Reportagem

Foi bonito: os Kruder & Dorfmeister levaram a música, os bombeiros agradeceram e dançou-se em Odeceixe

A dupla austríaca que na década de 90 se tornou emblema de música elegante e requintada actuou esta quinta-feira na vila de Odeceixe, em solidariedade com os bombeiros locais. Este sábado estará em Lisboa.

Fotogaleria
Peter Kruder e Richard Dorfmeister no final da sua actuação Marta Rodriguez
Fotogaleria
Marta Rodriguez
Fotogaleria
Marta Rodriguez
Fotogaleria
Marta Rodriguez

“O que raio estão a fazer aqui os Kruder & Dorfmeister com os bombeiros?”, perguntou ele, incrédulo, olhando para a confraternização entre Richard Dorfmeister e Peter Kruder, a dupla que colocou Viena no mapa da música popular globalizada em meados dos anos 1990, e um grupo de bombeiros voluntários de Aljezur. O actor brasileiro Rui Maurício, de passagem por Odeceixe, ali onde o Alentejo litoral acaba e o Algarve começa, havia sido atraído pelo ensaio de som, aproximara-se do pátio da sede do Grupo Desportivo Odeceixense, e agora já só queria saber onde comprar bilhetes para assistir à actuação que iria ocorrer à noite. Mas bilhetes nem vê-los.

Os 500 que foram colocados à venda algumas semanas antes esgotaram num ápice, explicou-nos então o bombeiro Gonçalo Raimundo, um dos responsáveis pela prestação solidária dos austríacos a favor dos bombeiros locais. Foi há um ano que tudo começou. Gonçalo Raimundo estava em casa quando recebeu a visita do vizinho Soenke Lohse para jantar. Acontece que o alemão, que tem uma casa no centro da vila há 21 anos, é o agente e manager dos Kruder & Dorfmeister desde sempre. “Na TV passavam imagens devastadoras de incêndios em Portugal”, recorda Soenke, “e começávamos a falar sobre os meios escassos que por vezes as corporações têm quando surgiu a ideia de fazer qualquer coisa com os Kruder & Dorfmeister de forma gratuita, doando a receita aos bombeiros.”

Quando Soenke perguntou à dupla se alinhava a resposta foi de imediato afirmativa. “Eles já tinham estado aqui na vila há uns dez anos, quando actuaram no festival Sudoeste, e adoraram. A mãe do Gonçalo, a Joana, tinha à data um restaurante e cozinhou para eles, e durante muito tempo o Peter Kruder não se calava com essa experiência”, ri-se Soenke. "Acabou mesmo por regressar mais tarde com toda a família”, acrescenta.

PÚBLICO -
PÚBLICO -
Foto
Marta Rodriguez

Os Kruder & Dorfmeister, que actuam este sábado no Lux-Frágil em Lisboa, no âmbito das celebrações dos 20 anos daquele espaço, estão também em comemorações. Neste caso são os 25 anos de carreira, que os têm levado a esgotar salas de prestígio em capitais europeias. “A única condição que eles colocaram é que tinha de ser algo diferente do que andavam a fazer, num cenário intimista, na própria vila”, revela Soenke.

E foi aí que surgiu a hipótese do pátio semicoberto da sede do Grupo Desportivo Odeceixense, com toda a vila a empenhar-se na realização do acontecimento. “Há uns meses o Soenke e o Gonçalo vieram ter comigo, e quando percebi que era uma acção solidária para com os bombeiros, dos quais também faço parte, de imediato me pus à disposição deles para o que fosse preciso”, revela o Presidente da Junta de Freguesia Carlos Vieira, que também já foi presidente do Grupo Desportivo Odeceixense, enquanto ajuda os bombeiros no arranjo do espaço. “Esta acção serve para angariar fundos para os bombeiros, mas também vai servir para divulgar a vila”, acaba por dizer.

Numa vila remota...

À hora marcada, o espaço enche-se. Os bilhetes de 20 euros – que deverão "gerar uma receita de cerca de dez mil euros”, afirma Gonçalo – há muito que estão esgotados, mas especula-se que algumas pessoas, percebendo o interesse que o evento suscitara, terão optado por revender os seus ingressos por um preço bem mais elevado. Não foi o caso de Susana Peralta, que veio de Beja. “Não podia perder isto por nada deste mundo, adoro os Kruder & Dorfmeister desde sempre e vê-los aqui neste ambiente é muito especial”, explica. Entre a assistência há pessoas da localidade, há gente de férias na zona e há quem tenha vindo de longe.

PÚBLICO -
Foto
Marta Rodriguez

“Vim de Vila Franca de Xira”, revela Mário Gomes. “Gosto deles, mas a ideia da experiência de estar aqui também me seduziu. Podia ir vê-los ao Lux, como a maior parte dos meus amigos, mas não seria a mesma coisa”, ri-se enquanto mastiga um rissol e bebe um copo de vinho (antes já tinha provado licor de medronho e filhoses), confessando que o facto de a namorada ter uma casa em Aljezur ajudou à decisão.

Na pista de dança improvisada ninguém pára. Percebe-se que são conhecedores. Quando a dupla lança uma remistura da sua autoria, ouvem-se gritos de entusiasmo. Começaram com temas de balanço tranquilo, mas aos poucos o dinamismo rítmico vai-se impondo. É nítido que para Peter Kruder e Richard Dorfmeister é também uma ocasião especial. Horas antes, em conversa com o PÚBLICO, confessavam que nas últimas semanas o facto de irem actuar “numa vila remota do Alentejo”, como diz Dorfmeister, era “um dos principais assuntos de conversa” entre os dois.

Ajudar um pouco

Quando se afirmaram globalmente, em meados da década de 1990, os Kruder & Dorfmeister foram logo conotados com uma certa elegância e requinte, impondo uma música perfumada por linhas de baixo redondas, ritmos vaporosos e horizontes urbanos feitos de alguma melancolia, num todo inspirado em linguagens como o dub, o hip-hop, o deep-house ou o jazz. Durante anos, a marca K&D produziu algumas das melhores remisturas da história da pop (em parte agrupadas no álbum The K&D Sessions, de 1998) e alimentou os sonhos daqueles que ansiavam pela possibilidade de ouvir um álbum de originais da dupla. Mas os projectos paralelos de Kruder (Peace Orchestra e Voom: Voom) e de Dorfmeister (Tosca) foram adiando essa possibilidade. Até hoje. Quando lhes perguntamos, em jeito de brincadeira, quando sai o tão ansiado álbum, irrompem em gargalhadas.

“Ao longo dos anos fomos desenvolvendo os nossos projectos, gostamos de fazer espectáculos em conjunto e é óptimo perceber que as pessoas mantêm um grande interesse pelo que fazemos”, reflecte Kruder, “só isso viabiliza, por exemplo, que possamos estar hoje aqui, neste sítio maravilhoso, tentando ajudar um pouco da única forma que sabemos”.

PÚBLICO -
Foto
“Ao longo dos anos fomos desenvolvendo projectos, gostamos de fazer espectáculos em conjunto e é óptimo perceber que as pessoas mantêm um grande interesse pelo que fazemos”, reflecte Peter Kruder. No final Dorfmeister e Kruder assinaram autógrafos. Marta Rodriguez

Ao lado dos Fila Brazillia, Jazzanova, Two Banks Of Four ou Boozoo Bajou, a dupla mostrou a toda uma geração que era possível fazer música sofisticada a partir de um rudimentar estúdio caseiro. Depois parece ter feito a sua travessia do deserto. E agora parece existir um renovado interesse à sua volta. “Temos sido maravilhosamente recebidos onde temos ido, com salas cheias e pessoas entusiasmadas. É como se nunca tivéssemos parado na verdade. O último ano tem sido mesmo fantástico”, afiança Dorfmeister. E Kruder completa: “São normais estes ciclos. Há alguns anos a indústria pegou em imensas coisas que estavam a acontecer semelhantes àquilo que fazíamos. Talvez se tenha exagerado um pouco. Nem sempre se consegue controlar essas dinâmicas. Agora com a distância volta a ser possível ver as coisas boas.”

Ao longo dos anos, actuaram com frequência em Portugal (Dorfmeister foi mesmo responsável por uma das maiores enchentes do Lux-Frágil nos primeiros tempos de funcionamento do espaço, em 1999), ao mesmo tempo que mantiveram cumplicidade com a editora portuguesa Nylon. Agora mais um elo se fortifica. “Estamos muito contentes com tudo isto”, afirma Gonçalo, recordando o incêndio de grandes dimensões que lavrou em Monchique no início de Agosto, e o “facto de o dinheiro ser sempre uma ajuda importante”. Mas vai mais longe: “Às vezes não é só o dinheiro. Este sentimento de entreajuda que se criou à volta disto, o sentimento de pertença que se gerou, isso também é muito importante.”

Durante três horas, os Kruder & Dorfmeister não pararam. No final ouviram-se muitas palmas e Margarida Garcia, vinda de Lisboa, dizia que havia sido “maravilhoso”, enaltecendo o ambiente popular, mas ao mesmo tempo a tranquilidade com que tudo foi vivido e “o sentimento de festa”. Quem também por lá andou foi Rui Maurício: “Perdi o amor a algum dinheiro e comprei um bilhete a um preço proibitivo. Que se lixe! É uma vez. Não podia perder isto por nada deste mundo.”