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Palavra de Aurélio

Cônjuge

Vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa.

Icem as bandeiras nos mastros solenes, hasteiem os estandartes nas torres mais altas, tragam os pendões das arcas canforadas, devolvam à luz as flâmulas festivas, resgatem às trevas os pavilhões genealógicos, desempoeirem as insígnias heráldicas dos Casal Midos, pois é hora de fazer chegar aos confins das sete terras e dos sete mares notícia de que nobre noiva primogénita do meu castelo e seu noivo decidiram, de sua livre e espontânea vontade, solenizar em casamento de lei aquele que já era um casamento natural, naturalmente.

Os preparativos já me assoberbam. É preciso que tudo entre no cumprimento escrupuloso da mais estrita tradição de protocolo e etiqueta: há que conferir as librés do tempo de D. João VI, há que contratar cocheiros e tocadores de clarins e de trombetas em número conveniente para cobrir as ameias, há que arear as baixelas de prata, limpar as vidraças das 82 janelas, lavar as cortinas e reposteiros de cambraia e veludo, respectivamente. E flores, flores por toda a parte, às centenas, aos milheiros, como se fôssemos beneficiários dos fabulosos rendimentos fundiários do passado ou dos lendários subsídios comunitários a fundo perdido do presente. E contratar algumas figuras da TV e da canção, para abrilhantar os festejos, em várias funções a que se adequarem, nem que seja para puxar as carruagens do cortejo nupcial a caminho da catedral.

Estava eu embrenhado em toda esta planificação imaginária, com a ajuda de uma versão manual viável do execrável Excel (e entre apontamentos para uma palestra que darei em breve sobre o aproveitamento gastronómico multiforme da batata), quando recebi o abanão da fria consciencialização de que os noivos iriam exercer o seu direito de preferência, chamando a si, temerariamente, a organização de tão complexa empresa. Não posso negar um instintivo arregalar de olhos e um ranger de dentes, antevendo (por favor, não digam “antecipando”) um arranhão quiçá indelével no verniz dos pergaminhos avoengos, se é que a imagem de pergaminhos envernizados não indisporá estômagos literários mais sensíveis, supondo que os há entre os meus magníficos leitores. Mas o que posso fazer senão deixar-me ir no vento do lado que ele soprar, enrijecido que estou por esta sequência de adversidades que é muito deste forrobodó republicano, embotador dos brilhos das fidalguias de cepa? Seja o que os noivos quiserem...

Tão súbito alívio de preocupação deixou-me, pelo menos, um pouco mais livre para iludir um pouco mais aqueles que ainda me procuram para ouvir falar de palavras, ocupando-me hoje de uma que tem andado um pouco maltratada, envolvida em picardias e escaramuças, que é “cônjuge”, e que vem totalmente a propósito da envolvência conjuntural familiar aludida. Sendo vocábulo mais habitualmente ouvido em contexto de direito da família, em linguagem jurídica (lembro-me, por exemplo, do “cônjuge sobrevivo”), sem dúvida herança do direito romano, merece a nossa ponderação, apesar da sua subalternidade em relação ao uso que se faz dos seus sinónimos esposo e esposa (sobretudo esta) e, mais ainda, marido e mulher.

Também ninguém diz “conjungir” quando quer dizer casar, mas poderia dizer, porque é bonito, assim como “conjungo” para dizer “eu uno”, o que ainda é mais bonito, mas há realmente limitações vocálicas que não nos permitem dizer tudo o que gostaríamos (lembremo-nos de opróbrio, lembremo-nos de desjejum, de procrastinar, de ranunculáceo, de condrioconto, de Terpsícore, de hiperortografismo, de saxifragáceas, de pentemímere, para citar apenas casos muito óbvios).

Cônjuge, infelizmente, é uma dessas palavras a que a língua não chega, o que leva muita gente a pronunciá-la como “cônjugue”, como se tivesse mais um “u” que, de facto, não tem. Mas sei de fonte limpa que isso não se deve a reconhecerem “jugo” na raiz de “cônjuge”, mas apenas a uma defesa pessoal básica de se furtarem ao embaraço de produzir, em público, uma sonoridade estranha e, pior do que isso, ridícula. É do senso comum e das regras básicas da erudição social que um profundo disparate é menos ridículo do que um arcaísmo: um disparate toda a gente entende, ao passo que para entender um arcaísmo é preciso um dicionário. E um dicionário não é coisa que se traga no bolso ou na carteira. No máximo, para resolver uma dúvida na praia ou no meio do trânsito (ou, mais frequentemente, uma aposta), consultam-se os dicionários “online”, que são muito populares porque já incluem os disparates mais modernos.

Note-se, por outro lado, que, não obstante a vergonha de se chamar cônjuge a alguém com quem se está casado, já não há reservas quanto ao uso de “conjugal”, que é da mesma família, mas muito mais em voga, umas vezes sugerindo imagens de concórdia e delícias legítimas, outras convocando políticas de terra queimada, conforme as experiências vividas pelos sujeitos falantes eufóricos ou por aqueles em estado catatónico, respectivamente. Já “conjugar” está de tal modo ligado ao seu significado gramatical e à dor de cabeça dos verbos irregulares, que se perdeu a noção de que quer dizer, simplesmente, “ligar”, “unir”. E, mais simples ainda, “jugo”, que é uma coisa lá do campo, lá da terra dos avós ou dos primos afastados (atrasados?), ou das histórias da carochinha, só se conhece como adereço para autenticar uma parcela de monte em que se construiu um barraco de férias e a que se procura dar o toque rural autêntico. Isso e a roda de carro de bois envernizada ou uma ou outra mó. Mas jugo é tudo aquilo de que toda a gente se quer livrar para ser feliz, portanto, não é nada que, neste momento, esteja na mó de cima.

Actualizando, para os interessados, o tal casamento com que se abriu não muito discretamente esta crónica, informo que correu lindamente, acrescentando-me um genro oficial a um oficioso, num mais que composto ramalhete de parentela invejável. Os festejos duraram até às tantas e, se bem que não tenha havido a costumeira salva de 21 tiros de canhão nem o desfile da charanga da Guarda Nacional Republicana, esta por razões evidentes, os convivas que ainda se conseguiam manter de pé às primeiras horas da manhã do dia seguinte foram unânimes em elogiar o clima de tranquilidade e convívio unificadores que sentiram durante a boda, pormenor que muita canalização de verbas e de ostentação não tem conseguido obter por esse mundo fora.

Citando o histrionismo do meu amigo Paulo Pimenta: “Muito bem!... Muito bem!...”   

Correio Premente

De João Pedro Malpique de Paiva Lopes, lugar de Xangai, freguesia de Santiago de Riba-Ul, concelho de Oliveira de Azeméis: “Esperei, debalde, que na sua última crónica abordasse a irritante utilização que agora se faz de ‘solarengo’ como se fosse sinónimo de ‘soalheiro’. Mas nem uma palavra sobre o assunto. O que também foi irritante. É preciso dar um murro na mesa e dizer: ‘Leiam! Estudem! Voltem para a escola! Aprendam que solarengo é referente a solar, mas não a solar de Sol, a solar de casa, de casa senhorial. Como a d’Os Fidalgos da Casa Mourisca, do Júlio Dinis, ou A Ilustre Casa de Ramires ou o Ramalhete d’Os Maias, de Eça de Queirós. Ou os autênticos solares de Mateus e da Brejoeira. Mas o Sr. nada disse.”

Não disse, mas pensei, quando já era tarde e Inês era morta. Mas o Sr. pensou e disse, salvando-nos aos dois: a mim, do lapso; a si, do anonimato. Queira a excelentíssima Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, na figura dos não menos excelentíssimos edis, fazer jus, em cerimónia pública, a tão eminente filho da terra, para dizer pouco de quem tanto fez. Os meus agradecimentos.