Três em cada quatro portugueses acham que a saúde não é uma prioridade para o Governo

Inquérito mostra que os portugueses acham que a Saúde não é uma prioridade. Apontam os longos tempos de espera para consultas e cirurgias e a falta de médicos para justificar essa conclusão. Mais: os hospitais privados têm melhor imagem. Mas é sobretudo aos públicos que as pessoas vão, desde logo porque é "mais barato".

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Rui gaudêncio

Acha que a saúde em Portugal é considerada uma prioridade por parte do Governo? A esta pergunta, três em cada quatro inquiridos num estudo que é divulgado nesta quarta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, disseram que não. Consideram que a pouca preocupação com a saúde dos utentes fica patente nos longos tempos de espera para consultas e cirurgias, na faltam médicos e de outros profissionais nas unidades de saúde e ainda no baixo investimento no sector.

Estas são algumas das conclusões do inquérito Saúde uma Prioridade, feito no âmbito do projecto 3F – Financiamento Fórmula para o Futuro, promovido pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH). Um trabalho que contou com a participação de vários peritos e resultou em dez recomendações para inovar o modelo de cuidados e de financiamento da saúde, colocando o utente como um dos elementos centrais.

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O inquérito, apresentado nesta quarta-feira durante a conferência, revela ainda que sete em cada dez portugueses consideram que o investimento em saúde é insuficiente. Afirmam que é preciso admitir mais profissionais, investir mais em equipamentos e que “sem dinheiro nada se faz”.

Apesar de a larga maioria escolher um hospital público para receber cuidados de saúde (são 87% dos que foram a um hospital nos últimos seis meses), as unidades privadas saem a ganhar quando se procura avaliar a percepção que as pessoas têm do sistema. Os inquiridos avaliam de forma mais positiva a qualidade das instalações e do equipamento (numa escala de zero a 10 dão, neste capítulo, 6 ao público e 7,6 ao privado), os tempos de espera para admissão de consultas e exames (nota de apenas 4,4 para o público e de 7,6 para o privado), a possibilidade de aceder a tratamentos mais recentes e inovadores (5,8 para o público e 7,5 para o privado).

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Os hospitais privados também ganham quando se avalia a imagem que as pessoas têm da competência e dos conhecimentos dos profissionais de saúde (atribuem 6,8 valores ao sector público e 7,6 ao privado).

O estudo foi desenvolvido para a APAH (organização representativa dos profissionais com funções de administração e gestão na área da saúde em Portugal) pela empresa de estudos de mercado GFK. Teve por base uma amostra de 602 inquiridos com 18 ou mais anos residentes em Portugal continental. As entrevistas foram realizadas presencialmente entre os dias 10 e 24 de Setembro. Os dados foram ponderados para o universo da população em estudo, 8251 milhões de indivíduos. A margem de erro é de 3,9% para um intervalo de confiança de 95%.

"Há um conjunto de factores que afecta o SNS"

Referindo não conhecer a forma como o estudo foi feito, o bastonário dos médicos salienta que “há um conjunto de factores que afecta o SNS que faz com que a percepção não seja a melhor”. Dá o exemplo do número de consultas marcada no mesmo horário que leva a que os utentes tenham de esperar mais tempo, as falhas dos sistemas informáticos, estruturas mais antigas do que as dos hospitais privados, equipamentos por vezes menos modernos.

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“Tem de haver respostas na área da saúde a nível político. Já não são só os profissionais a dizer que algo vai mal. É preciso dar o máximo de dignidade aos locais onde as pessoas são atendidas e onde os profissionais trabalham. O que pedimos ao Governo é para olhar mais para a saúde e para os diferentes estudos com seriedade e pensar que temos de fazer alguma coisa pela saúde dos portugueses”, afirma.

Miguel Guimarães faz questão de destacar o facto de “o sector público ter uma capacidade de resposta de saúde que ainda não é comparável com o privado”. “Quando as pessoas têm coisas complicadas são invariavelmente tratadas no público”, reforça.

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Sobre a percepção relacionada com os profissionais de saúde, recorda que muitos médicos trabalham nos dois sectores. “Da imagem mais ou menos negativa que as pessoas vão tendo dos hospitais públicos até à imagem que o profissional no sector público pode ter menos competências ou é menos atencioso do que o do privado, vai um pequeno passo.”

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“Se eu estou no público e espero mais tempo para ser operado ou o médico está menos tempo comigo na consulta e no privado é mais rápido, eu acho que o médico é melhor. Acho que a percepção decorre mais deste tipo de situação do que das competências”, aponta. O bastonário refere ainda o facto de no privado o utente poder escolher o médico, muitas vezes indicado por alguém, o que faz com que à partida leve já uma percepção positiva.

Já a bastonária dos enfermeiros admite que as pessoas “confundam simpatia” com a competência e conhecimentos dos profissionais. “No privado as pessoas estão menos desmotivadas e se calhar têm outro cuidado no trato e no público talvez estejam menos preocupadas com a cortesia”, diz, lembrando que a falta de profissionais no SNS diminui a acessibilidade.

Sobre as percepções mais positivas que o privado colheu nos tempos de espera, na qualidade das instalações e dos equipamentos, Ana Rita Cavaco diz não se admirar. “Os hospitais são mais novos, a acessibilidade provavelmente é melhor, no público as estruturas físicas estão velhas, fruto de um grande desinvestimento. O ministro da Saúde reconheceu agora e bem a falta de investimento”, afirma, referindo que “o SNS tem uma taxa de utilização muito superior” que o privado.

"A população não está satisfeita"

Nos últimos seis meses 46% dos portugueses foram a um hospital. A larga maioria (87%, como se viu) escolheu uma unidade pública, sobretudo para fazer consultas e às urgências. Quando questionados, 28% dos que escolheram o hospital público dizem que o fizeram por ser "mais barato" e de "acesso fácil" e prático. Já os que optaram por ir a unidades privadas, a primeira razão que apontam para o terem feito tem a ver com a rapidez.

“A população não está satisfeita com o Serviço Nacional de Saúde e isso deve fazermos pensar”, diz Alexandre Lourenço, presidente da APAH, sobre os resultados do inquérito. O responsável defende que o SNS tem de se modernizar para responder às necessidades das pessoas. “Temos de ter serviços capazes de agendar consultas e exames para o mesmo dia em vez de obrigar as pessoas a irem várias vezes ao hospital. Temos de criar serviços que pensam no interesse no doente e chamá-los a ajudarem-nos a desenhar as respostas que precisam”, afirma.

Sobre o facto de a população considerar que a saúde não é uma prioridade para o Governo, Alexandre Lourenço diz: “Quando temos um sector em que o investimento foi residual nos últimos dez anos, o sector não é prioritário. A população percebe claramente que o SNS não é uma prioridade. O Governo diz que a saúde é uma prioridade e depois vemos uma dissociação total com as opções orçamentais. Temos de trazer a população para a gestão das organizações. As pessoas estão disponíveis”, salienta, referindo-se ao facto de 51% dos inquiridos considerarem que a sociedade deve ter um papel mais activo nas decisões relativas à saúde.

Gastos em saúde

Sobre gastos, 46% dos inquiridos consideram que é importante conhecer os custos que o SNS acarreta de cada vez que recorrem aos serviços públicos. Já sobre se sabem quanto gastam do próprio bolso em saúde, 53% assumem que não sabem. Dos que dizem saber, estimam um gasto anual médio de 322 euros com cuidados de saúde.

O estudo mostrou também que 14% dos portugueses admitem descontar mais para a saúde. De que forma? 54% destes sugerem “comparticipar mais e ter acesso a subsistemas como a ADSE, por exemplo, aberta a todos”.