“Os polícias davam socos, pontapés. Estavam a gostar. Parecia o inferno”

Flávio Almada, da direcção do Moinho da Juventude, reviveu nesta sexta-feira no Tribunal de Sintra o dia 5 de Fevereiro de 2015. Disse ter sido brutalizado pelos agentes da Esquadra de Alfragide. E contradisse a versão dos polícias que o acusaram e a seis jovens de tentativa de invasão da esquadra.

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LUSA/MIGUEL A. LOPES

Três anos e meio depois, Flávio Almada não sabe precisar alguns pormenores do dia 5 de Fevereiro de 2015, cujos acontecimentos levam 17 agentes da Esquadra de Alfragide a julgamento, acusados de falsificação de auto, tortura e racismo a seis jovens da Cova da Moura.

Mas há momentos sobre os quais disse não ter dúvidas. Esta sexta-feira descreveu ao colectivo de juízes de Tribunal de Sintra o episódio em que fiz ter sido brutalizado, depois de ter ido à esquadra saber o que tinha acontecido a Bruno Lopes, detido horas antes no bairro da Cova da Moura: “Disseram: ‘o lixo é para o chão.’ Sou atirado ao chão e as agressões continuam, dão pontapés, dizem — desculpe a expressão — ‘pretos do caralho’ e um conjunto de insultos. Sempre que passavam pisavam-nos. De repente alguém deu-me um pontapé na cara, fiquei cheio de sangue e parti um dente. Davam socos, pontapés." Enquanto descreve isto, Flávio Almada faz uma pausa no relato. Emociona-se. Embarga a voz para dizer: "E depois gostavam daquilo. Estavam a gostar daquilo. Parecia o inferno.”

Lembrando o momento em que aparece outro dos jovens, Rui Moniz, que tem um problema no braço por causa de um AVC, contou ainda que os polícias lhe perguntaram “como é que ele tinha apanhado aquilo” — a tala que trazia no braço. “Depois disseram que ele agora é que ia apanhar a sério. Tiraram o cartão de cidadão dele e disseram: este é ‘pretoguês’.”

Emociona-se novamente, chora. A sessão é interrompida por uns minutos.

A acusação do Ministério Público divide-se em dois momentos: um primeiro, em que uma equipa da PSP vai à Cova da Moura fazer patrulhamento e detém Bruno Lopes, alegando que este tinha atirado pedras à carrinha da polícia — aí, um agente terá disparado dois tiros e atingido duas moradoras; e um segundo momento, quando alguns jovens, entre eles Flávio Almada e Celso Lopes, membros da Associação Moinho da Juventude (AMJ), instituição galardoada com prémio de Direitos Humanos da Assembleia da República, se dirigem à esquadra para pedir esclarecimentos mas acabam detidos e acusados de invasão.

No tribunal, Flávio Almada descreveu sobretudo o segundo momento, já que não presenciou a detenção de Bruno Lopes. Explicou como, enquanto membro da direcção da AMJ, foi à “esquadra antiga” – ou seja, à Esquadra de Intervenção e Investigação Criminal que não tem atendimento ao público e fica mesmo em frente a um novo edifício onde funciona a 64ª Esquadra, essa sim com atendimento.

Técnico do Centro de Actividades de Tempos Livres da AMJ, Flávio Almada relatou o que se segue. Saiu da Rua do Moinho com Celso Lopes, mas no caminho encontrou Miguel Reis, e convidou-o para ele ir com eles. “Era bom porque ia aprender como falar com os agentes. Eu tinha tido formação de comunicação não-violenta e como o Moinho tinha feito um trabalho de proximidade com a polícia achei importante ele vir”.

No caminho, mais dois amigos de Bruno Lopes juntaram-se. Chegaram à porta da esquadra seis pessoas e avistaram três agentes. Identificaram-se como membros da AMJ e pediram para falar com o chefe, contou. “O (polícia) que estava na entrada fez um movimento com o corpo e disse: ‘aqui não vão entrar’.”

A intenção era fazerem o caminho de volta. Celso Lopes ainda tentou agarrar no telemóvel para avisar alguém no Moinho que não tinham conseguido saber mais informações, mas nem chegou a fazer a chamada. “Ouvimos um deles (polícias) gritar: ‘malta venham cá’. Saíram muitos agentes e começaram a manipular uma arma. Essa imagem tenho muito clara na cabeça. Disseram: ‘baza daqui’. E começaram a dar pontapés e socos.”

Com voz pausada, a juíza questiona: “O que é que motivou esse tipo de reacção? Falaram de um modo mais agreste? O que é que potenciou o que me está a dizer?” Respondeu: “Não consigo perceber qual o motivo daquela postura”.

Negou ter existido qualquer tentativa de forçar a entrada ou algum gesto “mais bruto” que induzisse aquela reacção dos agentes. “Uma das coisas que aprendi na formação sobre comunicação não-violenta é que nestas situações é importante não pressionar, afastar para não dar conflito.”

 A seguir lembra-se de ter ouvido um primeiro tiro e depois um segundo, que acertou em Celso Lopes. “Foram para cima dele, ele olhou para mim e disse: ‘estás a ver o que me estão a fazer?' Depois escuto alguém a dizer: ‘agarra aquele que tem a mania que é inteligente'. Vem um agente com uma postura agressiva, pergunto: ‘o que estou a fazer?’ Ele pára por um segundo e dá-me um soco, pontapés nas costas, só ouço ‘filho da puta’”.

Isto tudo se passou da parte de fora das instalações da esquadra antiga, junto à esquadra nova. “O Celso já tinha levado um tiro. Eu estava com medo, o meu corpo parece que ficou bloqueado, posso dizer: petrificado.”

De seguida foram levados para dentro da esquadra antiga. Depois das agressões, viu os agentes limparem o sangue e colocaram-nos num banco. “Não podíamos levantar a cabeça. Diziam ‘baixa a cabeça, baixa a cabeça’”.

Nessa altura, Flávio Almada conta que perdeu a noção do tempo. De seguida lembra-se que seriam transportados para uma outra esquadra na Damaia, onde seriam identificados só que, devido às lesões na cara, Flávio Almada não seria fotografado. Estavam na esquadra antiga quando chegaram os bombeiros e o INEM para os levar para o Hospital da Amadora. Numa sessão anterior Zulmira Coelho contou que ao fim do dia foi ao hospital e viu Flávio Almada e Celso Lopes a sair, um estava a coxear e o outro era amparado porque andava mal.

O dia acabou com os jovens a serem transportados para uma esquadra em Moscavide onde pernoitaram, mas ainda na carrinha houve um agente que lhe disse “não sabem como vos odeio, raça do caralho, se pudesse seriam todos exterminados”, segundo Flávio Almada.

A juíza quis que Flávio Almada dissesse que mais ofensas tinham sido proferidas pelos polícias: “Diziam que íamos ser esterilizados, íamos ficar na ala dos violadores e que iam pôr um cabo de vassoura no rabo, para nos alistarmos no Estado Islâmico”.

A determinada altura, a juíza perguntou se aqueles acontecimentos eram algo que já estava resolvido na sua vida. “No início tinha problemas em dormir. Tinha tendência para me isolar, ficar no meu canto. Sentia-me humilhado quando os miúdos me perguntavam por que é que aquilo tinha acontecido. Vou carregar isso para o resto da vida.”  

Duas horas e meia não foram suficientes para o colectivo de juízes, o Ministério Público e os advogados de ambas as partes - que não conseguiram fazer perguntas - esclarecerem as suas dúvidas. O depoimento de Flávio Almada prossegue na próxima terça-feira de manhã.

Antes, outro funcionário do Moinho, Nelson Gomes, contou como testemunha que ouviu dentro do seu escritório vários tiros de caçadeira – primeiro um, seguido de uma interrupção e de “quatro ou cinco” tiros.

Questionado pela advogada das vítimas sobre se a hipótese de tentativa de invasão da esquadra por pessoas como Flávio Almada era verosímil, respondeu: “Não acredito”.

Este tem sido, aliás, o testemunho de outros funcionários. Na semana passada, uma colega de Flávio Almada, Rosário Mendes, afirmou que ele trabalha com crianças do 2º e 3º ciclo. “É uma pessoa que tem muita influência nos jovens. Os jovens recorrem muito a ele. Nunca o vi ser agressivo verbal ou fisicamente”.