Editorial

Os muitos milagres de Tancos

Tancos é uma terra dada à transcendência, mesmo que amargamente acabemos com os pés bem enterrados na terra.

Não muito longe de Fátima, próxima do Entroncamento, Tancos é uma terra dada à transcendência, mesmo que amargamente acabemos com os pés bem assentes no chão quando julgávamos estar a elevar-nos para um outro estado.

O “milagre de Tancos” de 1916 foi assim. Julgávamo-nos ter superado quando, em apenas três meses, conseguimos treinar 20 mil mancebos para integrarem o Corpo Expedicionário Português. Funcionou para a propaganda, mas em La Lys viram-se os seus pés de barro quando tropas mal preparadas, mal equipadas e mal comandadas foram completamente desbaratadas.

Cento e um anos depois, assistimos a outro milagre: o do aparecimento e desaparecimento das armas dos paióis de Tancos. O país respirou de alívio quando o armamento que se julgava poder ter desaparecido nas mãos de terroristas e criminosos surgiu num terreno na Chamusca. Mas teve de engolir em seco quando percebeu que a Polícia Judiciária Militar (PJM) afinal se poderia ter envolvido numa combinação que, porventura, procurava assegurar a devolução do armamento, mas que, pelo caminho, permitia aos criminosos escapar e tinha muito de disputa com a Judiciária civil.

Agora estamos à beira de um terceiro milagre, que é o de conseguir que, no meio da “nebulosa” sobre quem sabia ou não do esquema de devolução, as Forças Armadas passem sem grande mossa, apesar dos péssimos sinais que foi dando ao longo de todo este processo e que nos deviam fazer debater profundamente o estado de saúde de um pilar fundamental da nossa soberania.  

Não quer dizer que não estejamos perante um caso político grave, quando já tivemos a demissão de um ministro e as ondas de choque chegam ao primeiro-ministro e ao Presidente da República. Há que apurar tudo, mesmo que o documento-chave seja um memorando mal escrito, entregue dois meses depois da devolução das armas, por aqueles que arquitectaram a entrega e tudo procuraram para fugir à PJ.

Mas que essa agitação política não conduza a “um mundo de pernas para o ar”, como afirmou anteontem Marcelo Rebelo de Sousa. Não nos esqueçamos de que alguns dos pontos mais importantes continuam por apurar. Afinal, quem roubou as armas? Estão sanadas as circunstâncias que permitiram esta ameaça à segurança nacional? Como é possível que os mais altos dirigentes de um organismo que tem a função de preservar a lei — a PJM — dêem prioridade à sua disputa com a PJ, envolvendo-se numa trapalhada que viola a lei? Nem tudo é política e ela não pode ser a única medida para todas as coisas.