Ensaio

O jogo de preceitos morais de João de Barros

Baseado no precursor directo do moderno jogo do gamão, este jogo dos preceitos morais, de 1540, pretendia ser um instrumento didáctico para familiarizar os jovens com as virtudes e correspondentes vícios.

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Réplica do girador, que determina aleatoriamente a peça a jogar, construída a partir das instruções de João de Barros e que é propriedade de Jorge Nuno Silva

João de Barros foi o primeiro grande historiador português e também um pioneiro da gramática portuguesa. Nascido em 1496, foi introduzido por seu pai, Lopo de Barros, na corte de D. Manuel, onde obteve formação em humanidades e literatura, além do vasto conhecimento de latim e de grego, adquiridos enquanto serviu de moço de guarda-roupa do então futuro rei D. João III. Em 1522, João de Barros foi nomeado capitão da Casa da Mina, um importante entreposto comercial do império, o que lhe proporcionou uma visão global do mundo e inspirou grandiosos projectos literários, como os três volumes das Décadas da Ásia.

Entre 1539 e 1540 produziu um completo conjunto de textos pedagógicos, que vai desde o ensino das primeiras letras, até aos princípios morais por que se deve reger a formação de um jovem cristão, na senda de idênticas preocupações educativas da juventude que os grandes humanistas europeus, como Erasmus, também vinham revelando. De entre os textos pedagógicos, temos A Cartinha para Aprender a Ler, a Gramática, o Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem, o Diálogo da Viciosa Vergonha e esta obra que nos ocupará hoje, o Diálogo de Preceitos Morais com Prática Deles em Modo de Jogo. Nesta obra João de Barros trata a Ética de Aristóteles, obra incontornável de filosofia moral, num jogo de tábuas. Os três primeiros livros são dedicados ao infante D. Filipe e o último à infanta D. Maria, filhos de D. João III. No entanto, as suas intenções não se ficariam por aqui. Numa das Décadas, há uma passagem na qual João de Barros revelou ter sido sua intenção trabalhar a Económica e a Política de Aristóteles através, respectivamente, de um jogo de cartas e do jogo de xadrez.

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Frontispício da edição de 1540

O livro Diálogo de Preceitos Morais está organizado em conversa entre o pai, João de Barros, e os seus filhos Catarina e António. Note-se que Catarina deveria aprender bem o jogo para mais tarde o poder jogar com a Infanta D. Maria, na corte. Para o autor, a vida divide-se em três partes, a “deleitosa” – própria dos brutos –, a “moral” – dos homens – e a “contemplativa” – dos anjos. Estando a felicidade, considerada o Supremo Bem, vedada aos animais, é acessível ao homem mediante a prática das virtudes morais.

Este jogo dos preceitos morais, baseado no precursor directo do moderno jogo do gamão, pretende ser um instrumento didáctico para familiarizar os jovens com as virtudes e correspondentes vícios. Tal como no jogo do Gamão, no jogo dos preceitos morais os dois jogadores competem com o objectivo de ganhar. Ganha o jogo quem primeiro faça percorrer as suas peças por todo o tabuleiro.

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Assim, o tabuleiro desenha-se em forma de árvore, surgindo no topo a Felicidade Humana, logo acima das virtudes teologais como a Fé, a Caridade e a Esperança. O tronco da árvore é composto por 12 níveis (ramos), cada um com uma virtude, ao centro, ladeada pelos respectivos vícios, à esquerda – por excesso – e à direita – por defeito. A inspiração para a construção deste jogo terá surgido do livro de Ética de Aristóteles, que João de Barros cita. Por ordem decrescente, a partir das virtudes cardeais – a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança – seguem-se a Liberalidade, a Magnificência, a Magnanimidade, a Modéstia, a Mansidão, a Verdade, a Afabilidade e a Graciosidade (Eutrapelia em Aristóteles). A totalidade dos preceitos morais está enraizada nos quatro membros de um homem deitado, como se pode ver no final do desenho do tabuleiro. Este corpo humano pretende representar a alma e sua expressão, por intermédio do livre arbítrio, na prática de virtudes e seus excessos.

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Peças do jogo: uma virtude e os correspondentes vícios

A descrição do desenho, retirada da segunda edição da obra (de 1563), permite dar sentido a cada uma das 36 casas dispostas em 12 linhas de três quadrados, que constituem a tábua do jogo. O objectivo de cada jogador consistia em percorrer, com as suas peças, as várias fases da vida. Cada jogador dispõe de 12 peças-virtudes e 12 peças-vícios; e cada peça de vício tem dupla face, com as versões por excesso e por defeito. Ganham-se pontos nas escaramuças entre virtudes e vícios. A mecânica do jogo, muito elaborada e nem sempre bem explicitada pelo autor, baseia-se no percurso do tabuleiro, à semelhança do gamão. Um girador, fazendo as vezes do dado usual, determina a peça a jogar e o respectivo movimento. Como diz Barros, “acabando cada jogador de recolher todas as suas virtudes à casa da suma felicidade, fenece o jogo”. Uma posterior contabilidade dos pontos define o vencedor.

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Girador, que determina aleatoriamente a peça a jogar

Na Utopia de Thomas More, publicada em 1516, Rafael Hitlodeu, o narrador português, descreve uma sociedade ideal e longínqua. Quanto a jogos, diz Hitlodeu: “Eles usam dois jogos que lembram o xadrez. Um é uma guerra entre números [...] o outro assemelha-se a uma batalha entre virtudes e vícios, na qual a inimizade entre os vícios e a sua colaboração contra as virtudes estão representadas de forma agradável, assim como a oposição entre cada virtude e os vícios associados e os métodos pelos quais os vícios atacam abertamente as virtudes ou secretamente as enfraquecem; e as virtudes, pelo seu lado, resistem.”

O primeiro jogo a que More se refere é, sem dúvida, o Rithmomachia, jogo criado no século XI para ensinar aritmética e que foi muito popular na Europa, entre as classes eruditas, durante 500 anos (há uma réplica na exposição permanente do Museu Nacional de História Natural e da Ciência). O segundo constitui ainda um mistério. Será o jogo de João de Barros? O Diálogo foi publicado 24 anos após a Utopia de More, é certo. Mas talvez o jogo tivesse sido inventado muito antes e More tivesse dele conhecimento. O facto de um jogo popular ter chegado à corte revela o reconhecimento da sua importante função pedagógica.

Historiador de ciência

Esta série, às segundas-feiras, está a cargo do Projecto Medea-Chart do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que é financiado pelo Conselho Europeu de Investigação