A toque de piano

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RICARDO JORGE CARVALHO

A Orquestra Jazz de Matosinhos convidou o pianista João Paulo Esteves da Silva e reinventou as suas composições. Uma parceria agora editada no disco Bela Senão Sem, com apresentação ao vivo na Culturgest, em Lisboa, na próxima quinta-feira.

A Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM) não é apenas a melhor big band nacional - é já uma referência internacional, com um currículo invejável que inclui colaborações com músicos de dimensão global como Lee Konitz, Kurt Rosenwinkel, Carla Bley, John Hollenbeck ou Maria Schneider (e atenção, a lista foi encurtada para evitar o excessivo namedropping). Algumas dessas parcerias foram gravadas para a posteridade e a orquestra começa já a ter uma discografia séria, sendo o seu volume mais recente dedicado à parceria com a cantora Maria João. Elogiada pela excelência dos seus instrumentistas, tem funcionado quase como uma escola: muitos dos músicos nacionais cujo nível é hoje reconhecido, formaram-se a tocar na orquestra - são os casos de José Pedro Coelho, João Guimarães ou Susana Santos Silva.

Dirigida por Pedro Guedes e Carlos Azevedo, a OJM dá agora continuidade a uma colaboração com o pianista João Paulo Esteves da Silva, nome maior da constelação jazz nacional. O projecto resultou na edição de um disco e em várias apresentações ao vivo - a próxima das quais se fará na Culturgest, em Lisboa, já na quinta-feira que vem, dia 7. Uma parceria que passa não só por oferecer o lugar de solista convidado ao pianista, mas também pelo trabalho de adaptação das suas composições ao formato big band.

"A ideia da colaboração não é de agora", confessa o pianista ao Ípsilon: "Há já muito tempo que eles me tinham desafiado, mas eu demorei bastante a sintonizar-me". O projecto começou a ser esboçado com uma encomenda feita por um grupo de músicos ligados à OJM para um festival na Galiza, cujo programa era música de compositores galegos e portugueses com uma componente tradicional. João Paulo escreveu na altura uma peça e com isso percebeu que a sua música podia resultar trabalhada com uma big band. Essa peça, intitulada Pode ser uma serra, foi agora repescada, adaptada e incluída no disco.

Transformar a música de João Paulo - bastante diferente do típico jazz, swingante e efusivo - em matéria orquestral poderia não funcionar, poderia soar estranho. "Para mim o resultado da adaptação à big band era uma incógnita", diz-nos. Agora, depois de feito o trabalho, o pianista mostra-se feliz com o resultado, embora este fuja de parâmetros convencionais. "O disco prova que sim, é possível, mas puxa a orquestra para fora da tradição, não é música de big band tradicional. É a minha música dentro de um jogo tímbrico diferente, proporcionado pela orquestra." Com arranjos repartidos entre os dois directores da orquestra, Guedes e Azevedo, e o próprio Esteves da Silva - na opinião do pianista, "muito bem conseguidos" -, o projecto mostra que tem pernas para andar e reafirma a versatilidade da OJM.

Reconhecimento

Um dos temas menos convencionais do disco a ser apresentado ao vivo será Fantasmas, uma improvisação semi-dirigida. Nesta peça, enquanto o pianista improvisa livremente, o maestro orienta a orquestra numa improvisação conduzida em tempo real, com algumas indicações preliminares mas muito espaço em aberto para a interpretação. É um dos maiores desafios do projecto: "Parece impossível, mas com algumas regras, com a definição de um vocabulário prévio, consegue-se improvisar com um grupo grande de instrumentistas." A disponibilidade e a entrega dos músicos da OJM é a chave do sucesso: "Por vezes o problema nas orquestras é que há pessoas que estão lá com a atitude de quem está a cumprir uma função, como num escritório. Tens este programa para ensaiar, das tantas às tantas, tocas as notas todas, fazes o que o maestro te pede, mas não pões o coração na música. Na OJM isso não acontece, está toda a gente a tocar com prazer, ninguém está ali apenas pela obrigação ou pelo dinheiro."

Com uma carreira que já vai longa, iniciada em colaborações com alguns dos grandes nomes da música popular portuguesa como Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino ou José Mário Branco, João Paulo Esteves da Silva criou posteriormente o seu próprio caminho, juntando um grupo estável (com o saxofonista Peter Epstein e o contrabaixista Carlos Bica) com o qual gravou vários discos. Nos últimos anos intensificou a actividade e explorou diversos formatos, tendo gravado a solo (Roda, Memórias de Quem e White Works), em duo com Dennis González (Scapegrace e So Soft Yet) e integrado no grupo Matéria Prima, de Carlos Bica. Actualmente, reparte a sua atenção entre o trio No Project (com Nélson Cascais e João Lencastre) e uma parceria com Ana Brandão. Tem ainda prevista, para breve, a edição de um novo disco a solo. Para um músico com a sua história e a sua longevidade criativa, o convite da OJM poderá ser interpretado como uma espécie de homenagem: "Representa para mim um reconhecimento inter-pares e também um reconhecimento institucional, uma vez que a orquestra já se tornou uma verdadeira instituição".

O disco que regista agora esta colaboração tem como título Bela Senão Sem, subversão do trocadilho "não há bela sem senão". Explica Esteves da Silva: "Quando dás a volta ao trocadilho será que dizes uma coisa muito diferente do que estava dito antes? Estás a subverter o trocadilho mas a jogar com os mesmos elementos...". Intrigante, o título acaba por funcionar como óptima metáfora para o trabalho que a OJM faz com a música do pianista - utilizando elementos da música de João Paulo, a orquestra subverte-a e apresenta-a noutros formatos. Subvertida, sim, mas intocada na sua essência.