De Cusco a Machu Picchu

O leitor Helder Taveira partilha a sua experiência no Peru.

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Reuters

A viagem ao Peru, pelo exotismo, cultura, tradições e principalmente pelas pessoas, foi inesquecível. Valeu a pena fazer um voo de mais de 11 horas, atravessar o Atlântico e a América do Sul, aterrando em Lima, coladinha ao oceano Pacífico — mais que não fosse, para fazer a caminhada de Cusco a Machu Picchu, que foi de facto uma das melhores experiências de viagem que alguma vez vivi. Cerca de 45 quilómetros em quatro dias, pela cordilheira dos Andes, passando por lugares com paisagens incríveis e por centros arqueológicos do período inca, que foram uma verdadeira lição de história.

Na noite que antecedeu o primeiro dia da caminhada, choveu intensamente. A manter-se este cenário, não iria ser fácil.

Éramos nove caminhantes, três australianos, um neozelandês, um inglês, uma irlandesa, um polaco e uma mexicana, sendo eu o único português. Para a caminhada tivemos dois guias, o Santiago a chefiar e o Alcides sempre na retaguarda a ajudar quem tinha mais dificuldades. Seguiam também treze carregadores e um cozinheiro. No primeiro dia, fizemos cerca de dez quilómetros. Subidas e descidas e sempre com a chuva por companhia, que teimava em complicar a nossa tarefa.

A primeira etapa não foi muito dura, mas havia já pessoas do grupo a chegar ao acampamento com muito atraso e com queixas de dores no corpo. Pelo caminho, o guia Santiago preparou a folha de coca para ajudar com a indisposição e náuseas que a altitude causa, mesmo a quem está habituado.

Acampámos junto a um pequeno riacho e foi com o barulhinho da água a correr que adormeci, depois de comer batata-doce com peixe frito e legumes. Quando acordei, pelas seis horas da manhã, olhei para a montanha e estava coberta de neve. Não ia ser fácil a chegada a Machu Picchu. O pequeno-almoço foi óptimo, chá, torradas, salada de frutas, sumo de quinoa e geleia de morango. Se nós precisávamos de nos alimentar para aguentar a caminhada, o que dizer dos carregadores. Impressionante a força destes homens. De aspecto franzino, magros, mas carregavam todos os apetrechos para o nosso conforto, desde as tendas, sacos-cama, trem de cozinha, comida e até parte das nossas coisas. Recorriam às folhas de coca, que mascavam frequentemente e que ajudavam na respiração em altitude, como explicou o guia depois de fazer a cerimónia da utilização da folha de coca, num agradecimento aos deuses para ajuda na caminhada pelo Vale Sagrado.Na subida a quase 4400 metros de altitude, era muita a neve e o frio, o que não impedia aqueles homens de chegarem ao lugar onde iríamos acampar antes de nós. Quando chegávamos, já tinham as tendas montadas e o jantar quase pronto.

Aproximava-se o dia da chegada. Nesse dia, acordamos pelas 3h30 para esperar que autorizassem a passagem pelo último ponto de controlo. Finalmente, mal o dia começou a clarear, sinal verde para continuar e lá fomos nós. A chuva e neve deram tréguas e o dia prometia ser soalheiro.

O cansaço que durante os quatro dias se acumulava no corpo parecia que ia desaparecendo à medida que nos aproximávamos do nosso destino.

A entrada pela Porta do Sol é de facto emocionante. Depois de tantas horas de caminhada e de sacrifício, ali estava Machu Picchu, Montanha Antiga, no dialecto quechua, dos incas, e ainda falada na zona de Cusco e no Altiplano Andino. Do alto da Porta do Sol, aí estava o santuário de Machu em toda a sua imponência. Era ainda muito cedo, cerca das 7h, e não havia ainda aquela horda de turistas que diariamente por ali pululam. O lugar é místico e é fácil compreender a razão da escolha dos incas para a sua construção nesse vale encantado.

Apetecia ficar ali sentado horas a fio, sem preocupação com horários e outros afazeres. As lamas, sossegadas, pastam pelos socalcos, alheias ao frenesim dos turistas, que com o amanhecer aí vão sendo despejados aos magotes.

Percebo melhor agora as palavras de Hiram Bingham, em 24 de Julho de 1911, que redescobriu e deu a conhecer ao mundo este santuário: “Não conheço outro lugar no mundo que possa comparar-se à variedade dos seus encantos e poder de feitiço.”

O regresso a Cusco foi de comboio desde Águas Calientes até Ollantaytambo e depois de autocarro. É uma viagem muito agradável, feita num comboio panorâmico e sempre ladeado pela cordilheira e pelo rio.

Chegava assim ao fim esta impressionante caminhada que terá sempre um lugar de destaque nas minhas recordações de viagens. Foi difícil, é verdade, mas não trocaria de modo algum esta experiência pela viagem de comboio até ao fabuloso Machu Picchu. Há experiências de vida que nos marcam, e esta foi certamente uma delas.

Helder Taveira