Crítica

Cabeças cortadas

Joaquim centra-se no célebre Tiradentes, protagonista e mártir popular da revolta que, em finais do século XVIII, ficou conhecida como a Inconfidência Mineira.

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Joaquim é narrado como um filme de aventuras ao retardador
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Quer o acaso que na semana em que ardeu o Museu Nacional do Rio de Janeiro se estreiem em Portugal dois filmes brasileiros que lidam directamente com a memória histórica do Brasil: Joaquim, de Marcelo Gomes, e Vazante, de Daniela Thomas.

Joaquim centra-se no célebre Tiradentes, protagonista e mártir popular da revolta que, em finais do século XVIII, ficou conhecida como a Inconfidência Mineira. Começa pelo fim: um plano da cabeça cortada de Joaquim, exposta em praça pública, enquanto a voz dele (num monólogo dum morto, portanto, como no início do Sunset Boulevard de Wilder) explica as consequências da conspiração falhada. Outros participantes, conta, tiveram castigos mais brandos, ele foi o único a ser decapitado e esquartejado — “Porquê? Talvez por ser pobre”. Se o desmembramento do Tiradentes amplia os ecos entre Joaquim e outro recente olhar sobre o colonialismo na América do Sul (o Zama, de Lucrécia Martel, onde o protagonista também acabava decepado), essa frase, talvez até com um bocadinho de explicitação a mais, coloca o filme na sua perspectiva geral: uma observação do mundo colonial e das aspirações independentistas onde tudo é “luta de classes” e conflito de interesses pessoais ou colectivos que em caso algum devem ser confundidos com “idealismo”. Para Joaquim Tiradentes, ele próprio, a motivação é subir de patente na carreira militar, e ter o dinheiro suficiente para resgatar a escrava por quem está apaixonado.

É a descrição/imaginação de uma parcela desse mundo, situada na natureza agreste da região mineira, o mais interessante de Joaquim, que se poupa à reconstituição factual da Inconfidência propriamente dita — o filme acaba antes disso, com o Tiradentes a comer alarvemente à mesa de uma família de fazendeiros abastados, o olhar deles selando o seu destino: Joaquim poderá ser-lhes “útil”, mas nunca será aceite como um “deles”. Ele próprio, na característica mais complexa da personagem, está consciente da sua duplicidade, que é como quem diz, da ausência de um lugar preciso: “sou filho de português, portanto também sou português” — ou assim julga ele, numa hierarquia onde os nascidos no Brasil estão sempre abaixo dos vindos de Portugal (representantes oficiais da Coroa ou do poder económico), mas acima dos escravos ou descendentes de escravos africanos e, sobretudo, dos índios. Duma forma razoavelmente subtil, Marcelo Gomes exprime isto por algo que vai além da simples caracterização das personagens e se torna uma questão linguística: em Joaquim ouve-se português brasileiro, português de Portugal (da boca de Nuno Lopes e Diogo Dória), criolo africano e dialectos índios. Não é uma questão de “realismo” (ninguém sabe como se falava realmente no século XVIII), é uma questão de criar uma “tapeçaria” linguística que exprime materialmente a diversidade cultural constituinte da nacionalidade brasileira (aliás, há uma bela sequência “musical”, com um índio e um escravo africano misturando os seus ritmos e cantos próprios, que parece encontrar a origem da música popular brasileira).

Depois, é narrado como um filme de aventuras ao retardador, uma expedição pela natureza mineira, com momentos bem conseguidos (o cruzamento de um rio infestado de piranhas), outros um pouco mais empastelados, mas onde regra geral a relação das personagens com o ambiente circundante sugere e aprofunda o seu estatuto (por exemplo, a completa inadaptação do militar português interpretado por Nuno Lopes). Assim como sugere e aprofunda a inteligência do filme, que aborda o seu tema “de viés”, deixando-o como um conjunto de retratos e de ideias que se vão formando, essencialmente, na cabeça do espectador.