Fernando Henrique Cardoso diz que a porta que o separa de Haddad “enferrujou”

No fim-de-semana, o ex-Presidente brasileiro rejeitou totalmente o apoio a Jair Bolsonaro. Mas, dias depois, afastou-se de Fernando Haddad. Candidato do PT mostrou-se desiludido com esta hesitação.

Fernando Henrique Cardoso em 2017
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Fernando Henrique Cardoso em 2017 Enric Vives-Rubio/Arquivo
Fernando Haddad
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Fernando Haddad Reuters/STRINGER

Tornou-se azeda a troca de palavras entre o antigo Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardos e o candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad. Em causa está a recusa do primeiro em apoiar abertamente o substituto de Lula da Silva nas presidenciais do Brasil contra o candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro.

Haddad tem a missão hercúlea de inverter o resultado pesado da primeira volta das presidenciais, em que Bolsonaro conquistou 46% dos votos contra 29% do candidato do PT. As últimas sondagens não trouxeram boas notícias ao académico, com as mais recentes a dar 52% das intenções de voto a Bolsonaro.

Haddad tem tentado tudo para encurtar a distância para Bolsonaro. E uma das formas é captar o máximo apoio possível de outros candidatos e de outros partidos contra o que considera ser uma ameaça à democracia, personificada por Bolsonaro. Mas atrair esse apoio não tem sido fácil.

No centro desta busca de apoio tem estado Fernando Henrique Cardoso, de 87 anos, Presidente do Brasil entre 1995 e 2003, filiado no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), sendo ainda hoje uma das figuras maiores deste partido, que se posiciona politicamente ao centro. Apesar de já não ter a influência na opinião pública que já teve, ainda é uma das personalidades políticas mais respeitadas do país.

Logo após a primeira volta, Fernando Henrique desmentiu notícias que davam como certo o seu apoio a Haddad. “Mentira: nem o PT nem Bolsonaro explicitaram compromisso com aquilo em que acredito”, disse.

No domingo, numa entrevista ao jornal Estado de São Paulo, o antigo Presidente voltou ao tema. Afirmou que entre si e Haddad há uma “porta” enquanto entre si e Bolsonaro há “um muro”. Pareciam boas notícias para o candidato do PT.

Porém, na quarta-feira à noite, numa cerimónia  em que foi homenageado em São Paulo, Fernando Henrique refreou os ânimos. Questionado sobre quando seria aberta a “porta”, respondeu que “já deveria estar”. “Depois de emperrar, fica difícil”, acrescentou. O ex-Presidente, na entrevista que concedeu no domingo, criticou o PT, como já vinha fazendo: “Quem inventou o nós e eles foi o PT. Eu nunca entrei nessa onda. Agora o PT cobra... diz que tem de [apoiar]. Porque tem de automaticamente apoiar?” Fernando Henrique considerou ainda que, se este partido fizesse uma autocrítica, “seria bom”, mas o “PT está propondo coisas inviáveis”. “O PT tem uma visão hegemónica e prepotente. Isso não é democracia”, atirou ainda.

“Essa porta está enferrujada. E acho que a fechadura enguiçou”, acabou por afirmar nesta quarta-feira.

No discurso, até a primeira e veemente rejeição a Bolsonaro foi suavizada, com Fernando Henrique Cardoso a dar o benefício da dúvida ao antigo militar. Questionado sobre se poderia dar as mãos ao candidato, o ex-Presidente disse que “depende do que ele falar”. “Preciso de ver o que ele vai dizer, fazer. Como posso eu estender a mão, se a mão está no ar?”

Este posicionamento para a segunda volta por parte de Henrique Cardoso tem surpreendido alguns sectores – principalmente devido à sua oposição à ditadura militar (1964-1985), que o obrigou a um exílio no Chile para escapar às ameaças de prisão.

Bolsonaro é um confesso saudosista da ditadura e, mais do que isso, chegou a defender, por mais de que uma ocasião, o fuzilamento de Fernando Henrique. Primeiro, em 1999: “Através do voto, você não vai mudar nada neste país. Nada, absolutamente nada. Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC”, disse o então deputado e agora candidato presidencial. Depois, em 2008: “Para o crime que [Fernando Henrique Carodoso] está cometendo contra o país, a sua pena deveria ser o fuzilamento.”

Bolsonaro defende fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso a partir do minuto 2:00

Na biografia lançada em 2017, e escrita pelo seu filho Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro disse que a declaração sobre o fuzilamento de Henrique Cardoso fora uma “força de expressão”.

Haddad reagiu, na quarta-feira, numa conferência de imprensa em São Paulo, às declarações do ex-Presidente. Admitiu que esperava algo diferente: “Quando ele disse que tinha uma porta, eu ouvi isso com alguma esperança. Só soube que ela estava enferrujada agora – então ele está, aos poucos, contando toda a história.”

“Vocês da imprensa vão sublinhar a excepção, mas a regra é que os democratas estão do nosso lado”, acrescentou Haddad, tentando minimizar a posição de Fernando Henrique.

No meio desta troca de argumentos, 21 historiadores internacionais escreveram na quarta-feira uma carta aberta a Fernando Henrique pedindo-lhe para apoiar de forma aberta Fernando Haddad e para rejeitar claramente o candidato de extrema-direita. Na carta, assinada, entre outros, por académicos de universidades de Nova Iorque, Londres – e em Portugal por Boaventura de Sousa Santos –, pede-se que “o senhor [Fernando Henrique Cardoso] assuma uma posição pública forte e explícita contra as aspirações presidenciais de Jair Bolsonaro e convoque os seus companheiros brasileiros a rejeitar a sua candidatura no segundo turno das eleições”. A segunda volta tem lugar dia 28 de Outubro. 

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