Orquestra Jazz de Matosinhos inaugura a casa que sempre quis

Prestes a cumprir vinte anos, a orquestra fundada e dirigida por Pedro Guedes e Carlos Azevedo festeja esta sexta-feira à noite a mudança para a sua nova casa, no quarteirão da Real Vinícola, onde disporá de condições ideais para ensaiar e gravar, mas também para reforçar o seu serviço educativo.

A nova sala de ensaios e estúdio de gravação da Orquestra Jazz de Matosinhos
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A nova sala de ensaios e estúdio de gravação da Orquestra Jazz de Matosinhos André Rodrigues
Pedro Guedes
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Pedro Guedes André Rodrigues
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O pátio exterior onde decorrerá o concerto com Manuel Cruz André Rodrigues
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O espaço da régiez André Rodrigues
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Pormenor da sala de ensaios André Rodrigues

“Tenho de ser sincero: não conheço nenhuma orquestra de jazz no mundo que tenha estas condições”, reconhece Pedro Guedes ao iniciar uma visita guiada pelas novas instalações de que a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM) a partir de agora dispõe no requalificado quarteirão da Real Vinícola, que partilha com a Casa da Arquitectura, a recém-inaugurada loja da Porto Design Biennale e outros equipamentos culturais e comerciais.

Com uma área total de cerca de 800 metros quadrados, o espaço projectado pelo arquitecto Guilherme Machado Vaz para a OJM inclui um Centro de Alto Rendimento Artístico (CARA) com duas salas de estúdio com excelentes condições técnicas para gravação: uma maior, com 175 metros quadrados, e uma menor, separada da anterior por um grande vidro que assegura o contacto visual entre ambas, e que permite registar uma voz isolada ou um solista. "Queremos que este seja um espaço de experimentação, temos aqui condições para fazer coisas incríveis", garante Pedro Guedes.

Além destas salas, rodeadas com diferentes tipos de madeira minuciosamente escolhidas para proporcionar as condições acústicas ideais, de outros espaços técnicos e de uma área de escritórios no primeiro andar, a nova casa da OJM dispõe ainda de uma ampla zona de recepção que Pedro Guedes quer que funcione também como sala de aula. “Como achamos que o futuro das artes passa pela tecnologia e pelos novos media, temos uma parceria com a Faculdade de Engenharia e o INESC-TEC [Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência] e queremos ensinar programação aos estudantes do concelho, recebê-los aqui e retribuir um pouco tudo o que a Câmara de Matosinhos nos tem dado”, diz o músico.

Para festejar a inauguração da sua nova casa, a OJM toca esta tarde para convidados e dá à noite, a partir das 22h00, um concerto de entrada livre no seu estúdio principal, cujas dimensões não permitem acondicionar mais do que 200 pessoas, pelo que os interessados deverão inscrever-se previamente através do e-mail [email protected]. O programa será inteiramente preenchido por temas originais de Pedro Guedes e Carlos Azevedo, que neste momento decisivo de um percurso que começou há 21 anos, se contarmos o período em que a futura OJM se chamava ainda Héritage Big Band, acharam que deviam tocar a música que esteve na génese da orquestra.

No dia seguinte à tarde haverá visitas guiadas às novas instalações, durante as quais os visitantes poderão ainda experimentar um software que lhes permite vestir a pele de um músico de jazz, usando o computador para improvisar com um saxofone ou uma bateria. Mas a grande festa de inauguração está marcada para a noite de sábado, com um concerto ao ar livre no amplo espaço exterior do quarteirão da Real Vinícola, onde a OJM, repetindo uma experiência ensaiada em Junho na Casa da Música, partilhará o palco com Manuel Cruz, interpretando temas dos Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido ou Supernada com novos arranjos compostos pelos músicos da orquestra.

“Queríamos que a população viesse cá descobrir este espaço e celebrar connosco, mas este concerto com o Manuel Cruz”, diz Pedro Guedes, “é também um modo de mostrar uma faceta importante do nosso trabalho, que é o das colaborações, muitas vezes nada óbvias, que fazemos com outros artistas”.

Há muito confinada a instalações onde apenas cabiam os serviços da associação que gere a orquestra, a OJM ensaiava na Casa da Música desde a sua abertura, em 2005. Uma solução de recurso, mas que acabou por influenciar a própria evolução do projecto. Como o acordo com a Casa da Música incluía o compromisso de apresentar três espectáculos por ano, a orquestra de autor que a OJM fora desde a sua génese sentiu a necessidade, sem abandonar essa sua matriz, de se transformar também numa orquestra de reportório, nota Pedro Guedes. “Até essa altura", lembra, "só tocávamos música minha e do Carlos Azevedo”.

A parceria com a Casa da Música irá manter-se ao nível da programação. “O que muda é que agora temos condições para receber os agrupamentos que quiserem vir cá gravar: o Remix, a Orquestra Barroca, o Coro, só a Orquestra Sinfónica é que dificilmente caberá aqui”, observa o director da OJM.

E a própria orquestra pode finalmente começar a gravar em casa os discos que até agora se tem visto obrigada a gravar fora, e que dão testemunho de algumas das suas colaborações mais significativas, como Orquestra Jazz de Matosinhos Invites: Chris Cheek (2006), Portology (2007), com o compositor e saxofonista Lee Konitz, Our Secret World (2010), com o guitarrista Kurt Rosenwinkel, Amoras e Framboesas (2011), com a cantora Maria João, ou Bela Senão Sem (2013), com o compositor e pianista João Paulo Esteves da Silva.