Opinião

Argentina, um país confiável

A Argentina prossegue a rota de normalização institucional, de diálogo com o exterior e de liberalização responsável da sua economia.

A forma como o Presidente Mauricio Macri respondeu, ao longo dos últimos dias, às recentes dificuldades económicas reforçou a credibilidade da Argentina junto do empresariado estrangeiro e do concerto das nações.

Desde logo porque o Governo falou verdade. Não desvalorizou a conjuntura nem se demitiu de explicar às populações, sem eufemismos, a raiz dos desequilíbrios e a melhor solução para os problemas. Sendo um momento de emergência, foram exactamente essas - e não outras - as palavras que o Presidente Macri utilizou na sua declaração ao país.

Não obstante a principal fonte de pressão ser a apreciação do dólar norte-americano, este Governo argentino não aponta o dedo ao estrangeiro nem tão pouco renuncia à abertura da economia, consubstanciada em medidas como a liberalização do câmbio e o fim das restrições ao repatriamento de dividendos.

Pelo contrário, o Governo mantém-se empenhado em melhorar a percepção de risco do país nos mercados internacionais e conta nesta etapa com o apoio e o financiamento do Fundo Monetário Internacional.

Em segundo lugar, importa destacar a prontidão da reacção executiva. A cerca de um ano das eleições presidenciais, muitos teriam hesitado em congelar despesa pública. Com receio de perder votos nas urnas, muitos teriam preferido implementar paliativos económicos em vez de buscar mudanças estruturais capazes de gerar crescimento sustentável e duradouro. Ora ficou uma vez mais à vista de todos, dentro e fora do país, que o cálculo eleitoral não se sobrepõe ao imperativo de corrigir o que tem de ser corrigido na Argentina.

Em terceiro lugar, merece igualmente ser sublinhada a coerência das medidas anunciadas com os objectivos – definidos ainda no tempo da campanha eleitoral – de combater a pobreza e de reduzir a inflação.

Para construir um orçamento capaz de erradicar já em 2019 – pela primeira vez em 70 anos – o défice crónico das contas públicas, o Governo vai cortar nos gastos, a começar nos dos ministérios, e cobrar um imposto temporário sobre as exportações. No entanto, para limitar o impacto das medidas junto dos mais desprotegidos, reforçará ao mesmo tempo programas e prestações sociais como o abono de família.

A Argentina prossegue, assim, a rota de normalização institucional, de diálogo com o exterior e de liberalização responsável da sua economia. A esse nível, nada mudou.

Pese embora os solavancos do presente, permanece intacto o potencial de crescimento que levou, nestes últimos anos, centenas de empresas portuguesas, de distintos sectores, a olhar, muitas pela primeira vez, para a Argentina. As abundantes reservas de matérias-primas, a mão-de-obra qualificada e os programas lançados nas áreas das energias renováveis e das infra-estruturas continuam a precisar de investimento estrangeiro.

Estou, portanto, seguro de que os empresários portugueses reconhecem a Argentina como um país confiável para os seus investimentos e que nos próximos meses continuaremos a assistir ao reforço das trocas bilaterais.