao longo da vida, desde a sua juvenil participação na revista lisboeta A Cidade dos Rapazes, onde publicou em 1943, aos 18 anos, um artigo sobre o romancista francês Pierre Loti, até às crónicas que escreveu nos seus últimos anos de vida para o PÚBLICO ou O Independente.

Há ainda um capítulo dedicado às muitas entrevistas que Cardoso Pires deu. Uma das que vale mesmo a pena revisitar é a que lhe fez Fernando Assis Pacheco para o número inaugural do Jornal de Letras, em Março de 1981, um divertidíssimo diálogo sem quaisquer mesuras de parte a parte: “A ideia que fazes de Lisboa não será bem a minha. A tua poesia, pelo menos naquilo que ela fala de Lisboa, é, digamos, a do poeta à barra. Mas um poeta sempre em trânsito, é a ideia que me dá. E de uma grande solidão, no fundo de tudo. Estou errado?”, pergunta o entrevistador. “Detesto os divãs dos analistas, ao que me descrevem. Quando precisar de um ersatz bato-te à porta”, responde o entrevistado.

Outro momento alto desta homenagem é a digitalização integral dos 18 volumes da revista Almanaque, que a Hemeroteca disponibilizará na página do Dossier Digital, mas que constitui um projecto autónomo. Lançada e financiada pelo editor da Ulisseia, Joaquim Figueiredo de Magalhães, e dirigida por Cardoso Pires, foi publicada entre 1959 e 1961. “A minha ideia era fazer uma revista que não respeitasse ninguém e fosse o mais sacana possível. Se tivéssemos só 20 leitores era uma paródia. E o Magalhães alinhou”, contará mais tarde o escritor. Com uma redacção de luxo, que incluía Sttau Monteiro, Baptista-Bastos, Alexandre O’Neill, Augusto Abelaira, José Cutileiro e o então muito jovem Vasco Pulido Valente, a Almanaque é também um marco do design gráfico português graças ao talento de Sebastião Rodrigues e de colaboradores como Abel Manta ou João Câmara Leme.

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Capa de Sebastião Rodrigues para o número de Julho de 1960 da revista Almanaque

Esta homenagem incluirá ainda o lançamento de uma nova edição de Lisboa, Livro de Bordo, com a chancela da Relógio D’Água e fotografias de José Carlos Nascimento, uma conversa livre com amigos do escritor, aberta a todos quantos queiram partilhar histórias que tenham testemunhado, ou uma evocação do teatro de Cardoso Pires com a presença de uma parte do elenco original da histórica encenação de O Render dos Heróis que Fernando Gusmão criou em 1965 para o Teatro Moderno, incluindo Ruy de Carvalho, Rui Mendes, Luís Alberto e Carmen Dolores, esta última através de um testemunho gravado.

O programa termina a 10 de Dezembro com o lançamento, na BPL, do livro José Cardoso Pires e o leitor Desassossegado (Guerra e Paz), de Marco Neves, precedendo uma conversa com Manuel S. Fonseca, Maria Fernanda de Abreu e António Lobo Antunes.