Portugueses na Venezuela estão apreensivos

Ministro dos Negócios Estrangeiros exigiu “acesso imediato” aos sete portugueses e aos cinco lusodescendentes, em seu entender, detidos “por incumprimento de uma lei que é impossível de cumprir”.

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LUSA/Miguel Gutiérrez

A conselheira das comunidades portuguesas Maria Lurdes Almeida não quer que se pense que há algum tipo de investida contra portugueses ou venezuelanos de ascendência portuguesa. A sua forte presença no sector da distribuição e do comércio, em particular alimentar, é que os coloca no epicentro do furacão.

“Estamos num momento muito, muito delicado”, começa por dizer. Dezenas de gerentes da Central Madeirense e da Excelsior Gama, ambas propriedade de famílias originárias de Portugal, indiciados por impedir o abastecimento de produtos básicos e por violarem as leis que regulam os preços. Já tinha havido notícia de casos pontuais. Nunca algo desta dimensão. “Isto está a gerar muita apreensão na comunidade portuguesa. Não sabemos o que havemos de fazer.”

É preciso recuar até quarta-feira, dia 19 de Setembro, para perceber a polémica que levou esta segunda-feira, dia 24, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a ter uma conversa com o seu homólogo venezuelano, Jorge Arreaza. Pegue-se no exemplo do luso-descendente Juan Humberto Herrera, de 45 anos, gerente da loja de Bello Monte.

Humberto ainda conseguiu mandar uma mensagem aos familiares que fazem parte de um grupo de WhatsApp, uma aplicação que serve para trocar mensagens e conversar. Avisou que estava a ser detido por ordem do Superintendencia Nacional para la Defensa de los Derechos Socioeconómicos, conhecida Sundde. Temia estar a ser levado para a principal agência de inteligência venezuelana, a SEBIN.

O irmão, Juan Carlos Herrera, e outros familiares precipitaram-se para a sede da daquele organismo. Quando lá chegaram perceberam que ele e os outros 11 gerentes estavam detidos nas instalações da Polícia Nacional Bolivariana, no Centro de Caracas. Só no dia seguinte lhes puderam entregar comida e medicamentos. 

Mais de 30 detidos

Na sexta-feira, o Presidente da República, Nicolás Maduro, confirmou que naqueles dias tinham sido detidos 34 gerentes, em várias zonas do país, suspeitos de pôr os preços que lhes apetecia e de açambarcar mercadorias. Já no sábado, pelo menos aqueles 12 viram ser-lhes decretada prisão preventiva.

“Temos esperança, mas estamos assustados”, afiança Juan Carlos. O irmão incorre numa pena de prisão até 15 anos. “Quando um Presidente da República diz em directo para todos os canais de televisão que eles são culpados, qual o juiz que vai dizer o contrário?”

Não esconde a indignação. Lembra que o irmão, como os outros, é um empregado. Embora ocupe um cargo de chefia, não define preços. E rejeita a possibilidade de ele andar a esconder produtos para manter as prateleiras vazias. José Godoy, pai de Ildegar Godoy, gerente da loja de Bello Campo, repete os mesmos argumentos. As prateleiras vazias, dizem, explicam-se com a parca produção nacional, o controlo de câmbio, a escassez de dólares para importar o que é preciso, a inflação galopante.  

Augusto Santos Silva exigiu “acesso imediato” aos sete portugueses e aos cinco lusodescendentes, em seu entender, detidos “por incumprimento de uma lei que é impossível de cumprir”. Ao que declarou à imprensa na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, vê naquela operação uma “iniciativa administrativa dirigida contra interesses portugueses na Venezuela”.

Jorge Arreaza negou qualquer acção contra portugueses, alegando ser aquela uma simples “detenção de gestores ou gerentes que não estavam a cumprir a lei”. Esta terça-feira, a imprensa Venezuelana destacou a dureza das declarações do ministro português falando nalguns casos em abalo das relações bilaterais

Sócios com dívidas

Contam historiadores como o luso-venezuelano António de Abreu Xavier que os portugueses desembarcaram entre 1948 e 1983. Os que trouxeram as poupanças feitas nas petrolíferas do Curazao rapidamente montaram os seus pequenos negócios. Os que vieram depois investiram a sua força braçal. Muitos converteram-se em "sócios com dívidas". E a país foi ficando pontuado por uma variedade de comércios e pequenas indústrias de portugueses.

A Central Madeirense é, de certa forma, simbólica da participação dos portugueses na economia da Venezuela. Começou por ser uma mercearia em 1949. Num instante, se transformou num supermercado. Em 2004, era uma cadeia de 45 lojas. Agora, tem 52 em 11 estados.

Não é só aquela rede. Seis das principais redes de supermercados do país pertencem a famílias originárias de Portugal. “Embora tenham sido criadas por portugueses, estas empresas são venezuelanas, de capital venezuelano”, sublinha o conselheiro das comunidades portuguesas Leonel Moniz, vice-presidente da Câmara Venezuelana Portuguesa de Comércio, Indústria e Turismo do Estado de Carabobo. “Os empresários têm medo de fazer investimentos, porque neste momento as margens de lucro são mínimas. Acho que isto foi uma forma de o Presidente os pressionar a tomarem decisões diferentes.”

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