Opinião

Turismo e migração das “aves” de arribação

Este artigo não se destina aos que só têm certezas absolutas, mas aos que não gostam de arriscar a sua cabeça na roleta russa.

“Migração é a deslocação regular, normalmente em grupo, entre habitats, realizada por uma determinada população de uma espécie em diferentes épocas do ano (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas).

Confúcio é tido como um dos principais filósofos chineses de todo o Oriente. Dos milhares de pensamentos cito os seguintes: “Se queres prever o futuro, estuda o passado.” “Aquele que não prevê as coisas longínquas expõe-se a desgraças próximas.”

Antes de irmos à procura do que não conhecemos, investiguemos primeiro o que já conhecemos. As crises passadas conhecemo-las. As crises futuras muitas vezes replicam as crises passadas com ligeiras diferenças, mas com as mesmas consequências: ruína, falências, desespero, destruição de meios de produção e de postos de trabalho e um aumento do exército de desempregados.

“Portugal está na moda”, proclamam os especialistas, os marketeers e outros agentes mais otimistas, como se a dinâmica dos negócios fosse quase equivalente a um conceito matemático. Portugal poderia bem estar na média, mas em relação aos seus concorrentes do Leste acaba por estar na mediania. Por dedução lógica, creio que só podem estar a referir-se aos milhões de turistas que invadem as cidades do litoral, as zonas mais turísticas e os típicos bairros populares de Lisboa e do Porto onde o arrendamento local expulsa os residentes habituais, normalmente pobres, idosos com baixas pensões e rendimentos, e, sem esperança, para as periferias suburbanas.

É um facto que de há uns anos para cá o entusiasmo com os fluxos turísticos que se têm dirigido para Portugal tem inebriado os portugueses e estrangeiros em busca da galinha dos ovos de oiro. A euforia deu lugar a importantes decisões de investimento, sobretudo na área turística, na construção de hotéis, no aumento exponencial do imobiliário para arrendamento local, na restauração, nas viagens e noutros sectores em que a presença de viajantes alavanca os comércios, e novas formas de mobilidade desfrutando da paisagem em curiosas carrinhas, que nos fazem lembrar os riquexós a motor dos países do Oriente.

Como antecipam alguns economistas de renome, nacionais e estrangeiros, a crise cíclica está já às portas dos negócios alavancados com recurso ao endividamento, sem capital próprio de suporte, e também das famílias que alegremente pedem dinheiro emprestado aos bancos para compra de casas, carros, viagens e aquisição de equipamentos domésticos, de comunicação e de bem-estar e de beleza. Os bancos, como é óbvio, estão lá para satisfazer a procura de empréstimos.

São tempos que muitos desejam (acreditam) que não terminem e que alimentam uma dinâmica de rebanho a caminho do “matadouro”. Sim, porque depois da subida exponencial dos negócios ligados ao turismo de massa a descida não vai ser suave, mas a pique, em precipícios de ruína onde poucos sairão ilesos, os poucos que anteciparam o fim do otimismo.

Os portugueses sonham com a felicidade porque acreditam nos amanhãs que cantam e na crença de que o Estado social tem pilares de suporte bem construídos, e que haverá sempre saldo no Orçamento para acomodar ad aeternum as reivindicações de melhores pensões, melhores salários e melhores direitos sociais. O problema é que os pilares podem já estar corroídos e não há reservas financeiras que possam manter o statu quo.

A noção de poupança para uma necessidade futura perdeu todo o sentido e incute-se nos jovens a máxima de que hoje é que interessa e amanhã logo se verá. O que prevalece é a noção de endividamento, ou seja, consumir primeiro e pagar depois, se houver rendimento.

Talvez o conteúdo deste artigo não interesse muito a muita gente, porque vai contra a corrente de otimismo que varre o país, porque tem um certo sabor a prenúncio de tempestades que podem abalar a felicidade popular. Mas seria um mau articulista, se não avisasse que tudo o que sobe também desce e que as mudanças tecnológicas, robotização e negócios em plataformas virtuais que aí vêm podem ser o toque a finados de um tempo em que o Estado era proprietário do país através de um sistema de impostos, taxas, coimas, multas, contribuições e demais alcavalas sobre o rendimento das empresas e dos trabalhadores.

O que acima escrevi faz-me refletir sobre os voos das aves migratórias que aproveitam os estuários dos grandes rios do Sul da Europa para descansarem durante um tempo e, chegado o momento próprio, levantarem voo para África e mais para sul.

De facto, quando atravessamos a Ponte Vasco da Gama, chegados aos sapais da margem sul, vemos centenas, se não milhares de bandos de aves debicando nas águas do Tejo, gozando do merecido descanso e sacudindo as penas ao sol de Verão. Aproximando-se o frio do Outono e do Inverno, levantam em bandos e só voltaremos a vê-los nas próximas primaveras e verão.

As nossas “aves” são os milhões de turistas que, atraídos pela bonomia dos portugueses, pelo clima, o sossego, a boa comida, o bom vinho, aterram nos aeroportos nacionais com vontade de gozarem uma boa estadia, e, passados os dias de férias, regressam às origens tal como fazem as aves migratórias.

Mas estas “aves”, passe a dureza da expressão, são muito voláteis e, talvez num futuro não muito distante, mudem o seu destino para os resorts de África e não voltem tão depressa. Neste caso, os milhões de euros de investimento ficam sem resultados e deixam vazios os quartos e os alojamentos que foram construídos sem nenhum plano estratégico.

As crises cíclicas sempre existiram no sistema económico. O melhor exemplo são os movimentos das bolsas de valores, em que quem busca o maior retorno tem de aceitar correr um risco maior. A diversificação das economias em sectores de tecnologia e de inovação é a melhor maneira de minimizar o risco.

Os ensinamentos da última crise económica e financeira foram estudados. Começou com uma bolha de crédito ligada ao imobiliário, seguiram-se a falência de bancos, uma recessão económica e, finalmente, uma crise da dívida soberana.

Parafraseando a máxima de Harry Markowitz (Prémio Nobel da Economia em 1990) sobre a teoria e a diversificação das carteiras de investimento, “não se pode pôr todos os ovos no mesmo cesto”, o que significa ter um plano nacional de desenvolvimento estratégico de médio e longo prazo para os sectores com maior potencial de valor acrescentado para suprir a destruição de capital e rendimento, se e quando os fluxos turísticos se desviarem para outras zonas mais competitivas, com sol, sossego e boa comida.

Conclusão: este artigo, cujo conteúdo e responsabilidade são meus, não se destina aos que só têm certezas absolutas, mas aos que não gostam de arriscar a sua cabeça na roleta russa.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Cidadania Social – Associação para a Intervenção e Reflexão de Políticas Sociais – www.cidadaniasocial.pt