“Ele está a fazer porque quer” — ou talvez não

Por que carga de água, e depois de tudo o que se sabe sobre as praxes, se continuam a permitir tais práticas, humilhações e crimes ano após ano, crimes esses teimosamente impunes? Para quando o fim das praxes? Para quando?

Foto
Diogo Baptista

Com Setembro chegaram as tão famigeradas praxes de tradição secular. Desta vez foi em Évora, mais precisamente no Rossio de São Brás. Num vídeo a circular nas redes sociais podemos ver um caloiro ajoelhado sobre as próprias mãos com a cabeça no chão sobre um monte de farinha. O caloiro queixa-se, e com razão, de dores. Diante de tal espectáculo, um cidadão interpela os veteranos. Resposta: “Ele está a fazer porque quer.”

E é aqui que entramos em desacordo, meus senhores. Ninguém faz “porque quer”, fazemos porque temos medo, vencemos a escola secundária e começámos uma nova vida, nova e por isso desconhecida, acabámos de chegar e não conhecemos ninguém, sentimo-nos inseguros e somos vulneráveis. Em suma, temos medo, e por termos medo subjugamo-nos à pressão do grupo e às exigências e caprichos dos outros, dos que já cá estão, os mais velhos, os veteranos, donos e senhores do nosso destino agora que estamos a tantos quilómetros de casa.

E porque queremos pertencer, fazer parte do grupo, ser aceites, sujeitamo-nos a regras e rituais não apenas ridículos, perigosos, humilhantes, criminosos.

Se juntarmos a isto o efeito das redes sociais, neste momento metade de Portugal está a gozar com o caloiro enquanto a outra metade condena tais actos e toda a gente fala deste pobre rapaz que, nesta segunda-feira, não vai poder sair de casa por vergonha e, quem sabe, por ter ainda mais medo, desta feita das represálias dos veteranos que prontamente deram a cara neste vídeo.

Perante este cenário, onde estão as autoridades, a polícia, as sanções e a acusação de crime? Onde está a reitoria da universidade, os processos disciplinares, a responsabilização dos veteranos envolvidos e a expulsão dos mesmos para exemplo geral? E, já agora, onde estão os testes de formação cívica como critério para acesso ao ensino superior? Onde está a formação pessoal e o ensino para a cidadania numa sociedade dita tolerante, inclusiva, igualitária, de caminho sem caloiros nem veteranos, apenas alunos?

Por que carga de água, e depois de tudo o que se sabe sobre as praxes, se continuam a permitir tais práticas, humilhações e crimes ano após ano, crimes esses teimosamente impunes? Para quando o fim das praxes? Para quando?

Entretanto chegam notícias da Serra da Estrela, onde dois estudantes foram despidos e agredidos, durante a noite, com pás enquanto estavam de gatas. Pedimos acção, clamamos justiça.