"O Estado é que devia estar na lista dos acusados”

Despacho de acusação é "uma ofensa e um insulto aos bombeiros", reage presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares. Ex-vice da Câmara de Pedrógão Grande, um dos 12 acusados, diz-se "abalado".

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Sem meios no terreno, bombeiros não conseguiram impedir que diferentes ignições se unissem num incêndio que alastrou a vários concelhos Adriano Miranda

Os bombeiros portugueses estão profundamente “desapontados e magoados” com a acusação do Ministério Público, no âmbito do inquérito aos incêndios de Junho do ano passado, porque, segundo o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Jaime Marta Soares, “o Estado é que devia estar na lista dos acusados, porque, ao longo dos últimos 50 anos, nada fez para ordenar a floresta”.

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Os bombeiros portugueses estão profundamente “desapontados e magoados” com a acusação do Ministério Público, no âmbito do inquérito aos incêndios de Junho do ano passado, porque, segundo o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Jaime Marta Soares, “o Estado é que devia estar na lista dos acusados, porque, ao longo dos últimos 50 anos, nada fez para ordenar a floresta”.

Na lista dos 12 acusados estão dois dirigentes da Protecção Civil e o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, aos quais são imputados 63 crimes de homicídio por negligência e 44 crimes de ofensa à integridade física por negligência, 14 dos quais graves.

“Estes homens [os bombeiros], responsáveis iniciais pelo combate inicial ao incêndio fizeram tudo o que tecnicamente lhe estava aconselhado. Seguiram as normas e as regras definidas para estas situações e se não puseram mais meios no terreno foi porque não os tinham”, acrescentou Jaime Marta Soares, para lembrar que a calamidade de Pedrógão Grande e de municípios vizinhos decorreu da confluência de vários incêndios e que “houve ao longo do dia vários pedidos de reforços: uns nunca chegaram e outros tardaram a chegar”.

Logo, “esta acusação é uma ofensa e um insulto aos bombeiros que todos os dias arriscam a vida para defender as pessoas, os bens e a floresta”. E porque o Estado, que “nada fez pelo ordenamento territorial da floresta, não surge sentado no banco dos arguidos”, o representante dos bombeiros qualifica este despacho de acusação como “um fait-divers político que traduz uma fuga para a frente do Estado que assim procura alijar as suas próprias responsabilidades”.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) é, para Jaime Marta Soares, “co-responsável pelo que aconteceu por nada ter feito e nada ter reivindicado relativamente à floresta portuguesa”. O porta-voz deste organismo recusou prestar qualquer declaração sobre a acusação do Ministério Público (MP).

Da lista de acusados sobressai ainda o nome do ex-vice-presidente da Câmara de Pedrógão Grande, José Graça, acusado de sete crimes de homicídio por negligência e quatro crimes de ofensa à integridade física por negligência. “Estou tão abalado. Não me parece razoável que esteja [constituído] arguido sem que eu próprio saiba muito bem porquê. Não me parece que me possa ser imputada alguma responsabilidade”, reagiu, em declarações ao PÚBLICO.

O MP acusa ainda dois responsáveis da EDP Distribuição e três da Ascendi. Contactadas pelo PÚBLICO, essas empresas preferiram não comentar. Com Rosa Soares