Fotogaleria
, Catarina Valentim,Catarina Valentim
Fotogaleria
Catarina Valentim
Fotogaleria
Catarina Valentim
Fotogaleria
Catarina Valentim
Fotogaleria
Catarina Valentim
Fotogaleria
Catarina Valentim
Fotogaleria
Catarina Valentim

Como dois biólogos e uma ilustradora descomplicam a ciência com viagens em forma de livros

Projecto “Viagens pelo nosso mundo” quer mostrar a ciência de forma divertida e lúdica e chegar a todos a partir dos mais pequenos. Colecção de livros científicos infantis é um dos projectos que concorrem ao Orçamento Participativo.

Foi para o país do português açucarado terminar o curso de Biologia iniciado na Universidade de Aveiro e acabou a descobrir o maravilhoso mundo novo da comunicação de ciência. Inês Ferreira Guedes não se rendeu à primeira. Voltou a Portugal para fazer um mestrado em Biologia Marinha e no fim dos estudos esbarrou num hermético mercado de trabalho onde as vagas eram poucas e a valorização da profissão quase nenhuma. Vai daí, Inês mudou-se para Lisboa. E na capital viu-se na área da animação circense: em cima de andas ou a fazer malabarismos, a portuense trabalhava com crianças como animadora e levava para as sessões a educação e sensibilização ambiental.

O talento dela foi convencendo quem a rodeava — e alguém decidiu inscrevê-la no FameLab, um reconhecido concurso internacional de comunicação de ciência. O conhecimento obtido no Brasil tornava-se útil. Inês conquistou um segundo lugar e com isso a oportunidade de fazer uma palestra em Inglaterra, onde teve formação com Malcolm Love, ex-produtor da BBC e famoso comunicador de ciência. “Quando, ao ver umas fotografias minhas, ele soube que estava a trabalhar com crianças, disse-me: ‘Tu eras boa para escrever livros científicos [para elas]’.” Ao lado, João Cardoso, terceiro classificado do FameLab, ouvia a conversa.

Inês Ferreira Guedes tinha esse desejo há algum tempo. E ali, de repente, tudo fazia sentido: havia o amigo biólogo João Cardoso e o incentivo e a dica de Malcolm Love, que lhes sugeriu candidatarem-se ao Orçamento Participativo (OP).

PÚBLICO -
Foto

A complementaridade entre os dois biólogos revelou-se útil: Inês, 28 anos, ficaria mais focada no macro, na área de campo, ecologia, comportamento animal; João, 22, no micro, laboratório, corpo humano, neurologia. “Começámos a ver umas viagens, de grande e pequeno espectro”, contou Inês Guedes ao P3. E na busca de um terceiro elemento que pudesse completar a equipa, fazendo revisão de textos e ilustração, a bióloga foi recrutar aos tempos de meninice a amiga e designer gráfica Catarina Valentim.

O projecto “Viagens pelo nosso mundo” — proposta número 293 do OP — terá como protagonistas dois amigos inseparáveis, Rock e Star, e integrará uma série de livros científicos para crianças a partir dos seis anos, apresentações dos livros em vários pontos do país, através de teatros de sombras ou dramatizações da história, actividades lúdicas e pedagógicas com os alunos e workshops de teatro de sombras.

PÚBLICO -
Foto
Catarina Valentim

“Acreditamos muito que esta sensibilização vem dos mais novos para os mais velhos e não o contrário”, aponta Inês Guedes, acrescentando que esse público-alvo pode ser “mais desafiante”, mas possivelmente mais maleável: “Estão num processo de formação mais aberto e numa fase mais esponja do que um adulto.”

O trio já definiu alguns dos temas a integrar — e até já vai dando um cheirinho das histórias no Facebook e Instagram. Haverá exemplares sobre a exploração sustentável dos mares, sobre o mar profundo, onde os ecossistemas não têm luz (o tema de mestrado de Inês Ferreira Guedes), expedições pelos continentes e seus diversos ecossistemas, mas também pelo nosso corpo e cérebro.

São muitas as viagens possíveis. E os quilómetros por percorrer quase infinitos. É preciso descomplicar a ciência, acreditam, e esse caminho está a ser feito, ainda que a passo de caracol: “Está a ser desconstruída a ideia da ciência como um bicho de sete cabeças, mas a pontinha das pontinhas do iceberg”. E essa realidade, sublinha Inês Guedes, é clara na “falta de financiamento” e poucos empregos na área. “Não há um contrato para um biólogo marinho trabalhar a educação ambiental na cidade onde vive e trabalha porque, efectivamente, não se reconhece a necessidade dessa sensibilização.”

Se o projecto for um dos vencedores do OP terá 300 mil euros de financiamento para ser posto em prática. Mas os dois biólogos e a ilustradora já não pensam noutra hipótese que não seja levar o projecto avante, com este ou outro apoio. Os livros deverão estar disponíveis no final de 2019.