Opinião

O buraco na “muralha” de Paulo Ferrero

O Fórum tem utilizado permanente, em rajada, um tom a roçar um Alarmismo Populista e Ruidoso que não serve a serenidade e qualidade exigidas na discussão.

Este, aparentemente, título personalizado, é o que me resta para me manifestar sobre o importante caso de intervenção no claustro da Sé.

Este texto constitui uma reacção ao texto de Vitor Serrão anteriormente publicado no PÚBLICO, onde este conceituado Professor fazia, equilibradamente, um apelo à serenidade e ao bom senso, mas não só. Ele constitui também uma reacção ao facto de que quando fiz uma tentativa, para obter mais informação detalhada sobre este caso instigado e iniciado por Paulo Ferrero, o qual dirige também a página do Fórum no facebook, imediatamente fui excomunicado devido ao meu tom interessado mas crítico, e foi-me negado qualquer tipo de acesso à mesma página, a partir desse momento.

Portanto se o Fórum proporcionou mais informação sobre o processo/ projecto que fundamentassem as suas posições foi-me impossível conhecê-la.

Ora a discussão que o Fórum pretende abrir, é sem dúvida pertinente e necessária. Ao longo dos anos, aqueles que me seguem aqui no PÚBLICO (e noutros locais) podem confirmar o reconhecimento de uma situação de desequilibrio em Portugal, no que respeita as normas e princípios do Restauro e isto devido à ausência de uma cultura de Restauro tanto no Ensino como na práctica. Ao longo dos anos várias vezes denunciei o facto de que por falta de Arquitectos de Restauro, o restauro está entregue aos Arquitectos “criadores”, que tendem a afirmar-se em ruptura, utilizando-se, em alíbi, do principio de demarcação reconhecível da intervenção em forma e materiais preconizada pela Carta de Veneza (Icomos 1965).

E aqui chegamos a um ponto fundamental e importante. Não é a demarcação em forma e materiais que peca (esta demarcação seguindo a linha “sacral” de Ruskin entre verdade, pela autenticidade de materiais, ou segundo ele, mentira, mantendo uma aparente e falsa “unidade de estilo” numa intervenção posterior e contemporânea) mas é a afirmação arrogante de um arquitecto “criador” através de um “estilo”/ assinatura.

Ora, esta discussão entre estas duas posições sempre existiu (intervenção demarcada, que “não mente’ dentro do princípio “Conservação acima do Restauro”, e outra, em “Unidade de Estilo” pretende “dar a ilusão’ que o Monumento não foi intervencionado posteriormente).

O Fórum defende pois, em artigo recentemente publicado aqui no PÚBLICO, uma posição de “Unidade de Estilo” utilizando Viollet – Le - Duc. Este era, dentro do Revivalismo Gótico, uma das maiores autoridades da teoria do Gótico, tendo revolucionado a mesma teoria através de uma revisitação e duma reaproximação moderna/ Racionalista/ Estruturalista da mesma teoria. Portanto o homem que afirmou no que respeita o Restauro: “Os princípios absolutos nesta matéria podem conduzir ao absurdo”, se não fosse um homem de bom senso, teria, fiel à sua teoria, construído no claustro, uma escada neo-gótica em ferro.

Isto, ele nunca faria, simplesmente, por uma questão de sereno bom-senso.

Portanto, o que está em causa é uma questão de sóbrio bom-senso, utilizando uma solução neutral não afirmativa na sua demarcação (ou pretende o Fórum não permitir o acesso aos achados arqueológicos, ou se sim, construir uma escada Neo-Gótica indiferenciável em estilo e materiais !?).

O Fórum tem utilizado permanente, em rajada, um tom a roçar um Alarmismo Populista e Ruidoso que não serve a serenidade e qualidade exigidas na discussão. Um tom dominado por um ‘Acudam/ Aqui D’El Rei’, sem informar detalhadamente nas suas petições, os prós e contras e todas as perspectivas nos casos. (veja-se o caso do palacete Mendonça que foi alvo de um restauro impecável de Interiores).

Ë importante relembrar a frase: “O óptimo é o maior inimigo do bom” …

E, agora, chegamos a um ponto importante. Paulo Ferrero nunca se manifestou de qualquer modo, directamente, em pessoa e em público.

Nunca o vi fazer uma intervenção, utilizando ele, sempre alguém para expor ou defender as suas posições. Chegou o momento de o fazer. Os seus actos são nitidamente políticos, no que respeitam a uma política da Cultura.

Paulo Ferrero não pode continuar a esconder-se atrás de uma “muralha” de assinaturas, utilizando o alíbi da “Cidadania”.

Chegou a altura de abrir um “buraco na muralha” para Paulo Ferrero e manifestar-se, directamente à luz do público, explicando quem é, o que faz, e o que pretende, em nome de que formação académica, actividade e motivação.

PS. Para aqueles interessados nestas questões do Restauro a minha tese: “História das Ideias, história da teoria da Arquitectura e defesa do património” (Scribe 2010) poderá ser interessante.