Opinião

12 facadas de raiva e um alerta geral

Quando a civilização recua, por um milímetro que seja, avança sempre a barbárie; silenciosa, sob múltiplas capas.

Um homem de 36 anos matou com 12 facadas um de 63, foi notícia no Brasil. O assassinato ocorreu no Estado da Bahia, no dia 8 de Outubro, e em si não difere muito de outras notícias dos últimos anos. Basta correr o Google por minutos para deparar com várias. Paraná, 2011: “Homem mata esposa com 22 facadas e chama a polícia”; São Paulo, 2016: “Homem mata mulher com 22 facadas”; Teresina, 2017: “Homem é morto com 22 facadas e arrastado para matagal”; Jacobina, 2018: “Suspeito de matar mulher grávida com 22 facadas é preso”; Mato Grosso, 2018: “Homem é morto com 22 facadas em Santa Margarida”. Até mesmo em Portugal, dois dias antes do crime na Bahia, lemos esta notícia: “Homem morre esfaqueado após discussão sobre o Benfica-FC Porto em Salvaterra de Magos.” Crimes, todos eles, a pretexto de futebóis ou ciúmes, reveladores do lado mais negro da condição humana. O caso da Bahia, porém, suscita outro tipo de reflexão. Foi numa discussão política que um matou o outro, e pelas costas, 12 facadas de raiva que trazem em si as sementes de um ódio antigo. Que não é só brasileiro, é universal, vem do início dos tempos, e se nalguns momentos o vamos domando, noutros ressurge-nos ao caminho como fera sedenta de vingança e sangue.

A vítima apoiava Haddad e o PT, o assassino gritava por Bolsonaro. De cada um dos lados, há uma legião de cidadãos que se vão histericamente desumanizando em acusações, gritos, ameaças, reacendendo antigos ódios ou criando novos, recuando anos ou mesmo décadas num grau de civilização que se julgava adquirido. Puro engano: nada o é. Na Europa dos anos terríveis da II Guerra Mundial, mesmo antes de ela ser declarada, o escritor austríaco Stefan Zweig, homem cordato e educadíssimo, via com pasmo e horror como pessoas de educação idêntica à sua se tornavam monstros à medida que o fanatismo delas se apossava, desenfreado, insultando-se ou agredindo-se fisicamente em lugar de discutirem como dantes. Todo esse ódio, irracional e flamejante, fez das cidades campos de batalha e mortes sem fim. Zweig, que ironicamente se suicidou no Brasil (onde até vivia em paz, embora atormentado com o rumo que levava a sua amada Europa), escreveu em O Mundo de Ontem (1942): “O povo alemão, um povo desejoso de ordem, não sabia o que fazer com a sua liberdade e já lançava os olhos, com impaciência, para aqueles que haviam de lha tirar.” Quantas vezes já vimos isto, depois da guerra? E em quantos países? Quando a civilização recua, por um milímetro que seja, avança sempre a barbárie; silenciosa, sob múltiplas capas, nas mais das vezes aparentemente inofensivas ou até risíveis (ninguém levava Hitler a sério, no início).

Multiplicam-se, nos últimos dias, apelos contra Bolsonaro. Mas pior do que Bolsonaro é o vírus do ódio que à sua sombra vai alastrando, cada vez mais ameaçador e fanfarrão. Se olharmos para Espanha, esse mesmo ódio latente ressoa nos comícios da Vox. Ainda não agridem ninguém, fisicamente, mas dêem-lhe espaço de manobra e verão as garras do velho monstro. No Brasil, temos nas 12 facadas de raiva um “programa” de futuro. O homicida defendeu-se com a política, claro. Foi a política que matou o velho mestre de capoeira, ele foi apenas o executor. Defensor do PT, mereceria todos os ódios, as facadas, a morte. É nisto que estamos, milénios depois de termos evoluído de vulgares bichos? Pobres de nós.

A propósito do seu livro Caros Fanáticos, recém-lançado em Portugal, o escritor israelita Amos Oz disse há dias ao PÚBLICO o seguinte: “Os problemas estão a tornar-se mais complicados e muitas pessoas procuram respostas muito simples; procuram respostas de uma frase, capazes de pôr tudo na ordem; frases que nos digam quem são os maus, quem são os inimigos, quem são os perigosos. Acham que se souberem isso o paraíso pode vir.” Ora, como avisadamente escreveu o poeta e romancista alemão Hölderlin, “a terra nunca se parece tanto com o inferno como quando os seres humanos tentam fazer dela o céu.”

Há quarenta anos, em 1978, a cantora brasileira Alcione gravou a canção Alerta Geral, que era mesmo um “alerta geral” pela identidade musical brasileira. Dizia assim: “Como viver calada/ Se também sofro as dores da situação/ Cada dia mais difícil de cantar/ Minha gente não concebe/ Mais chorar/ E eu, cantora popular/ Tenho minha obrigação/ Com toda essa nação// Alertar o povo inteiro/ Provar que ri melhor/ Quem sorri primeiro.” Mesmo que não seja fácil ao Brasil, talvez sorrindo possa mudar o futuro.