Crítica

Mil maneiras de sobreviver

Tudo Aquilo Que Não Lembro é um romance fragmentado que vai explorando temas como a impossibilidade de conhecer o outro.

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Romance audacioso e inteligente que conta uma fábula sobre a memória, o amor e o luto

Tudo Aquilo Que Não Lembro é o quarto romance do escritor e dramaturgo sueco Jonas Hassen Khemiri (Estocolmo, 1978), e foi distinguido com o August Prize 2015 — este prestigioso prémio foi criado com a intenção de aumentar o interesse do público pela literatura sueca. Khemiri é também autor de seis peças teatrais já representadas em mais de uma centena de palcos.

Samuel morre num horrível desastre de automóvel. Foi um acidente ou suicídio? “Alguns dizem que o Samuel estava deprimido e andava a planear isto há muito tempo. Outros dizem que foi apenas um acidente.” Em parte para responder a isto, mas não apenas, um escritor (do qual nunca saberemos o nome) decide fazer uma espécie de esboço dos últimos dias de Samuel desenhando-o para o leitor a partir da cartografia afectiva do jovem falecido. Nunca saberemos porque o faz. “O que é que te fez querer escrever sobre o Samuel?”, pergunta alguém. Não terá uma resposta. Ele entrevista familiares e amigos. Mas cabe ao leitor ir compondo peça a peça o mapa final de modo a ter um retrato aproximado de Samuel.

Este romance de Jonas Hassen Khemiri parece, na sua forma, querer parodiar os livros de não-ficção que vão explorando assuntos através de excertos de entrevistas, intervindo o autor apenas na selecção dos excertos e não emitindo opinião. “Quem decide o que é importante e o que é supérfluo? Quanto a mim, quantos mais pormenores te dou, mais pormenores ficam por contar.” Como o faz — embora com outro talento e génio — a autora bielorussa Svetlana Alexievich, sublinhando que esta trabalha a partir de entrevistas não ficcionadas.

Tudo Aquilo Que Não Lembro é um romance tecido a partir de pequenos fragmentos de conversas (entrevistas), cujas vozes, de início, nem sempre são facilmente identificáveis. É com a progressão da narrativa que as várias personagens se vão identificando a si próprias, mostrando a biografia, isolando-se das outras no seu olhar mais ou menos afectuoso sobre Samuel, individualizando-se nas histórias que contam, nas descrições das suas acções. É aqui que o romance ganha complexidade e alguma profundidade: Samuel, como seria de esperar num jovem inseguro de si próprio, vai mostrando as suas facetas (como se fossem maneiras de sobrevivência) de acordo com a pessoa com quem está, numa espécie de jogo quase camaleónico — o que torna a tarefa do escritor-personagem, aquele que quer fazer o esboço dele, ainda mais difícil e escorregadia. Pelo meio das várias histórias que vão sendo contadas, amiúde contraditórias e ambíguas, ficam deixas de assuntos que só a progressão da narrativa (e por vezes através de outras vozes) vai dar sentido: um exemplo é um triângulo amoroso que vai sendo esboçado mas de que o leitor apenas se apercebe a caminho do fim. Para entender o jovem falecido, o escritor-personagem tem também de perceber os outros que com ele privaram e que achavam que o conheciam: “Ainda tenho o Samuel no meu telemóvel. Eu sei que é um bocado esquisito, mas não tenho coragem para o apagar. Não restaria nenhum vestígio dele se o fizesse.”

Numa leitura mais aprofundada, percebe-se que a vontade de tentar descobrir o que realmente aconteceu (acidente casual ou suicídio), não é propriamente o alvo final: isso é apenas um meio. À medida que a narrativa progride, e sem nunca ser explícito, o autor vai explorando outros temas (esses sim, o que importa no romance): a verdade, a percepção que temos do outro, a subjectividade das nossas avaliações, as contradições, o que é verdadeiramente a lealdade ou a traição, os julgamentos de actos mais ou menos inconsequentes e, sobretudo, a impossibilidade que temos de conhecer o outro.

“O que está por trás daquilo que não lembramos?” poderia ser outra pergunta a que o romance de Khemiri arriscaria tentar responder. Não se prendendo a mecanismos psicológicos correntemente conhecidos, o autor sueco opta apenas pelos factos sem os explicar (nem as suas personagens o fazem desse modo). Para isso monta uma galeria de personagens capazes de diferentes olhares sobre um mesmo facto: o melhor amigo (entretanto na prisão), uma artista underground a residir em Berlim, a namorada (por quem era capaz de fazer tudo) e activista em defesa das mulheres imigrantes, a avó (cuja memória está em processo de deterioração), e a mãe (que se recusa a ser entrevistada, respondendo apenas por email, e refugiando-se no luto).

Tudo Aquilo Que Não Lembro é um romance audacioso e inteligente que conta, de maneira nada convencional, uma fábula sobre a memória, o amor e o luto.