Crítica

Que nome para este tempo?

A Terra de Naumãn, quinto romance de H. G. Cancela, é um livro apocalítico sobre quando ainda não existia o homem, mas já havia o seu projecto.

H. G. Cancela: conto juvenil, traz, na sua fluidez narrativa, um complexo olhar civilizacional sobre a vida e a morte
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H. G. Cancela: conto juvenil, traz, na sua fluidez narrativa, um complexo olhar civilizacional sobre a vida e a morte ADRIANO MIRANDA

O quinto romance de H. G. Cancela — nome literário de Hélder Gomes Cancela — passa-se numa fronteira de civilizações e é uma fantasia pré-apocalíptica muito diferente do livro anterior. Em As Pessoas do Drama (Relógio d’Água, 2017), livro vencedor da mais recente edição do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, o escritor partia da obsessão de um homem por uma actriz. Agora, em A Terra de Naumãn, explora um momento da vida do planeta há mais ou menos 65 milhões de anos, quando se deu “a quinta extinção em massa da história da Terra”, e confirma — se dúvidas ainda havia — Cancela como um dos mais sólidos escritores contemporâneos.

Apesar da proximidade com a ficção científica, o livro apresentado na contracapa como um “conto juvenil” ou uma “fábula”, não descola totalmente do que tem sido o território ficcional deste escritor; antes o consolida. Estão lá o explorar dos limites do humano — no caso, de uma espécie ancestral —, a solidão, a violência, a moral, os paradoxos entre precaridade e permanência, aspereza e fragilidade, a identidade e uma ideia de mundo original que parte da linguagem, mais precisamente de eficaz um encadear de palavras capazes de conferir um pouco de verosimilhança ao mais inverosímil.

A acção situa-se no Planalto de Naumãn onde vive um povo que venera o fogo e o futuro. Esse povo divide-se em seis comunidades e rege-se pelo número sete. O objectivo é fundar uma sétima comunidade. “No alto das escarpas de granito, onde arde o fogo, erguem-se as muralhas com sete Portas. Éramos seis comunidades. Cada comunidade acedia ao espaço ritual pela sua Porta. A sétima, aprendíamo-lo desde a primeira vez que pisávamos o Planalto, era para aqueles que viriam. Uma promessa de posteridade. A garantia de que, depois de cada dia, haveria outro dia, depois de cada ano, haveria outro ano, depois de cada comunidade, haveria outras comunidades. Nós, Naumans, de dedos hábeis, respeitamos o passado, mas veneramos o Futuro.”

Este parágrafo funciona como quase um livro primeiro, génesis de uma história narrada por Alva, uma fêmea de 14 anos, eleita para integrar o grupo que irá deixar o Planalto, no centro da Terra de Todos, passar a fronteira, e fundar uma nova comunidade de que terão de dar conta daí a sete anos, numa expedição ao lugar de partida, Naumãn, terra onde perdura a paz há 70 gerações, que se rege por uma complexa Lei Comum que estabelece como se exerce o poder — muito próximo do que hoje se chama democracia —, a economia, baseada nas trocas e bens, a sexualidade, o nascimento, a educação. Os Naumans nascem de ovos. “... todos os anos, um em cada quatro ovos fertilizados será conduzido ao Planalto para partilha e redistribuição. Depois da Troca, as comunidades regressarão a casa com o mesmo número de ovos, mas não conhecerão a sua proveniência. A partir de então, se um Nauman pegasse em armas para atacar outro Nauman, se uma comunidade se voltasse contra a outra, não saberia se não era os seus filhos ou os seus próprios pais e irmãos que estava a matar.” Esta era regra essencial para garantir a paz e a sobrevivência de um povo entre predadores num território tão avassaladoramente vasto quanto hostil.

Alva é filha da Troca, uma Nauman que poda ser originária de qualquer comunidade a quem coube o papel de narrar os feitos da comunidade expedicionária que havia de se fixar. Viram um lugar que se afigurou perfeito até descobrirem nele sinais de uma sociedade morta. Pior do que começar a partir do nada, era começar a partir da promessa de destruição”. Mas se havia característica que identificava os Nauman era a sua fé inabalável no futuro. H. G. Cancela explora este elemento ao longo de toda a narrativa, solidamente estruturada, numa gestão exímia de suspense, acção e reflexão. E tudo atravessado por um silêncio familiar a quem já leu outros livros do autor. É um silêncio que soa. Um som de princípio ou de fim de tudo. Inaugural ou fruto de uma colisão de um planeta contra outro planeta, onde o tempo ganha múltiplos sentidos. Acelera ou simplesmente desaparece enquanto se eterniza levando com ele o futuro.

Os Nauman tentam estar sintonizados com o tempo. Obedecem ao ritmo das estações. Secas, húmidas, de cultivo e acasalamento. Se há um deus, mais do que o fogo, é o tempo.

Escolhido o lugar para se fixarem, começam a contar os dias a partir daí, e partir daí é preciso começar tudo usando a linguagem que traziam como legado. Na linguagem dos Nauman, Alva descobria que na sua função de narradora uma função primordial: “Seria necessário selecionar o que valia a pena reter na recordação e o que deveria cair no esquecimento”, lê-se. Ela era o garante da memória e também uma das mais activas no acto de nomear. “Faltava, mais difícil do que organizar regras e leis, escolher o nosso nome. Não havia na história de Naumãn registo de uma comunidade que tivesse decidido a sua própria designação.”

Estamos diante de uma parábola sobre o tempo, mas também acerca do erro que se repete e da perspectiva através da qual olhamos o nosso lugar na terra. Se é um conto juvenil, traz, na sua fluidez narrativa, um complexo olhar civilizacional sobre o fracasso, a hipótese de sucesso, a sobrevivência, a vida e a morte. Em A Terra de Naumãn, H. G. Cancela conseguiu mais uma vez um dos seus objetivos literários: a ilusão de criar um mundo. Um mundo onde o homem se revê como protagonista de uma fábula desvastadora onde no princípio havia fogo e futuro...