A Antiguidade clássica, um passado que sempre regressa

O Fórum do Futuro dedica a sua edição deste ano à presença da Antiguidade na cultura contemporânea, motivando assim uma reflexão sobre a actualidade e as potencialidades do clássico, num tempo marcado pela hegemonia do presente e pela aceleração.

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Parthenon, Atenas Marcelo Del Pozo/ REUTERS

O Fórum do Futuro, um “festival de pensamento” que decorre anualmente na cidade do Porto, visando “reflectir sobre questões fundamentais para a sociedade contemporânea”, consagra o seu programa deste ano à grande questão da presença e da memória da Antiguidade na cultura contemporânea.

De 4 a 10 de Novembro, o fórum solicita o modelo da ágora grega para um encontro público multidisciplinar: palestras, debates, performances e espectáculos que abrangem as artes visuais, a filosofia, a política, a arquitectura, a literatura, etc. Por lá passarão figuras relevantes, de dimensão internacional, tais como Margareth Atwood, Christian Boltanski, Maurizio Lazzarato, Paulo B. Preciado, Hans-Thies Lehmann e muitos outros. Como se pode perceber por esta lista, a suscitar a questão da Antiguidade estão nomes bem representativos de diversas áreas da arte, da cultura e do pensamento contemporâneos.

Na base do tema proposto pelo fórum está a ideia de que a Antiguidade (neste caso, a grega, mais do que a romana) não deve ser vista numa perspectiva meramente arquivista e erudita que se conforma a um patrimonialismo, mas como um elemento activo do nosso tempo e um potencial de futuros possíveis. A uma concepção linear do tempo histórico, construída sobre uma cronologia que transforma o passado em ruína (objecto tanto de um sentimento nostálgico como de uma apropriação estética), opõe-se então a ideia de que é preciso adoptar uma definição de temporalidade mais cíclica. Neste sentido, a Antiguidade não é uma terra aonde se regressa pela via de uma simples política da memória, mas é antes um entreposto sincrónico do nosso cenário cultural.

Coube a René Char ter afirmado, nos seus Feuillets d’Hypnos (1946), que “a nossa herança não é precedida por nenhum testamento”. Mas talvez hoje seja mais difícil aceitar esta consideração. Os testamentos e os futuros possíveis do passado deixados pela modernidade e as lutas revolucionárias, pela literatura e as vanguardas deixaram-nos num estado melancólico quando arrefeceram as potencialidades que eles tinham prometido e entrámos nos “anos de Inverno”, segundo a bela fórmula de Félix Guattari, já nas duas últimas décadas do século XX. A modernidade, com o seu mito do progresso, expulsou a ideia de um tempo cíclico. Bastou ela entrar na sua fase de desencantamento, bastou que a ideia moderna de progresso fosse destruída, para que a ideia de renascimento da Antiguidade adquirisse novamente a sua força. Uma força antiga, como sabemos, que parece nunca se extinguir e revela-se pronta a ser reactivada.

O regime do presentismo

Hoje, a questão de saber que forças vivas e actuais a nossa época encontra na Antiguidade, que lições teóricas e práticas retira da sua história e de todas as suas produções, que potenciais esta lhe fornece, não pode ser desligada do “regime de historicidade”, para falarmos à maneira do historiador francês François Hartog, em que vivemos. Esse regime é o presentismo, uma historicidade estática caracterizada pelo fim dos horizontes de expectativa, pela invasão totalitária do presente em todos os domínios, nos reinos do passado e do futuro.

O presentismo, esse tempo da aceleração, para o qual não há nenhum tempo potencial, incita a uma alternativa. E é nesse plano que devemos compreender as exortações que hoje são feitas ao clássico, à Antiguidade clássica, repetindo um gesto com uma longa história e com dois sentidos diferentes, às vezes simultâneos: ela foi uma fonte de criação e de vitalidade, mas também foi determinada por um ideal estético nostálgico, pelo desejo de encontrar a pátria ideal.

A viagem à Grécia, que Chateaubriand efectuou em 1806 e que relatou na primeira parte do seu Itinéraire de Paris à Jerusalem, é um exemplo deste imaginário cultural, neoclássico, de um passado conservado, sintetizado e recomposto pela poética da memória. O filo-helenismo, comprazendo-se na verificação de que a filosofia, a nossa literatura, os nossos ideais políticos têm as suas raízes na Grécia antiga, acaba sempre por dizer implicitamente: “Nós somos todos gregos”. Ou então, sem qualquer menção à histórica querela dos Antigos e dos Modernos: “Nós somos contemporâneos dos Antigos”.

A primeira destas duas frases foi, aliás, gritada por toda a Europa quando se deu, nesta década, o resgate financeiro da Grécia. Teve então lugar uma discussão quase sempre superficial sobre a diferença entre a nossa democracia e a de Atenas, longe de uma leitura adequada de Aristóteles. Mas é verdade que o modo como Aristóteles descreve a “comunidade” que é a cidade, sublinhando a pluralidade e a diversidade necessárias ao seu bom funcionamento, parece que ele está a pensar nos confrontos políticos actuais.

Essas viagens nostálgicas à pátria dos nossos arquétipos culturais foram alimentadas sobretudo por uma imagem da arte e da estética da Grécia clássica elaborada por Winckelmann (1717-1768), que, com extrema audácia, ofereceu pela primeira vez uma narração histórica da arte antiga inteiramente dominada pelos gregos. A “essência da arte” que Winckelmann nomeou não se resumia a uma erudita evocação do clássico nem a um frio exercício de antiquário; a sua história era antes animada por um ímpeto singular, por um projecto que assumia quase o estatuto de um manifesto em que a arte grega era dada como exemplo para a prática artística do futuro. A arte grega evocada e divinizada por Winckelmann, na medida em que era elevada a uma visão completamente alimentada por valores actuais, assume uma nova estatura, torna-se a matriz de um programa educativo, não só do artista, mas de todo o homem culto. Ideal estético e ideal ético unem-se num só, onde é facilmente reconhecível uma metafísica do Belo. Mas encontramos também em Winckelmann uma problemática requintadamente política, em particular a sua exaltação da “liberdade grega”, a liberdade activa do cidadão da polis, a liberdade que favorece o florescimento das artes e das ciências.

A liberdade dos gregos, na Atenas democrática e clássica, abria as portas à liberdade dos modernos. O que Winckelmann prometia aos seus leitores não era apenas a “liberdade grega” do cidadão no governo das instituições, era sobretudo a liberdade intelectual do indivíduo através da experiência estética.

O futuro do clássico

O “clássico” adquire assim uma dimensão global, universal. Num livro de 2004, o grande  historiador de arte italiano Salvatore Settis tentou definir o futuro do clássico (Futuro del Clássico é precisamente o título do livro), interpretá-lo, explicar por que é que há uma perene actualidade no passado clássico que contém as raízes comuns da civilização ocidental. Essa questão é, de certo modo, a da sobrevivência da Antiguidade clássica, que foi a questão a que tentou responder o grande historiador da cultura alemão Aby Warburg (1866-1929), que elaborou uma visão da Antiguidade extraordinariamente fecunda e rica de implicações.

Antes de mais, Warburg interrogou a natureza do "clássico”, não enquanto classicista, mas a partir da urgência interior de explicar a natureza do Renascimento, que estava no centro dos seus estudos. A Antiguidade clássica surge como a matriz poderosa do Renascimento, mas a centralidade desta sua ressurreição no coração da história europeia exigia para ele uma explicação mais profunda. Ele quis entender como é que o depósito de memória cultural (o "clássico”) ora se fechava e permanecia invisível, ora se reactiva e ganha uma nova vida, segundo um processo dinâmico intimamente ligado ao devir histórico. Ou seja, a sua questão consistia em saber por que é que havia épocas em que se dava um renascimento da Antiguidade pagã, porque é que esse espectro que atravessava o tempo ganhava corpo nalgumas épocas históricas.

Aquilo a que Warburg, na sua linguagem, chama “sobrevivência da Antiguidade”, constitui o drama central da memória cultural europeia, sempre ameaçada pela barbárie do esquecimento e da destruição de si própria. Warburg foi assim levado a interrogar os materiais concretos da história da arte e da cultura, utilizando os instrumentos do historiador, mas também os do filólogo, do antropólogo, do linguista, do historiador da arte.

Aby Warburg mostrou, como mais ninguém, por que é que a Antiguidade clássica é, na cultura ocidental, uma obsessão recorrente. Porque é que o clássico não é algo morto e inútil, mas algo que vem activar futuros possíveis.

É esta potencialidade que justifica o programa deste ano do Fórum do Futuro. Trata-se de pensar vários domínios da criação artística e do pensamento em função de uma ideia que é ciclicamente actualizada, sempre com uma enorme força produtiva. A sobrevivência da Antiguidade é um desafio lançado à história da arte e da cultura e trabalha de modo consciente ou inconsciente o nosso tempo contemporâneo, em muitos domínios, da arte à política.